A pobreza não é um fracasso pessoal — é um fracasso coletivo(Ensaio para o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza)

Ambiente sonoro sugerido enquanto lê: 
Adagio for Strings, de Samuel Barber — ouvir aqui: https://youtu.be/WAoLJ8GbA4Y?si=Pscb0xGAhqJnSi8F
Uma das mais intensas obras alguma vez escritas sobre a fragilidade humana.
Na sua melodia há compaixão e resistência; um apelo à ternura ativa, à solidariedade que se levanta do silêncio.

 “A pobreza não é um fracasso pessoal; é um fracasso sistémico, uma negação da dignidade e dos direitos humanos.”
 António Guterres, 17 de outubro de 2025

Há frases que não se esquecem porque revelam o essencial.
A de António Guterres recorda-nos que a pobreza não nasce da falta de mérito, mas da falta de justiça.
É o resultado de estruturas desiguais, de políticas que falham, de sistemas que empurram uns para o privilégio e outros para a margem.
Por isso, erradicar a pobreza é uma questão de direitos humanos — não de caridade.

A pobreza é multidimensional e multifatorial

A pobreza nunca é apenas ausência de dinheiro.
É também ausência de oportunidades, isolamento social, falta de acesso à cultura, à educação, à habitação e à saúde.
É uma teia de carências que se entrelaçam e reforçam.

Como afirmava Amartya Sen, “a pobreza é a privação das liberdades reais para viver a vida que temos razão para valorizar.”
E Alfredo Bruto da Costa lembrava que medir a pobreza é medir dignidade — perceber quem pode escolher e quem foi silenciado pela necessidade.

A pobreza é, pois, um fenómeno multifatorial: resulta da intersecção entre o económico, o social, o cultural e o territorial.
Por isso mesmo, exige um olhar transversal e um exercício de governação partilhada, que una o Estado, as autarquias, a sociedade civil e os cidadãos.
Sem cooperação e visão integrada, a luta contra a pobreza fragmenta-se e perde eficácia.

Portugal: a persistência das desigualdades

Em Portugal, a pobreza tem muitos rostos.
O INE estima que 17% da população vive em risco de pobreza, e mais de dois milhões de pessoas enfrentam situações de privação material ou exclusão social.
Mas os números não contam tudo.

Por detrás deles há idosos com pensões insuficientes, famílias que trabalham e não conseguem pagar a renda, crianças privadas de uma refeição quente e jovens que adiam a autonomia porque o custo de vida é insuportável.

A pobreza deixou de ser apenas uma realidade das margens: está presente nas cidades, nas periferias e até em quem tem emprego.
A crise da habitação tornou-se o novo rosto da desigualdade, e o aumento do custo de vida empurra milhares de famílias para uma precariedade invisível.

A pobreza em Portugal não é invisível — é ignorada.
E ignorá-la é negar o direito básico a viver com dignidade.

ODS 1 — Erradicar a pobreza em todas as suas formas

O Objetivo de Desenvolvimento Sustentável n.º 1 (ODS 1) é claro: “Acabar com a pobreza em todas as suas formas, em todos os lugares.”
Mas esta ambição, mais do que técnica, é ética.

Como sublinhou Guterres, é preciso “políticas que não deixem ninguém para trás: cuidados de saúde e habitação acessíveis; trabalho digno e salários justos; proteção social universal; segurança alimentar e educação de qualidade.”

A erradicação da pobreza exige vontade política e coerência institucional — não basta aliviar sintomas; é preciso transformar causas.
E é nesse espírito que Portugal desenvolve a Estratégia Nacional de Combate à Pobreza, já na sua segunda edição, com horizonte até 2030.

A Estratégia Nacional de Combate à Pobreza: do princípio à ação

A Estratégia Nacional de Combate à Pobreza II parte de uma constatação fundamental: a pobreza é multifatorial e multidimensional.
Daí a necessidade de uma resposta transversal, articulada e territorialmente diferenciada.

Assenta em cinco eixos estruturantes:
1. Garantir rendimento e proteção social adequados;
2. Promover trabalho digno e habitação acessível;
3. Reforçar a educação, saúde e cuidados;
4. Fomentar a participação e cidadania ativa;
5. Assegurar uma governação partilhada e transparente, com mecanismos de avaliação.

Esta estratégia propõe-se reforçar a cooperação entre Estado, autarquias e sociedade civil, promover parcerias territoriais, envolver as comunidades locais e colocar as pessoas no centro da decisão.

Como defendia Joseph Wresinski, “não basta aliviar a miséria — é preciso destruir as suas causas.”
E isso implica governação participada, continuidade de políticas e coragem nas escolhas.

Do estigma à solidariedade

Durante décadas, quem vivia na pobreza foi olhado com desconfiança, como se fosse culpado da sua própria condição.
Mas a pobreza não se supera com culpa, supera-se com solidariedade e justiça social.
Não basta “ajudar os pobres” — é preciso mudar as estruturas que produzem pobreza.

