Ciclo Histórias Invisíveis — VII O que nos sustém

 



O que nos sustém

Ambiente sonoro:
Johann Sebastian Bach — Variações Goldberg
Andamento VII — Ária da capo (Glenn Gould, 1981)

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Há coisas que só percebemos quando vacilam. Não porque sejam raras, mas porque eram discretas. Estavam tão integradas no dia que pareciam fazer parte do ar.

O que nos sustém não é grandioso. Não é teatral. Não entra facilmente na história oficial. É feito de repetição, de manutenção, de cuidado, de trabalho que não se anuncia.

É feito de pessoas que chegam antes e saem depois. De gestos que se repetem até perderem nome. De pequenas ações que impedem que a vida se torne hostil.

Quando tudo corre bem, chamamos-lhe rotina. E a palavra rotina é uma maneira de diminuir aquilo de que dependemos. Como se a continuidade fosse automática. Como se não tivesse custo.

Mas a continuidade tem sempre um custo. E a pergunta nunca é se existe custo — é quem o paga.

Um mundo justo não é aquele onde ninguém precisa de cuidar. É aquele onde o cuidado não é castigo, nem destino social, nem obrigação invisível. Um mundo justo é aquele onde o essencial não vive na margem.

Há uma ideia que nos foi vendida com demasiada facilidade: a de que viver juntos é uma espécie de dado adquirido. Que a sociedade se aguenta por si. Que basta “cada um fazer a sua parte” — como se a parte de alguns fosse sempre maior e a de outros, sempre invisível.

O que nos sustém pede uma decisão: ou continuamos a depender do invisível como quem depende de uma coisa sem rosto, sem história, sem direitos; ou aceitamos que o sustento da vida é assunto comum — e, por isso, político.

Não se trata de gratidão. A gratidão é breve e, muitas vezes, substitui o que devia mudar. Trata-se de reconhecimento no sentido mais exigente: reconhecer é reorganizar.

Talvez o único fecho possível para estas histórias seja uma pergunta, porque as perguntas mantêm-se acordadas: o que estamos dispostos a fazer para que aquilo que nos sustém deixe de ser invisível — sem deixar de ser essencial?

© Manuela Ralha, 2025

Comentários

  1. Precisas de falar nisto presencialmente no nosso mundo real, vem até nós na estrada das areias. Gosto de ti,porque gosto. Alguém disse isto

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