Quando o Corpo Também é Político

Há quem diga que a política é feita com a cabeça. Eu acredito que também se faz com o corpo. Com o corpo que sente, que resiste, que enfrenta escadas sem rampas, que espera elevadores que não chegam, que ouve silêncios em vez de respostas.

Sou vereadora municipal e tenho tetraplegia incompleta. Todos os dias, cruzo a minha vida pessoal com a função pública que desempenho. E é nesse cruzamento – por vezes difícil, mas sempre transformador – que encontro o verdadeiro sentido da política: servir, escutar, mudar.

Não cheguei aqui por acaso, nem apesar da minha deficiência. Cheguei com ela. Ela ensinou-me a ter uma leitura diferente do mundo. A reconhecer onde faltam acessos, onde faltam apoios, onde faltam vozes. E também a perceber que a invisibilidade começa muitas vezes nos corredores do poder.

Há uma distância real entre quem decide e quem vive na pele as consequências dessas decisões. A minha presença nos espaços de decisão é, por isso, mais do que simbólica: é uma afirmação prática de que as políticas inclusivas não se fazem sem pessoas com deficiência à mesa. E não basta cumprir a lei. É preciso antecipar obstáculos, ouvir experiências, e agir com empatia e conhecimento de causa.

Com o tempo, fui percebendo que a minha vivência não era uma limitação, mas um instrumento político poderoso. Porque só quem sente as barreiras pode ajudar a derrubá-las com verdade. Por isso, luto diariamente por uma cidade mais acessível, por serviços municipais que respeitem todas as formas de estar, por políticas públicas que façam da inclusão um princípio e não um apêndice.

Ser vereadora com deficiência não é apenas ocupar um cargo. É representar realidades muitas vezes esquecidas. É abrir caminho para que outras e outros possam chegar. É mostrar que o corpo, mesmo quando limitado, pode ser um espaço de transformação.

No fundo, faço política com o corpo inteiro. Com a cabeça, sim. Mas também com a experiência, com as dificuldades, com a escuta e com a convicção de que um município verdadeiramente inclusivo constrói-se com todos – e para todos.

Manuela Ralha



Comentários

  1. É isso mesmo, temos que lembrar a sociedade em geral que existimos em carne e osso e que as leis/normas têm que sair do papel e serem aplicadas e fiscalizadas.
    E tendo aprendido com a "melhor " cá vou dando o corpo e a voz às dificuldades sentidas.
    Bjs Paula S.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

A escrita só se completa no diálogo. Se quiseres, deixa a tua reflexão.
© Manuela Ralha