O combate à pobreza é uma escolha política, mas também uma escolha moral.
Requer coragem, persistência e empatia concreta.
Exige que olhemos para cada pessoa não como beneficiário, mas como cidadão de plenos direitos.

Quando a sociedade se organiza para que ninguém fique para trás, todos avançamos.
A erradicação da pobreza é, afinal, a mais nobre forma de reconstrução democrática. 

Conclusão — A dignidade como horizonte

 “Apoiemos as pessoas que vivem na pobreza e atuemos com solidariedade para acabar de vez com a pobreza.” — António Guterres

Erradicar a pobreza é mais do que uma meta — é uma responsabilidade moral e civilizacional.
É restituir humanidade à política, transformar empatia em ação e fazer da igualdade uma prática quotidiana.

A pobreza é o espelho da distância entre o que somos e o que deveríamos ser.
Reduzi-la — até a erradicar — é o gesto mais urgente e mais belo do nosso tempo.

Bibliografia e sugestões de leitura:

  • Bruto da Costa, A. (2012). Pobreza e exclusão social: O desafio da política social. Lisboa: Gradiva.
  • EAPN Portugal. (2024). Relatório de Pobreza 2024: Portugal e os desafios do ODS 1. Lisboa: Rede Europeia Anti-Pobreza.
  • Guterres, A. (2025, 17 de outubro). Mensagem para o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza. Nações Unidas.
  • Instituto Nacional de Estatística. (2024). Rendimento e Condições de Vida: Destaque 2023. Lisboa: INE.
  • República Portuguesa. (2023). Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 2021-2030 (II Fase). Lisboa: Governo de Portugal / MTSSS
  • Diogo, F., Perista, P., & Campos Pinto, P. (Orgs.). (2025). Homenagem a Alfredo Bruto da Costa — Estudos sobre a pobreza e a exclusão em Portugal. Lisboa: Gradiva.
  • Bruto da Costa, A. (Coord.). (2008). Um olhar sobre a pobreza: vulnerabilidade e exclusão social no Portugal contemporâneo. Lisboa: Gradiva.
  • Sen, A. (1999). Pobreza e fomes: um ensaio sobre direitos e privações (tradução portuguesa). Lisboa: Terramar.
  • Bruto da Costa, A. (2021). Que fizeste do teu irmão? Um olhar de fé sobre a pobreza no mundo. Lisboa: Editorial Cáritas.
  • Perista, P., et al. (Eds.). (2016). Pobreza e exclusão social em Portugal: contextos, transformações e estudos. Porto: Almedina.
  • Bruto da Costa, A. (1985). A pobreza em Portugal. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.
Nota pessoal
Escrevo estas linhas com a consciência de que cada número é uma vida, cada estatística é uma história, cada política é uma escolha.
A pobreza, mais do que um conceito, é uma ferida aberta — e uma prova de que ainda não fomos capazes de construir uma comunidade verdadeiramente justa.

Acredito que a erradicação da pobreza começa no olhar: quando deixamos de ver “os pobres” e passamos a ver pessoas.
Quando percebemos que ninguém é dispensável.
Quando a compaixão se transforma em ação e a política reencontra a sua razão de ser — cuidar do bem comum.

Talvez não consigamos mudar o mundo de uma só vez.
Mas podemos começar por mudar o modo como o olhamos.
E, a partir daí, tudo o resto é possível.

(c) Manuela Ralha 





Comentários

  1. A pobreza é um flagelo e o fosso abissal que cada vez distancia mais os pobres e os ricos entristece-me e envergonha-me como ser humano.
    Como se pode passar, tão levianamente de quem morre à fome pq é pobre para quem por capricho vai passear ao espaço, ganha milhões ou compra carros de luxo...? Consciencialização precisa-se.
    Amália Mata

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  2. A pobreza é a raiz da injustiça e k ok resultado da injustiça. Todos os seres humanos devem ter o direito a uma vida digna sim ! Excelente texto Manuela ! 🙏
    Virgínia Pelarigo

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  3. Tudo isso é verdade mas como podemos mudar com tantos políticos ignorantes que só querem alcançar o poder . Mas sim nós estamos cá para dizer-lhes não pequeninos mas grandes!!!!!! Guterres grande ser humano

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  4. A pobreza é uma criação de certos modelos economicos e politicos, útil para o crescimento de elites.

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  5. A pobreza é um dos problemas mais persistentes da humanidade, e está presente em praticamente todos os países do mundo. A sua erradicação é um desafio global e requer o compromisso político, a responsabilidade social e a solidariedade entre os povos.
    Trata-se de um dever ético e humano, e só colectivamente e com consciência será possível construir um mundo mais justo, onde todos possam ter as mesmas oportunidades.
    Noémia Casimiro

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