“Levanta-te e Anda”: Crónica de um Renascimento
“Tudo pode ser tirado a um homem, exceto uma coisa: a última das liberdades humanas — escolher a sua atitude em qualquer circunstância, escolher o seu próprio caminho.”— Viktor Frankl, Em Busca de Sentido
A vida raramente se apresenta como uma linha reta. Pelo contrário, é feita de altos e baixos, de vitórias e derrotas, de momentos de exaltação e de dor profunda. A célebre canção “That’s Life” traduz, de forma simples mas poderosa, esta realidade universal. “Estás no auge em Abril, és derrubado em Maio”, diz a letra. Esta imagem tão clara e concreta recorda-nos a imprevisibilidade da existência humana – e, sobretudo, a necessidade de resiliência.
Há mais de duas décadas, um acidente transformou a minha vida de forma radical, deixando-me numa cadeira de rodas com uma tetraplegia incompleta. Foi, sem dúvida, um momento de queda abrupta, de perda e de incerteza. Mas foi também o início de um processo de reinvenção. À semelhança da fénix, que renasce das suas próprias cinzas, percebi que dentro de mim existia uma força que até então desconhecia. Essa força não vinha do Estado, das autarquias ou de terceiros – embora o apoio externo seja importante – mas sim de um núcleo íntimo, silencioso e persistente, que cada ser humano transporta consigo.
O psicólogo Viktor Frankl, sobrevivente de Auschwitz e criador da logoterapia, escreveu que “quem tem um ‘porquê’ para viver pode suportar quase qualquer ‘como’”. Esta frase ilustra de forma exemplar o que descobri na minha própria experiência: a capacidade de recomeçar não é um privilégio de poucos, mas uma potencialidade inscrita na própria condição humana. Não é um processo simples nem rápido. Exige dor, persistência e, sobretudo, uma decisão íntima de não desistir, mesmo quando a realidade parece intransponível.
E é precisamente nessa escolha que reside uma das maiores bifurcações existenciais: ou assumimos o desafio de reconstruir o nosso caminho, ou ficamos presos no ciclo da revitimização. Ser vítima de um acontecimento traumático pode ser inevitável — mas permanecer nesse lugar de forma prolongada, permitindo que a identidade se defina apenas pela dor, é uma armadilha subtil. A verdadeira superação implica recusar, consciente e ativamente, essa revitimização. Escolher não ser apenas consequência das circunstâncias, mas agente do próprio renascimento.
Dir-me-ão: “Nem todos temos condições económicas para renascer; somos abandonados pela sociedade, discriminados porque nos tornámos aparentemente improdutivos.” E é verdade. Há uma realidade dura e frequentemente invisível que afeta milhares de pessoas com deficiência ou em situação de fragilidade – marcada pelo isolamento social, pela pobreza, pelo desemprego estrutural e pela ausência de acessibilidade física, digital ou simbólica. Muitos vivem em margens forçadas, longe do olhar público, longe da participação ativa. Não se trata de negar essa verdade — mas de afirmar, mesmo dentro dela, a possibilidade de resistir, de reclamar dignidade e sentido, de lutar contra a invisibilidade. O renascimento nem sempre é grandioso ou visível: muitas vezes, começa no mais pequeno gesto de não desistir de si mesmo.
A sociedade moderna tende, por vezes, a colocar o indivíduo na posição de espectador passivo, esperando que as soluções surjam de fora: do governo, das instituições, dos outros. Mas, como defende a filosofia do existencialismo, a liberdade e a responsabilidade são inseparáveis. Podemos não escolher as circunstâncias – um acidente, uma doença, uma perda –, mas podemos escolher a forma como lhes respondemos. Este é o espaço da verdadeira liberdade.
Hoje, ao olhar para trás, vejo que não se trata apenas de “sobreviver” às adversidades, mas de encontrar nelas uma oportunidade para reconstruir sentido, identidade e propósito. Reinventar-se não significa apagar o passado, mas integrá-lo na narrativa pessoal de forma a torná-lo um ponto de viragem, não um ponto final.
Tal como na canção, “cada vez que me encontro caído, levanto-me e volto à corrida”. Esta metáfora não é apenas poética – é uma descrição fiel do que significa viver com resiliência. A vida continuará a girar, indiferente às nossas quedas ou triunfos. Cabe-nos a nós decidir se permanecemos no chão ou se nos levantamos de novo.
Afinal, essa é a essência de “That’s Life”: reconhecer que o mundo pode ser duro e imprevisível, mas que dentro de nós habita uma força insuspeita, capaz de nos erguer e de nos conduzir, uma vez mais, à linha de partida. Como a fénix, podemos renascer – quantas vezes forem necessárias.
Manuela Ralha
Manuela, és um exemplo e uma inspiração. Obrigada!
ResponderEliminarJulia Coutinho
Es uma Guerreira,um exemplo a seguir,em tudo
ResponderEliminarPara mim és um exemplo
ResponderEliminarThat's life! Determinação e resiliência não te faltam.
ResponderEliminarNão desistir perante as adversidades nunca!
Beijinhos