E foi Natal.
E foi Natal.
Não o Natal das montras acesas até à exaustão, das filas apressadas, dos sacos cheios e dos cartões levados ao limite. Não o Natal da contabilidade do que se deu ou do que faltou dar. Esse também aconteceu — como acontece todos os anos — mas passou depressa, como passam as coisas que fazem barulho e deixam pouco rasto.
O Natal que ficou foi outro.
Ficou a convicção tranquila de que o essencial não se compra. De que o mais importante é a presença. O conforto simples de um abraço familiar. A certeza de que há pessoas que, aconteça o que acontecer, permanecem ao nosso lado. E que família não é, nem nunca foi, apenas uma questão de sangue, mas de cuidado, de escolha, de permanência.
Foi Natal no tempo desacelerado. No chão da sala, a construir legos com os netos, peça a peça, sem pressa de acabar. Foi Natal nas histórias contadas e recontadas, nas gargalhadas espontâneas, nas conversas que não precisavam de um motivo especial. Foi Natal a ouvir os mais velhos, com atenção e respeito, como quem sabe que ali mora a memória e o sentido das coisas.
Foi Natal no simples ato de estar. Estar inteiro. Estar disponível. Estar sem ecrãs, sem urgências, sem a necessidade de fazer de cada momento algo extraordinário. Porque foi precisamente na normalidade partilhada que o dia se tornou especial.
Mais uma vez foi Natal. E, quando tudo o resto se desvanece, é isto que fica: o tempo dado uns aos outros, a presença que aquece, a certeza silenciosa de que é aí — e só aí — que o Natal verdadeiramente acontece.
© Manuela Ralha, 2025

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