CICLO ECOS DAS PALAVRAS Ensaio 3 - A leitura como prática de liberdade


 

Terceiro Andamento — A leitura como prática de liberdade

Ambiente sonoro: “Rituais da Adolescente”, de A Sagração da Primavera (Igor Stravinsky)
Epígrafe musical: “Como quem aprende a caminhar dentro da própria voz, a leitura transforma o corpo em consciência.”

Ouvir este andamento (interpretação: London Symphony Orchestra)

Se Paulo Freire abriu a porta da leitura como consciência do mundo, bell hooks mostrou-nos que entrar por essa porta exige coragem: a coragem de existir num espaço que historicamente tentou excluir certas vozes, certos corpos, certas histórias.

Ler — para hooks — não é apenas decifrar palavras. É recuperar o direito de ser sujeito. É reclamar a própria narrativa. É erguer-se contra o silenciamento.

1. A leitura como um lugar onde a liberdade acontece

bell hooks dizia que a educação libertadora precisa de três elementos: prazer, presença e participação. Ler é um gesto que convoca os três.

Quando uma criança lê um livro onde se reconhece — nos rostos, nas línguas, nas dores, nas alegrias — algo decisivo acontece: o mundo deixa de ser território alheio. A leitura torna-se um lar possível.

hooks insiste: a leitura deve ser um espaço onde todos possam existir, independentemente da cor da pele, do género, da classe ou da história. Porque “a marginalidade” — dizia ela — “pode ser um espaço de resistência, mas não deve ser um destino.”

2. O prazer como força política

Ao contrário do que tantas vezes se ensinou nas escolas tradicionais, ler não deve ser um dever estéril. Não nasce para cumprir metas, nem para decorar conteúdos.

Para hooks, o prazer é revolucionário. Um leitor encantado é um leitor livre. E um leitor livre transforma o mundo.

A leitura como disciplina militarizada — listas, obrigatoriedades, punições — produz corpos dóceis, mas mentes fechadas. A leitura como descoberta produz pensamento crítico.

3. Representatividade: quando a leitura devolve espelhos

Um dos pilares do pensamento de hooks é simples e profundo: se nunca te vês nos livros, começas a acreditar que não existes.

Por isso, insistia na necessidade de diversificar o currículo escolar, abrir a biblioteca, permitir que as vozes marginalizadas tenham espaço: mulheres, pessoas negras, comunidades LGBTQIA+, povos indígenas, migrantes, autores periféricos, escritores fora do cânone.

Ler histórias diversas torna-nos mais humanos. E ainda mais: impede-nos de aceitar a violência como inevitável.

4. A sala de aula como comunidade – e a leitura como encontro

Para hooks, a sala de aula não deve ser um espaço de hierarquia, mas de diálogo. O professor não é dono da palavra — é organizador do espaço onde a palavra circula.

A leitura cria comunidade porque nos reúne em torno do mesmo texto, mas nunca da mesma interpretação. É no confronto entre perspetivas que nasce a democracia interior.

5. A inquietação como movimento vital

A leitura, para hooks, inquieta. Se conforta demasiado, talvez não seja leitura, mas anestesia.

Ler é um exercício de vulnerabilidade: enfrentamos aquilo que ainda não sabemos, aquilo que não queremos saber, e aquilo que temos medo de admitir.

É por isso que hooks diz que a leitura é uma prática de liberdade: liberta-nos do conforto. Liberta-nos da ignorância. Liberta-nos do silêncio.

6. Caminhar para o próximo andamento

Depois de Freire e hooks, entramos agora num território mais estrutural, mais duro e analítico: Pierre Bourdieu.

Se hooks nos mostrou a leitura como libertação, Bourdieu mostrará como a sociedade cria barreiras invisíveis que impedem milhões de pessoas de chegar a essa liberdade.

No próximo ensaio, entramos nos bastidores do mundo social — nos mecanismos que distribuem, classificam e silenciam.

© Manuela Ralha, 2025

Comentários

  1. É isso mesmo: eu digo que ler é um ato criativo porque sempre criamos e recriamos o que os ator quis dizer quando escreveu. Excelente texto! David Rodrigues

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  2. Patrícia Duarte Lavareda5 de dezembro de 2025 às 18:50

    Este teu texto lembra-nos que ler não é obrigação, é encontro e viagem. A leitura pode ser liberdade e resistência. Devemos ler mais, desligar os ecrãs e dedicar tempo a uma viagem pelos livros.

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