Luna in Lacu
Sugestão de escuta: para acompanhar esta leitura, deixo uma peça que me inspira profundamente — uma interpretação serena e luminosa de Chopin, que reflete com subtileza a alma deste texto.
Ouvir: Chopin — Nocturne Op. 9 No. 2 por Seong-Jin Cho
Desde cedo aprendi que viver não é apenas passar pelos dias, mas preencher cada instante com totalidade. As palavras de Ricardo Reis — "Para ser grande, sê inteiro: nada / Teu exagera ou exclui." — tornaram-se para mim mais do que um ideal literário; são um princípio orientador, uma bússola moral que me recorda, a cada passo, a importância da inteireza no viver.
Com o tempo, descobri também outro poema que me acompanha e sustém: as palavras de Walt Whitman, tão diferentes no estilo, mas tão próximas no essencial, tocaram-me profundamente — "Aproveita o dia, / Não deixes que termine sem teres crescido um pouco, / sem teres sido feliz, sem teres alimentado os teus sonhos…" A poesia tem essa capacidade: de nos alcançar onde mais precisamos, de nos recordar aquilo que já sabemos, mas tantas vezes esquecemos.
A vida nem sempre foi simples. Como a de todos, a minha história tem curvas, pausas, tropeços e recomeços. E foi precisamente nesses momentos de recomeço que compreendi o verdadeiro sentido de ser inteira. Porque ser inteira não é nunca cair — é continuar a levantar-me, mesmo quando me faltam as forças, mesmo quando o caminho parece ter-se apagado. Ser inteira é não abdicar daquilo que me define, mesmo quando o mundo me empurra para atalhos onde eu não me reconheço.
Se hoje sou quem sou, devo-o a muitos silêncios escutados e a muitas vozes que me moldaram. Os valores que me orientam nasceram das raízes da minha terra, da história do meu concelho, dos gestos humildes e firmes dos meus antepassados. Cresci a ouvir histórias à mesa, a observar sem saber que aprendia, a receber tempo e presença de quem me amava com simplicidade. Também bebi muito nos livros que li, nas canções que me embalaram em certas fases da vida, e até nos silêncios que me ensinaram a respeitar aquilo que não se diz, mas se sente.
Tudo isso construiu a mulher que sou. Uma mulher que procura ser inteira — em tudo e com todos.
Como mãe, dei tudo o que pude e mais ainda, muitas vezes em silêncio, noutras com lágrimas, mas sempre com amor. É um amor que exige entrega total — não uma parte de mim, mas o meu todo. E continuo a dá-lo, mesmo quando os filhos crescem e voam. Como avó, essa entrega ganha uma doçura diferente. Há uma leveza no olhar, uma alegria serena em ver a vida continuar. Ser avó é ter o privilégio de amar com a experiência de quem já viu muito, e com a esperança de quem ainda sonha.
Como filha, carrego comigo um legado que me honra. Um legado feito de valores, de gestos, de exemplos. De palavras ditas no tempo certo e também de silêncios que ensinaram mais do que mil conselhos. Como irmã e amiga, procuro ser presença verdadeira, sem máscaras, sem meias-palavras. Estar disponível, escutar com atenção, dar o ombro e a mão — tudo isto, para mim, é também ser inteira.
Na minha vida profissional, não deixo o que sou à porta. Entrego-me aos projectos com o mesmo rigor com que me dou às pessoas. Não acredito em fazer por fazer. Cada tarefa, por mais pequena, é digna da minha atenção. Porque, como diz Ricardo Reis, “põe quanto és no mínimo que fazes”. E acredito mesmo que a forma como tratamos os pormenores diz muito da forma como olhamos o mundo.
Cada decisão que tomo carrega em si este compromisso com a inteireza. Cada pessoa que me procura, cada projecto que abraço, cada pequena escolha do quotidiano — tudo é uma oportunidade de estar inteira, de viver com coerência, de não trair aquilo em que acredito. E mesmo quando erro, procuro voltar a mim, corrigir o rumo, começar de novo, com a mesma honestidade.
A vida, como dizia Whitman, “é deserto e oásis. / Nos derruba, nos lastima, nos ensina, / nos converte em protagonistas da nossa própria história.” Por mais que o vento sopre contra, a poderosa obra continua — e eu posso trocar uma estrofe. Não quero cair no pior dos erros: o silêncio que resigna. Prefiro o silêncio que escuta, que acolhe, que respeita. Mas nunca aquele que apaga a voz e apaga a alma.
A beleza das coisas simples continua a inspirar-me. O gesto espontâneo, o olhar atento, uma palavra justa no momento certo. São esses pequenos gestos que fazem a vida extraordinária. Não me resigno à mediocridade, nem à pressa de quem vive apenas para cumprir o dia. Quero viver com inteireza. Quero sonhar. Quero continuar a acreditar que as palavras e a poesia podem mudar o mundo — ou pelo menos o meu mundo.
Porque acredito que, mesmo quando tudo parece escuro, “em cada lago a lua toda / brilha, porque alta vive”. E é isso que quero ser: um lago calmo, verdadeiro, onde se reflita, com simplicidade e profundidade, o melhor de mim.
© Manuela Ralha 2025

És linda! Recebe um abraço.
ResponderEliminarBem hajas fazes a diferença.
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