25 de Março: lembrar as vítimas da escravatura, reconhecer as novas formas de escravidão

 


Legenda da imagem: Braço erguido a sair da água, com o punho fechado em sinal de força e resistência. No pulso, vê-se uma algema partida, com a corrente quebrada. A água agitada à volta reforça a ideia de luta, libertação e sobrevivência.

Ambiente Sonoro recomendado para acompanhar a leitura : Dry Your Tears, Afrika (Amistad/Soundtrack Version)  de John Williams


25 de Março: lembrar as vítimas da escravatura, reconhecer as novas formas de escravidão

Assinalar o Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravatura e do Comércio Transatlântico de Escravos não é apenas revisitar um passado doloroso. É, também, aceitar uma verdade difícil: a escravatura não pertence apenas à História. Mudaram os nomes, mudaram os métodos, mudaram as rotas — mas a exploração extrema de seres humanos continua entre nós.

O dia 25 de Março foi instituído pela Assembleia Geral das Nações Unidas, através da Resolução 62/122, adoptada em 17 de Dezembro de 2007, para preservar a memória das vítimas, honrar a sua humanidade e recordar que o legado desse sistema ainda marca o presente. Recordar esta data é mais do que um gesto simbólico. É um acto de consciência. É reconhecer que milhões de pessoas foram arrancadas à força das suas terras, separadas das suas famílias, reduzidas a mercadoria e sujeitas a uma violência sistemática que negava a sua dignidade mais elementar.

O comércio transatlântico de escravos foi uma das maiores tragédias da humanidade. As suas marcas não desapareceram com o fim legal da escravatura. Permanecem na memória colectiva, nas desigualdades herdadas, nas feridas históricas ainda por sarar e nas formas de racismo e discriminação que continuam a atravessar as sociedades. Por isso, lembrar as vítimas não pode significar apenas olhar para trás. Tem de significar também olhar para o presente com lucidez.

Hoje, já não falamos das mesmas correntes, dos mesmos navios negreiros ou dos mesmos mercados públicos. No entanto, persistem novas formas de escravidão e de exploração humana, escondidas sob outras designações e diluídas em realidades económicas e sociais que continuam a lucrar com a vulnerabilidade humana. Falamos de tráfico de pessoas, de exploração laboral, de exploração sexual, de servidão doméstica, de mendicidade forçada, de casamento forçado e de tantas outras situações em que a liberdade deixa de existir na prática, mesmo quando continua a existir no papel.

Há, por isso, novas formas de escravização no nosso tempo. Não porque a História se repita exactamente da mesma forma, mas porque continua a haver seres humanos tratados como objectos descartáveis, instrumentos de lucro ou corpos sem direitos. São homens, mulheres e crianças apanhados em redes de abuso que exploram a pobreza, o medo, a migração forçada, a exclusão social e a ausência de protecção. Muitas vezes, estas vítimas permanecem invisíveis, não porque não existam, mas porque o mundo aprendeu a desviar o olhar quando a exploração acontece longe da vista ou se esconde por detrás de promessas falsas, documentos retidos, dívidas impostas e dependências forçadas.

Também as rotas mudaram. Se outrora o Atlântico foi o grande corredor do horror, hoje as rotas contemporâneas de tráfico e exploração cruzam o Mediterrâneo, o Norte de África, a África subsaariana, a América Central, os Balcãs e outras passagens marcadas pela guerra, pela fome, pela instabilidade e pelo desespero. Ao longo destas rotas, muitos migrantes e pessoas deslocadas enfrentam riscos extremos: sequestro, extorsão, violência, exploração sexual, trabalho forçado e tráfico humano. A vulnerabilidade transforma-se, para muitos, numa porta aberta à exploração.

O tráfico de pessoas é hoje um fenómeno profundamente transnacional e cada vez mais sofisticado. Alimenta-se das fragilidades sociais, das desigualdades económicas, dos conflitos armados, das crises humanitárias e da falta de respostas eficazes de protecção. Não se trata de um problema distante, confinado a lugares remotos ou marginais. Trata-se de uma realidade que se infiltra nas sociedades, nas fronteiras, nos sistemas laborais e até nas cadeias de consumo, muitas vezes de forma silenciosa e difícil de detectar.

É precisamente por isso que a memória da escravatura tem de ser activa. Não pode ser um ritual vazio, nem uma evocação confortável de algo que julgamos ultrapassado. A memória só honra verdadeiramente as vítimas quando nos obriga a reconhecer as continuidades entre o passado e o presente. Quando nos leva a questionar que formas de racismo, de desumanização, de desigualdade e de indiferença continuam a permitir que a dignidade humana seja violada.

Lembrar as vítimas da escravatura é honrar quem sofreu, quem resistiu e quem viu a sua liberdade ser roubada. Mas é também recusar que o presente continue a produzir vítimas em silêncio. A verdadeira memória não se limita a recordar os mortos; protege os vivos. E talvez seja essa a exigência mais urgente deste dia: não permitir que a escravatura sobreviva apenas porque aprendeu a esconder-se melhor.

Crédito da imagem: Fremantle, via Organização das Nações Unidas

Bibliografia

Nações Unidas — International Day of Remembrance of the Victims of Slavery and the Transatlantic Slave Trade
https://www.un.org/en/observances/transatlantic-slave-trade

Nações Unidas — A/RES/62/122
https://docs.un.org/en/A/RES/62/122

UNODC — Global Report on Trafficking in Persons 2024
https://www.unodc.org/documents/data-and-analysis/glotip/2024/GLOTIP2024_BOOK.pdf

UNODC — Launch of the Global Report on Trafficking in Persons 2024
https://www.unodc.org/unodc/frontpage/2024/December/launch-of-the-global-report-on-trafficking-in-persons-2024.html

OIM / DTM — Annual Global Overview of Migration Routes 2024
https://dtm.iom.int/sites/g/files/tmzbdl1461/files/reports/Annual%20Global%20Overview%20of%20Migration%20Routes.pdf?iframe=true

OIM / DTM — Global Overview of Migration Routes 2024
https://dtm.iom.int/reports/global-overview-migration-routes-2024

@Manuela Ralha, Março 2026

Comentários