"A Montanha Mágica" e a Europa em Suspensão: Leituras Políticas para o Portugal Contemporâneo
“O tempo, dizem, é como a música: para ser sentido, precisa de ser vivido.”
Thomas Mann, A Montanha Mágica
Ambiente sonoro sugerido para a leitura:
Richard Strauss – “Metamorphosen” (1945), um lamento para cordas que traduz a melancolia europeia de Mann,
ou Rodrigo Leão – “Fronteira” (2021), minimalismo português que prolonga o instante e convida à reflexão cívica.
Publicado em 1924, o romance "A montanha mágica" permanece uma das mais significativas meditações literárias sobre tempo, doença, cultura e crise da modernidade. Hans Castorp, jovem engenheiro alemão, chega para uma breve visita a um sanatório nos Alpes suíços e ali permanece sete anos. Esse sanatório de Davos é mais do que cenário: constitui um microcosmo da Europa pré-Primeira Guerra Mundial, reunindo doentes de várias nacionalidades e tornando-se palco de debates ideológicos acesos. O isolamento físico simboliza a paralisia de um continente que, enquanto discute ciência, religião e política, ignora a doença que o corrói por dentro. Este quadro encontra eco na experiência portuguesa: nas décadas que antecederam a Revolução de 25 de Abril de 1974, Portugal viveu a sua própria “montanha mágica”, um país aparentemente imóvel, fechado sobre si, onde o tempo social se dilatava numa longa espera entre tradição e modernidade, entre ditadura e democracia.
Ainda hoje, já em democracia, persiste um sentimento de entropia em domínios como a habitação, a desigualdade ou a lenta resposta à emergência climática, ecoando a sensação, presente no romance, de que “o mundo avança, mas nós estamos parados”. Em Davos, o tempo alonga-se, os dias confundem-se, e a ilusão de estabilidade esconde a iminência da guerra. Portugal conheceu idêntico compasso de espera: décadas de rotinas imutáveis, de discursos repetidos, lembrando a circularidade das refeições, das medições de febre e das conversas infindáveis do sanatório. Tal como os doentes de Mann, a sociedade portuguesa oscilava entre a esperança de cura — no nosso caso, a expectativa de abertura democrática — e a inércia de um regime que se alimentava do próprio imobilismo.
A pandemia de COVID-19 devolveu-nos essa experiência de suspensão. Durante meses, Portugal viveu sob regras rígidas, medições de temperatura, protocolos de higiene e um silêncio nas ruas que parecia extrair o som do tempo. O medo do contágio coexistia com a necessidade de manter algum contacto humano, reproduzindo a tensão que atravessa o romance entre a pulsão de viver e a consciência da fragilidade. Em ambos os casos, a doença serviu de catalisador para refletir sobre prioridades, para redescobrir o tempo interior e questionar a fé cega no progresso. No sanatório de Mann, o debate não se restringe ao corpo: a doença abre espaço a discussões intensas entre ciência e fé, razão e misticismo. Durante a pandemia, Portugal viveu dilemas análogos. A confiança na ciência — vacinas, estudos epidemiológicos, recomendações sanitárias — teve de coexistir com discursos de desconfiança, teorias conspirativas e leituras quase religiosas da crise.
A força do romance reside também no confronto ideológico. Settembrini, humanista liberal, e Naphta, jesuíta de inclinação autoritária, encarnam perspetivas opostas que antecipam os choques políticos do século XX. Este diálogo permanece inquietantemente atual. O crescimento de discursos de extrema-direita, a banalização do ódio nas redes sociais e a tentação de soluções simplistas para problemas complexos são hoje sinais de que a história nunca se encerra. Mann lembra-nos que o debate intelectual é frágil, mas imprescindível, e que a indiferença é a porta de entrada para a barbárie.
A dilatação temporal da narrativa encontra eco em processos políticos e sociais portugueses: a morosidade judicial, a lentidão das grandes obras públicas, a dificuldade em concretizar reformas estruturais. Mas também na esfera íntima: a consciência de que o tempo é um recurso finito e de que a pausa deliberada pode constituir ato de resistência num contexto laboral frequentemente marcado por longas jornadas e precariedade.
Ler A montanha mágica hoje é, portanto, um ato político. É reconhecer que o imobilismo é confortável mas perigoso; que a democracia exige debate, vigilância e coragem; e que o tempo — pessoal e coletivo — não pode ser desperdiçado em complacência. Thomas Mann oferece-nos, mais de um século depois, um espelho para pensar a Europa e Portugal: a espera só tem sentido se for preparação para descer da montanha e agir.
Manuela Ralha
Referência bibliográfica:
Mann, T. (1924/2022). A montanha mágica (A. Sousa Ribeiro, Trad.). Lisboa: Relógio D’Água.

Boa noite, Manuela Ralha sim uma perfeita reflexão dos tempos atuais.
ResponderEliminarVivemos tempos democráticos difíceis as nossas forças políticas não souberam a tempo lidar a tempo com o fenômeno do chega.
Cabe a cada um de nós reverter essa situação ... vai ser difícil enquanto o voto de protesto não voltar ...para isso teremos de argumentar com verdade a máscara mais cedo do que tarde vai cair!!
Boa campanha saúde e continue a ser essa pessoa extraordinária 👌
É um prazer "ouvir" as notas da sua escrita. Um blogue que nos recebe bem, e quando exploramos esta casa, percebemos que os outros contam. Obrigada pelas reflexões aqui publicadas.
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