Trilogia da Sensibilidade - I Parte - O Silêncio dos que já não se comovem


Ensaio sobre a indiferença, a solidão e a escuta

“O contrário do amor não é o ódio, é a indiferença.”
Elie Wiesel

Ambiente sonoro proposto enquanto lê: Samuel Barber – Adagio for Strings

Uma elegia para o que ainda sentimos. O lamento que é também um apelo à humanidade.

Vivemos tempos em que a emoção se tornou suspeita e a empatia, um luxo. O silêncio não é apenas ausência de som — é a mudez dos que deixaram de se comover. E quando já nada nos toca, começamos a desaparecer por dentro.

A indiferença tornou-se uma forma de sobrevivência social. Disfarçada de lucidez, ergue muros onde antes havia pontes. Dizemos que estamos cansados, que é preciso proteger-nos. Mas entre a proteção e o distanciamento há uma fronteira delicada — a que separa o cuidado de si da desistência do outro.

A pressa ocupou o lugar da presença. A saturação substituiu o espanto. O olhar tornou-se utilitário, a palavra tornou-se ruído. Perdemo-nos num tempo em que sentir é sinónimo de fraqueza e a frieza é confundida com força. Vivemos conectados a tudo, mas ausentes de quase todos.

É nesse ruído que o silêncio se instala — o silêncio do que não se quer ver, do que se ignora para não doer, do que se finge não existir. A anestesia emocional transformou-se em norma. E o que não dói, não move. Mas um mundo que deixou de se comover é um mundo que começa a morrer.

A indiferença não é um estado neutro — é uma escolha. É o momento em que o olhar se desliga da responsabilidade, e o outro deixa de existir como igual. É uma doença moral disfarçada de pragmatismo. E cura-se apenas com presença: com a coragem de escutar, de se comover, de não fugir à dor do outro.

Não é fácil permanecer vulnerável num tempo que recompensa a dureza. Mas a verdadeira força não está na rigidez — está na empatia que persiste, mesmo quando o mundo se distrai.

Há dias em que o silêncio pesa mais do que o ruído. É o silêncio das ruas sem gestos, das conversas sem alma, dos olhares que não se encontram. Um silêncio que não acalma — que adormece. E é desse adormecimento que nascem todas as formas de violência: a exclusão, o desprezo, o esquecimento.

Ser humano é deixar-se afetar. É sentir o que o outro sente, mesmo quando isso incomoda. É saber que o sofrimento dos outros também nos diz respeito. E é por isso que o silêncio dos que já não se comovem é o mais perigoso de todos: porque legitima o inaceitável.

Talvez o verdadeiro silêncio não seja o da ausência, mas o da escuta. Escutar é o primeiro gesto da ternura — a forma mais discreta de dizer: “ainda estou aqui.” E talvez seja isso que o mundo espera de nós: menos ruído, mais presença; menos palavras, mais humanidade.

(c) Manuela Ralha 


Comentários

  1. Obrigada minha querida amiga por mais uma aprendizagem.
    Gosto de te ouvir.
    Beijinhos ❤️❤️❤️❤️

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  2. E é no meiode tanto silêncio indiferente, que fazemos diferente, silenciosos, mas olhando sempre para todos os olhos com que nos cruzamos, e num

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  3. Tão oportuna e eficaz está reflexão. Que ela se traduza, enquanto alerta, em ação e atenção para o outro. Bem haja, Manuela. Beijinhos

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  4. Ouvir é fisiológico, escutar é ter vontade de entender, estar cocntrado para interpretar a mensagem. Linda!

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© Manuela Ralha