Palavras com tempo. Neste espaço, partilho reflexões sobre condição humana, democracia, cultura e cidadania. Um lugar onde a escrita abranda o ritmo dos dias e se faz encontro — comigo e com os outros.
Dia Internacional das Pessoas com Deficiência: política, responsabilidade e mudança de paradigma
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Da inclusão à participação plena: um olhar político sobre o Dia Internacional das Pessoas com Deficiência.
Assinalar o Dia Internacional das Pessoas com Deficiência não é um ritual simbólico. É um ato político. É um exercício de verdade — sobre o Estado, a sociedade e cada um de nós.
Trinta e três anos após a criação deste dia pela ONU, e quinze anos depois de Portugal ter ratificado a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, continuamos longe de cumprir aquilo que assinámos. Os direitos existem no papel; na vida real, encontram portas fechadas, escadas intermináveis, formulários absurdos e olhares que ainda naturalizam a exclusão.
A isto chama-se falha política. A isto chama-se falha democrática.
A Convenção é clara: o seu fim é garantir o pleno e igual gozo de todos os direitos humanos por todas as pessoas com deficiência. Mas a concretização desse fim está refém de burocracias, falta de investimento, ausência de fiscalização e — não menos importante — de um paradigma velho, que insiste em olhar a inclusão como um gesto de benevolência e não como exercício de cidadania.
É tempo de mudar o paradigma: da inclusão para a participação.
A inclusão parte da ideia de que alguém está “de fora” e precisa que lhe abram a porta. A participação parte do princípio inverso: a sociedade é de todos, desde o início.
A inclusão ainda pode ser paternalista. A participação é emancipadora.
A inclusão adapta estruturas antigas. A participação transforma o sistema.
A inclusão pergunta: “Como te integramos?” A participação pergunta: “Como decides connosco?”
Enquanto falarmos apenas de “incluir”, estaremos sempre a remendar falhas. Quando falarmos de participação, estaremos finalmente a reconhecer o essencial: as pessoas com deficiência são cidadãs ativas, agentes políticos, sujeitos de decisão, construtores do comum.
As desigualdades que persistem não são naturais — são produzidas.
Todos os dias, milhares de pessoas enfrentam:
inacessibilidades que violam a lei,
processos burocráticos que impedem direitos,
ausência de assistência pessoal,
exclusão do mercado de trabalho,
estigma que continua a ferir e a diminuir.
Nada disto é inevitável. Tudo isto deriva de escolhas políticas e culturais.
Portugal tem leis avançadas, mas faltam verbas, faltam prazos, falta fiscalização, falta coragem. Falta, sobretudo, a consciência de que acessibilidade não é luxo: é condição de cidadania.
Sensibilizar já não basta. Transformar é o que falta.
A discriminação resolve-se com:
acessibilidade universal obrigatória,
assistência pessoal garantida,
apoio às famílias,
educação verdadeiramente inclusiva,
emprego com direitos,
participação política efetiva das pessoas com deficiência.
Não precisamos apenas de políticas para proteger. Precisamos de políticas para participar, liderar, fazer parte da democracia.
Hoje, não celebramos — exigimos.
Exigimos o cumprimento da Convenção. Exigimos o fim do paternalismo. Exigimos um país onde não seja heróico entrar num autocarro ou ser atendido num serviço público.
Eu — que raramente falo em sonhos — tenho um: que este dia deixe um dia de fazer sentido.
Será o sinal de que concluímos o caminho: não apenas da inclusão, mas sobretudo da participação plena, onde todas as pessoas têm lugar, voz, espaço e poder.
Até lá, não baixemos a exigência. A participação é o verdadeiro nome da inclusão que ainda nos falta.
Hoje não assinalamos apenas uma data. Reivindicamos um futuro.
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© Manuela Ralha