Ciclo Histórias Invisíveis - II O quase nada
O quase nada
Ambiente sonoro:
Johann Sebastian Bach — Variações Goldberg
Andamento II — Variação 1 (Glenn Gould, 1981)
A vida não se sustém em acontecimentos. Sustém-se em continuidades tão discretas que quase não deixam rasto.
Um gesto repetido. Um horário cumprido. Um chão limpo. Uma palavra dita a tempo. Um corpo amparado antes de cair.
Nada disto parece decisivo. E, no entanto, é tudo.
Chamamos-lhes quase nada porque não sabemos onde os colocar. Não são feitos históricos. Não são escolhas grandiosas. Não são momentos de viragem.
São aquilo que acontece quando nada acontece. E é precisamente aí que a vida se mantém possível.
O mundo contemporâneo foi treinado para reconhecer apenas o que interrompe. O que quebra. O que irrompe. Mas a existência humana constrói-se noutra cadência: na repetição silenciosa, na manutenção, na atenção constante ao que pode falhar.
O problema é que aquilo que não interrompe não parece merecer pensamento.
O quase nada não produz narrativa. Produz estabilidade. Não gera entusiasmo. Gera continuidade. Não é memorável. É indispensável.
E por isso mesmo foi empurrado para fora da linguagem valorizada. Ficou sem estatuto simbólico, como se fosse apenas cenário.
Vivemos como se a vida fosse um conjunto de momentos relevantes separados por intervalos neutros. Mas os intervalos não são neutros. São trabalhados. Sustentados. Cuidada e silenciosamente habitados.
Se esses intervalos colapsam, nenhum momento relevante sobrevive.
Há uma injustiça profunda nesta cegueira: aquilo que mantém o mundo habitável é tratado como pano de fundo.
Não se agradece o que se considera garantido. Não se protege o que não se reconhece. Não se pensa politicamente aquilo a que se chama “normal”. E o normal é sempre o lugar onde a desigualdade se instala com mais eficácia.
O quase nada não é pequeno. Foi tornado pequeno — na linguagem, na atenção, no valor atribuído.
Mas basta que falhe para que tudo se revele frágil. Quando o quase nada falta, o mundo treme. Não porque seja excecional, mas porque era estrutural.
Talvez escrever seja isto: deslocar o olhar do extraordinário para aquilo que nunca pediu para ser visto, mas sem o qual nada existe.
© Manuela Ralha, 2025

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