Trilogia da Sensibilidade - III Parte - O Regresso à Ternura
Ensaio sobre a ternura como resistência ética, política e humana
“A ternura é a força dos que não têm força.”
— José Tolentino Mendonça
🎧 Ambiente sonoro proposto enquanto lê: Yo-Yo Ma – “The Swan” (Camille Saint-Saëns)
O violoncelo não fala: recorda. É a voz do que compreendeu — e, por isso mesmo, já não precisa de gritar.
Depois do ruído e da dor, a ternura é o que resta — e o que pode recomeçar o mundo. Não é o gesto de quem desiste, mas o de quem finalmente compreende. A ternura é o ponto onde a ferida e a cura se encontram — a síntese entre a lucidez e o amor.
Nos últimos tempos, falámos do silêncio e da coragem. Mas ambos seriam inúteis se não nos reconduzissem a este lugar: o da presença inteira, do olhar limpo, do toque que não se impõe. A ternura é o nome discreto dessa plenitude.
Não basta sentir: é preciso transformar o sentir em vínculo. A ternura é o sentimento que se faz gesto, que atravessa o corpo e se inscreve na vida comum. É o ponto de encontro entre a ética e a beleza, entre o dever e o afeto.
Por isso, não é um luxo nem um ornamento — é a base do que ainda nos pode salvar. Porque toda a política, toda a educação, toda a justiça sem ternura é apenas técnica. E o humano não se mede em resultados, mede-se em cuidado.
Posso não poder mudar o mundo todo — mas faço a minha parte. E essa parte é o meu lugar no mundo. É o modo como acolho o outro, como escuto, como não passo indiferente. É aí que a ternura se torna real: no gesto pequeno que resiste à desumanização geral.
Ser terno é agir com consciência e compaixão ao mesmo tempo. É saber que o bem não se impõe, mas acontece, quando a mão se estende sem cálculo. A ternura é o contrário da pressa, e também o contrário da distância. É proximidade que pensa.
Talvez seja isso o essencial:
não mudar o mundo inteiro,
mas recusar o conforto de o deixar como está.
Fazer o que é possível — e, às vezes, o impossível — para que a vida à nossa volta não se torne impossível de amar.
A ternura não é apenas o acorde da resolução — é a nota de partida.
É o lugar onde a dor amadurece e se converte em responsabilidade.
Onde o sentir se transforma em ética, e a compaixão em ação.
Porque o contrário da indiferença não é só o amor — é o compromisso.
Ser terno, hoje, é um ato político:
é escolher o cuidado quando o descuido é regra,
é permanecer próximo quando o mundo se fragmenta,
é continuar a acreditar que a humanidade ainda é um verbo no presente.
A ternura é o que nos resta — e é também o que nos convoca.
É a revolução possível, aquela que começa onde estamos,
nas pequenas constelações do quotidiano,
onde uma presença muda mais do que mil discursos.
© Manuela Ralha, 2025

Amei...Manuela estou a passar por essas vivências onde muitas vezes não encontramos soluções para os problemas e as soluções que existem...demoram eternidades!!
ResponderEliminarMas o amor/ternura que tenho por quem me criou,educou e nos quais aprendemos a palavra "respeito"
Não está fácil tem sido dois anos de desgaste ... permanente!!!
Bem haja Amiga
Um forte abraço
Minha cara amiga Manuela , estou deliciada com a beleza do texto e todas as verdades e desafios nele contido.
ResponderEliminarObrigada por tudo, e pelo tanto que fazes, pelo modo terno com que tocas as pessoas.
Abraço-te com carinho, desejando as mais ricas bênçãos do céu sobre ti.
Em suma, viver com ternura é um acto de coragem e de desprendimento tão difícil de executar nestes tempos e ao mesmo tempo, tão aparentemente elementar ao ser humano. Pergunto-me se deve ser uma escolha ou deveria ser uma consequência.
ResponderEliminarRC
“ Depois do ruído e da dor, a ternura é o que resta — e o que pode recomeçar o mundo. ” A síntese perfeita.
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