Ciclo Histórias Invisíveis — VI A falsa tranquilidade
A falsa tranquilidade
Ambiente sonoro:
Johann Sebastian Bach — Variações Goldberg
Andamento VI — Variação 25 (Glenn Gould, 1981)
Há dias em que tudo parece normal. E o normal tem uma força hipnótica: alinha os gestos, acalma as perguntas, adia o pensamento.
A falsa tranquilidade é isto: a sensação de que o mundo está “a funcionar” apenas porque, naquele instante, não nos está a doer. Porque não tropeçámos. Porque não nos faltou nada. Porque ninguém nos pediu ajuda com urgência.
Mas a tranquilidade raramente é um estado do mundo. É, muitas vezes, um acordo silencioso de perceção: aquilo que não nos toca diretamente deixa de existir com intensidade suficiente.
O normal é uma narrativa confortável. Diz-nos: não há motivo para interromper. Diz-nos: não exageres. Diz-nos: sempre foi assim.
E é aqui que a injustiça prospera com mais elegância: quando se mistura com a rotina, quando se disfarça de hábito, quando se torna quase invisível por excesso de repetição.
Há sistemas que se sustentam precisamente porque, para muitos, parecem não exigir nada. A fila anda. A escola abre. O transporte chega. A sala está limpa. A cama está feita. A vida segue.
Essa continuidade cria a ilusão de que a continuidade é natural. E quando acreditamos nisso, deixamos de perguntar: quem está a pagar este silêncio? Quem está a segurar este normal? Quem está a carregar o que não aparece?
A falsa tranquilidade tem uma estética própria. É discreta, eficiente, sem conflito aparente. Evita o escândalo. Evita o colapso visível. Evita, sobretudo, a necessidade de redistribuir responsabilidades.
Por isso é tão sedutora: permite que a vida pareça justa sem ter de ser justa. Permite que o país pareça organizado sem ter de organizar o essencial. Permite que se adie, mais uma vez, a pergunta que incomoda.
Até ao dia em que algo falha.
Nesse dia, o normal revela-se pelo avesso. Descobre-se que a tranquilidade era frágil, que dependia de pessoas, de cuidados, de trabalho repetido, de presença constante — e que o que chamávamos “funcionar” era, afinal, um equilíbrio mantido à custa do invisível.
Talvez o gesto mais difícil seja este: recusar a tranquilidade quando ela é construída sobre o esquecimento. Recusar a paz que nasce da cegueira. Recusar o conforto que exige que alguém permaneça, eternamente, no fundo da cena.
© Manuela Ralha, 2025

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