Entre o que foi e o que vem
Entre o que foi e o que vem
Ambiente sonoro
Gustav Mahler — Sinfonia n.º 3, VI andamento (Adagio)
Ouvir (abre numa nova janela)
Escolhi Mahler porque esta música sabe fazer aquilo que este texto tenta dizer sem alarde: atravessar a dor sem a negar, e chegar a uma forma de paz que não é “felicidade de postal”, mas reconciliação possível. O Adagio final da Terceira Sinfonia tem tempo — um tempo interior, amplo, paciente — e por isso combina com a ideia de limiar: o instante em que o ano ainda não começou, mas já se pressente. É uma música que carrega gravidade e humanidade ao mesmo tempo: fala do íntimo, mas abre-se ao coletivo, como se lembrasse que a esperança também é responsabilidade e que o recomeço não é euforia — é decisão.
Houve anos que doeram. Dois anos longos, atravessados por perdas, por decisões difíceis, por responsabilidades que se carregam mesmo quando o coração vacila. Anos em que a vida pessoal e a vida pública se tocaram na sua parte mais frágil.
E depois veio este — o terceiro — não como um ponto final, mas como um lugar de reequilíbrio. Um ano de me reencontrar, de reconstruir serenidade, de compreender que cuidar de mim era também condição para continuar a cuidar dos outros.
Foi um ano exigente.
De trabalho intenso, de compromisso diário, de responsabilidade renovada pela reeleição. Um ano em que o serviço público voltou a ser escolha consciente, não hábito. Um ano de continuidade, sim, mas também de início: novos projetos, novas abordagens, novas formas de escutar e de agir. Porque governar, servir, participar — é saber ler o tempo e responder-lhe com ética, proximidade e visão.
Estamos quase a iniciar um novo ano.
E um novo ano, em democracia, nunca é apenas uma passagem simbólica: é um convite à responsabilidade partilhada. Um tempo que nos pede mais do que desejos — pede compromisso.
Renovar, neste contexto, é mais do que mudar planos: é repensar prioridades coletivas, reforçar laços, não desistir do que é comum.
Esperar não é ingenuidade: é um ato de resistência cívica. É acreditar que vale a pena insistir na justiça, na inclusão, na cultura, na coesão social. É continuar a trabalhar mesmo quando os resultados não são imediatos, porque sabemos que o essencial constrói-se devagar.
O início de um novo ciclo lembra-nos que a mudança não acontece apenas nos discursos nem nos calendários — acontece nas decisões concretas, no modo como escutamos, no cuidado que colocamos nas políticas públicas, na atenção aos mais frágeis, na defesa do bem comum.
Não é o ano que precisa de mudar.
É a forma como escolhemos estar nele.
Como escreveu José Régio, com uma linguagem que é também ética:
“Desejo-te tempo, para te encontrares.
Desejo-te tempo, não só para passar ou vê-lo no relógio.
Tempo para te encantares e tempo para confiares em alguém.
Desejo-te tempo para a vida.
Desejo-te tempo. Tempo. Muito tempo.”
Que o ano que chega nos traga esse tempo necessário:
tempo para pensar melhor, decidir melhor, cuidar melhor.
Tempo para servir com mais humanidade.
Tempo para continuar a construir comunidade — com coragem, com presença e com esperança.
© Manuela Ralha, 2025

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