Violência: reconhecer, denunciar e agir – uma responsabilidade coletiva
Não sugiro ambiente sonoro para acompanhar este texto.
O silêncio que tantas vezes envolve o tema da violência é, em si, demasiado barulhento.
Um silêncio que esconde, que sufoca, que permite. Um silêncio que fere tanto como o grito.
E é precisamente esse silêncio que urge quebrar.
A violência é um fenómeno multifacetado, profundamente enraizado nas estruturas sociais, e que se manifesta de forma visível ou invisível, direta ou subtil, individual ou coletiva. A maioria das pessoas associa violência exclusivamente à agressão física, ignorando as múltiplas formas que esta pode assumir: violência psicológica, simbólica, económica, institucional, estrutural, racial ou de género. Esta limitação conceptual contribui para a sua invisibilidade e, pior ainda, para a sua normalização.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) define violência como “o uso intencional da força física ou do poder, real ou ameaçado, contra si próprio, outra pessoa, ou contra um grupo ou comunidade, que resulte ou tenha uma alta probabilidade de resultar em ferimento, morte, dano psicológico, mau desenvolvimento ou privação” (World Health Organization, 2002, p. 5). Esta definição destaca que o poder e o controlo também são formas de violência, mesmo quando não deixam marcas visíveis no corpo.
Estas formas de violência, tal como observa Angela Davis (1981), não são acidentais, mas sistémicas. Elas refletem estruturas de poder profundamente enraizadas que perpetuam desigualdades e silenciam vozes. A autora denuncia como a violência racial e de género se entrelaçam, formando um sistema de opressão que penaliza sobretudo as mulheres negras, imigrantes e pobres. Como refere: “a intersecção entre racismo, sexismo e exploração económica cria uma base sólida para a normalização da violência”.
A banalização da violência é um fenómeno particularmente perigoso. Os discursos de ódio – contra mulheres, minorias étnico-raciais, pessoas com deficiência ou outros grupos vulneráveis – proliferam nas redes sociais e nos espaços públicos, muitas vezes disfarçados de “liberdade de expressão”. Como alerta Hannah Arendt (1969), a aceitação social do inaceitável transforma a violência em rotina, desprovida de escândalo.
Em muitos casos, a violência apresenta-se sob a aparência de proteção, cuidado ou afeto. É o que sucede frequentemente na relação com pessoas idosas, com deficiência, crianças ou dependentes, em que se tomam decisões sem escuta, se limitam liberdades em nome da segurança, ou se perpetua a infantilização. Como observa Michel Foucault (1975), o poder moderno exerce-se de forma insidiosa, por via de mecanismos de controlo e vigilância que se apresentam como normais ou até carinhosos. Judith Butler (2004) sublinha que reconhecer a vulnerabilidade do outro não pode justificar o controlo, mas sim exigir respeito pela autonomia e ação ética.
Neste cenário, torna-se fundamental reconhecer que muitas vítimas não se encontram em posição de denunciar. O medo, a vergonha, a dependência económica ou emocional, e até a ausência de consciência de que estão a ser vítimas, impedem-nas de agir. Daí que o papel da sociedade – vizinhos, colegas, profissionais, amigos e familiares – seja absolutamente essencial.
É necessário afirmar, com firmeza, que todos e todas temos o dever ético e cívico de denunciar qualquer indício de violência. Não é aceitável que nos refugiemos no conforto da indiferença ou na desculpa da “não intromissão”, quando a integridade de alguém está em risco. Diante desta realidade, a denúncia da violência é um dever ético de todos, não apenas das vítimas. Como reforça Martha Nussbaum (2010), “a compaixão pública é a base de uma sociedade decente” (p. 39) – e essa compaixão deve traduzir-se em ação, não apenas em sentimento.
Infelizmente, vivemos ainda em contextos onde é comum culpar a vítima ou minimizar a gravidade da violência, especialmente quando esta não é visível. A violência psicológica, o controlo financeiro, o isolamento, a chantagem afetiva ou o abuso verbal são frequentemente desvalorizados ou vistos como “problemas familiares”. Esta atitude coletiva de negação alimenta o ciclo da violência.
Denunciar é, por isso, um ato de coragem e de cidadania ativa. É afirmar que não aceitamos viver numa sociedade onde o sofrimento alheio é ignorado. É rejeitar a banalização da violência e defender uma cultura de responsabilização, escuta e cuidado. Como recorda Primo Levi (1958), sobrevivente do Holocausto, “quem ignora o sofrimento do outro torna-se cúmplice do mal”.
