A última noite - Crónica
A última noite
Ambiente sonoro sugerido:
Rosalía — Memoria
Escutar aqui
Um canto baixo para o que não quer ser esquecido.
A última noite do ano chega sem alarde. Traz consigo o peso suave do que termina e a fragilidade do que ainda não começou.
As ruas abrandam. As casas recolhem-se. Algumas mantêm uma luz acesa, discreta, como um gesto de resistência. Outras permanecem mergulhadas na escuridão — janelas fechadas, divisões vazias, silêncios que ninguém nomeia. Há casas onde a noite é apenas noite. Há outras onde o desespero se senta à mesa e não faz ruído.
Nesta noite, o mundo não é igual para todos. Nunca foi.
Enquanto uns contam os segundos até à meia-noite, outros contam ausências. Há quem espere o novo ano com brindes e risos, e há quem apenas espere que a noite passe. Em muitas casas de luz apagada, a esperança não se anuncia — sobrevive, em estado mínimo, quase invisível.
O ano que termina deixou marcas profundas. Deixou corpos cansados, corações em vigília, vidas suspensas. Deixou também gestos anónimos de cuidado, mãos estendidas no escuro, pequenas fidelidades ao humano que impediram o colapso total.
A última noite não apaga desigualdades. Não consola todos. Mas revela.
Revela a urgência de olhar para as janelas sem luz, para as mesas vazias, para os silêncios que não entram nas celebrações. Revela que a esperança, quando existe, nem sempre é luminosa — às vezes é apenas a decisão de continuar a respirar.
Quando a meia-noite chegar, o ano novo não saberá de quem ficou para trás. Caber-nos-á a nós lembrar. Cuidar. Não esquecer que a beleza do mundo só é inteira quando inclui quem está na sombra.
Agora ainda é noite. Uma noite que pede escuta. Uma noite que pede responsabilidade.
Fiquemos nela um instante mais. Até que nenhuma casa precise de atravessar o ano sozinha.
© Manuela Ralha, 2025

Vozes da rua, gritos no ar
ResponderEliminarFamília sem lar, ninguém para escutar
Mãos erguidas, corações vazios
Justiça? Só nas palavras, nos atos, desvios
Muita gente boa, pouca ação
Ricas promessas, o grito é em vão
Mas a luta não cessa, a esperança não morre
Quem cala, consente – a mudança vem do norte
Levanta a voz, ergue a mão
Justiça é pra todos, não é um favor, é um direito, não é ilusão
Pelas ruas, passos desiguais
Uns com muito, outros com nada, mas iguais
A justiça tropeça, cai no chão
Enquanto uns dormem, outros gritam, não!
Mas a faísca acende, a luta não some
Caminheiros da mudança, não há outro nome
Cada voz é um rio, cada ação é um mar
Juntos, a justiça pode renascer
Nas veias da terra, um sangue corre
Rios de luta, onde todos se encontram
O chão é de todos, o fruto é de quem?
Se o trabalho é de muitos, por que o lucro é de poucos?
A história é escrita pelos de baixo
Pedra a pedra, o muro cai
Não há muralhas que a união não quebre
O futuro é comum, o presente é de quem ouse
Seguimos juntos...
Obrigada sempre pelos comentários e palavras maravilhosas e pertinentes . Bom ano de 2026
Eliminar