Entre o Silêncio do Tejo e a Voz da Rua

Desperto com o rumor discreto do Tejo. À primeira vista, o rio parece quieto, mas sei que a sua mansidão é apenas disfarce: leva na corrente memórias de revoltas, travessias, esperanças. Talvez seja por isso que não aprendi a conformar-me. O que me move nasce dessa mesma força subterrânea: a certeza de que a dignidade não é ornamento, é fundamento; de que cultura e educação não são adereços, são raiz e horizonte.

Caminho pelas ruas do concelho como quem lê um livro vivo. Cada praça tem um eco de histórias, cada rosto guarda um fragmento de futuro. Mas, entre as pedras e os risos, chegam os ruídos que me inquietam. A palavra fácil que transforma migrantes em ameaça. A indiferença perante a pobreza que se instala devagar. A recusa em aceitar que equidade e justiça social não são favores: são direitos, tão essenciais como o ar que respiramos. O conformismo sussurra “sempre foi assim”, tentando adormecer a coragem.

E então a serenidade do rio contrasta com a fúria que me atravessa. Indigna-me a mentira repetida até se tornar “verdade”. Enerva-me a política de palco, a fotografia que vale mais do que o serviço. Revolta-me ver portas fechadas a quem apenas pede igualdade de oportunidade: na escola, no trabalho, no acesso à cultura, no espaço público. Essa raiva, porém, não me envenena: é o sal que dá sabor à ação.

Escrevo porque a indignação é, afinal, uma forma alta de amor. Amor pelo concelho que é meu e de todos, pela gente que o habita, pelo país que insiste em ser possível. Amor por esta democracia que é verbo de presença, nunca de descanso. O Tejo corre em silêncio, mas a rua tem voz. E nessa voz, que é também a minha, ecoa a promessa de que a mudança se faz todos os dias — com a firmeza de quem sabe que a esperança, quando se transforma em gesto, é a mais radical das poesias.

Manuela Ralha


Comentários

  1. Tão bonito e inspirador! Acredito mesmo na sua pessoa, na sua boa vontade em mudar o mundo. E acredito, que é de pequenas ações que todas juntas serão grandes ações. Desejo que consiga continuar a usar a sua varinha de condão como fada madrinha deste concelho. Desejo-lhe coragem e uma capacidade voraz para lidar com as adversidades e a falta de seriedade e empenho de tantos outros em fazer crescer um mundo melhor. Um beijinho

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  2. Maravilhoso. És um ser humano, único.

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  3. Lindo e muito inspirador. Continue sempre nesse caminho, que eu a acompanho.

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  4. Muito bonito e bem real. As suas palavras têm força. Continue!

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  5. Parabéns
    Um texto excelente de exemplo para ter coragem e vontade de ultrapassar os obstáculos que a vida nos põe no caminho
    Bem-haja



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  6. Só quem te conhece sabe bem do que és capaz. Bem hajas por tudo e por tanto. Beijinhos

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© Manuela Ralha