Perante a complexidade da violência contemporânea, é imperativo agir em rede. A resposta não pode ser isolada ou setorial. Escolas, serviços de saúde, instituições de justiça, autarquias, organizações da sociedade civil e cidadãos devem cooperar de forma coordenada. A denúncia tem de ser acompanhada por mecanismos eficazes de proteção, de escuta e de justiça. É essencial educar para os direitos humanos, para a igualdade e para a não-violência, desde a infância – promovendo uma cidadania ativa, crítica e empática.
A violência não é um problema privado, nem um fenómeno isolado. É uma questão social, política e estrutural, que exige de todos uma postura consciente, ativa e coletiva. Enquanto sociedade, não nos podemos calar. O silêncio, a indiferença e a passividade são formas de cumplicidade.
Reconhecer, denunciar e agir são os três pilares fundamentais de uma resposta ética, justa e humana à violência, seja ela física, psicológica, de género, racial, institucional ou simbólica.
Denunciar é proteger. Agir é transformar. Calar é permitir.
© Manuela Ralha, 2025
Referências (edições em português)
- Arendt, H. (2006). Eichmann em Jerusalém: Uma reportagem sobre a banalidade do mal. Lisboa: Relógio D’Água.
- Butler, J. (2021). A força da não‑violência: Um vínculo ético‑político (H. R. Candiani, Trad.). São Paulo: Boitempo. ISBN: 978-65-5487-046-0.
- Davis, A. (2023). Mulheres, Raça e Classe (D. Antunes, Trad.). Lisboa: Orfeu Negro. ISBN: 978-65-5734-014-0.
- Foucault, M. (2013). Vigiar e Punir: Nascimento da prisão (M. L. Ribeiro Ferreira, Trad.). Lisboa: Edições 70. ISBN: 978-972-441-766-0.
- Levi, P. (2023). Se isto é um homem (S. Cabrita Neto, Trad., 13.ª ed.). Lisboa: Dom Quixote. ISBN: 978-972-20-5030-5.
- Nussbaum, M. C. (2019). Sem fins lucrativos: Por que a democracia precisa das humanidades (M. J. da Costa, Trad.). Lisboa: Edições 70. ISBN: 978-972-442-174-2.
- Organização Mundial da Saúde. (2002). Relatório mundial sobre violência e saúde. Genebra: OMS. Disponível em: https://www.who.int/violence_injury_prevention/violence/world_report/en/
Sugestão de leitura complementar
Boaventura de Sousa Santos (2003). Pela mão de Alice: O social e o político na pós-modernidade. Coimbra: Almedina.
Esta obra é recomendada para aprofundar a compreensão das formas invisíveis de violência e injustiça. Boaventura propõe caminhos alternativos para a construção de sociedades mais justas, dando voz aos saberes e às resistências silenciadas. Uma leitura essencial para quem pretende pensar criticamente a violência estrutural e a importância de uma cidadania ativa e solidária.
Outras leituras recomendadas por temas:
1. Violência estrutural e institucional
2. Violência de género e feminismos interseccionais
Silvia Federici (2019). Calibã e a bruxa: Mulheres, corpo e acumulação primitiva. Lisboa: Antígona.
Explica como a violência sobre os corpos femininos esteve na base da transição para o capitalismo moderno. Essencial para pensar o género na história da violência.
Maria José Magalhães, et al. (2013). Violência doméstica e de género: Avaliação e intervenção com vítimas. Lisboa: Universidade do Porto / CIG.
Manual técnico que oferece ferramentas práticas para quem trabalha no terreno com vítimas de violência doméstica. Útil para psicólogos, assistentes sociais, educadores e forças de segurança.
3. Violência simbólica, afetiva e psicológica
4. Testemunhos e memória da violência
Elie Wiesel (2001). Noite. Lisboa: Dom Quixote.
Relato comovente e essencial sobre a vivência de um adolescente nos campos de concentração. Um testemunho sobre a desumanização e a memória histórica da violência.
5. Educação, empatia e prevenção
Daniel J. Siegel & Tina Payne Bryson (2016). O cérebro da criança. Lisboa: Lua de Papel.
Explora o desenvolvimento emocional das crianças e como práticas educativas conscientes podem prevenir comportamentos agressivos e promover a empatia.

É fruto de complexos de inferioridade e superioridade que normalmente vivem de mãos dadas . Educação e amor é um caminho.
ResponderEliminarAlguém escreveu que há silêncios que matam mais. Matam porque devastam a alma e a vida. Há o silêncio dos outros que são cúmplices e o silêncio daqueles que se dizem nossos e o usam para desprezar o sofrimento que causam. Depois há aqueles que sendo vítimas do silêncio o assumem como parte integrante das suas vidas por saberem que ninguém os escuta verdadeiramente. Os danos desse silêncio creio que poucos conseguem compreender. É provavelmente a mais profunda solidão.
ResponderEliminarRC