Análise Crítica de Desistir, de Adam Phillips
Análise Crítica de Desistir, de Adam Phillips
Um ensaio sobre liberdade, desejo e a arte de abdicar
🎧 Sugestão sonora para acompanhar a leitura:
Gustav Mahler – Sinfonia n.º 9, IV. Adagio
Ouvir aqui (Berliner Philharmoniker)
Esta música é uma despedida sem dramatismo. Uma aceitação serena da impermanência, da incompletude e daquilo que é deixado por dizer — tal como Phillips propõe com a sua ética da desistência. O Adagio final da Nona Sinfonia de Mahler não termina: dissolve-se. E é nesse desaparecer que encontramos o espaço da escuta, da interioridade e da liberdade.
No seu livro Desistir (Edições 70, 2023), o psicanalista britânico Adam Phillips oferece-nos uma meditação subtil e provocadora sobre um dos verbos mais subestimados do léxico moderno: desistir. Num mundo que cultiva a persistência, a produtividade e a realização pessoal como imperativos morais, Phillips propõe um contracorrente: a possibilidade de recusar, abdicar, interromper — não como sinais de fracasso, mas como formas de resistência e liberdade.
Longe de um manual de autoajuda, Desistir é uma obra de natureza ensaística, ancorada em décadas de prática clínica e na tradição psicanalítica. Phillips não oferece soluções nem métodos, mas uma série de interrogações densas sobre a maneira como vivemos o desejo, o sucesso e os nossos ideais. O seu estilo é fragmentário, muitas vezes aforístico, exigindo ao leitor não uma leitura linear, mas uma escuta reflexiva — tal como num processo analítico.
Desistir como gesto de liberdade
Uma das ideias mais fortes do livro é a de que desistir pode ser uma forma de liberdade interior. Na linha de pensadores como Michel Foucault, que analisou os dispositivos de poder que moldam o sujeito moderno, Phillips convida-nos a pensar nas formas como somos compelidos a perseverar — em projetos, relações ou ideais — que já não fazem sentido.
«O poder só se exerce sobre sujeitos livres e apenas na medida em que são livres»
— Michel Foucault, Ditos e Escritos II, p. 242
Desistir, portanto, é também um acto de sujeição consciente, uma escolha que afirma a autonomia do sujeito diante das pressões normativas.
O cansaço da obrigação e o culto da produtividade
Esta proposta encontra eco no pensamento de Byung-Chul Han, em A Sociedade do Cansaço, onde o autor denuncia a positividade tóxica do desempenho contemporâneo.
«A sociedade do desempenho produz depressivos e fracassados»
— Byung-Chul Han, p. 22
Phillips, ao desconstruir o valor absoluto da perseverança, alinha-se com esta crítica. A desistência torna-se, aqui, um gesto de sanidade — um corte necessário com o excesso de exigência.
Desistir para reencontrar o desejo
Para a psicanálise, o desejo é sempre mediado e parcial. Phillips escreve:
"Desistir é, por vezes, uma forma de saber o que realmente queremos."
Lacan, por seu lado, afirmava:
«O desejo do homem é o desejo do Outro»
— Jacques Lacan, Escritos, p. 849
Desistir pode, pois, ser um ato de clarificação: uma rutura com desejos herdados ou impostos, uma reapropriação do que nos move de verdade.
A ética da renúncia e a construção da autenticidade
A ideia de renúncia como revelação interior aproxima Phillips da filosofia de Simone Weil. Para Weil, a atenção pura é já uma forma de verdade espiritual:
«A atenção absolutamente pura é oração»
— Simone Weil, A Gravidade e a Graça, p. 54
Também para Phillips, há desistências que não significam fuga, mas uma escuta atenta ao que a realidade nos está a dizer.
Crítica à ideologia da resiliência
Desistir questiona ainda a glorificação contemporânea da resiliência a todo o custo. Em muitos casos, a persistência é apenas um disfarce para a negação ou o medo da mudança. Desistir é, neste sentido, também um ato político e cultural.
Num mundo exausto, talvez devêssemos reconsiderar a desistência não como desistência da vida, mas como desistência de certos modelos que já não servem.
Conclusão: uma arte da retirada
Desistir é, em última análise, uma defesa da complexidade da vida interior. Adam Phillips propõe uma ética subtil da interrupção, onde parar pode ser o início de algo novo. Ler este livro é aceitar o convite a questionar os imperativos que nos conduzem — e a considerar que, por vezes, a única forma de recomeçar é desistir.
Bibliografia
- PHILLIPS, Adam (2023). Desistir. Lisboa: Edições 70.
- FOUCAULT, Michel (2001). “O sujeito e o poder”. In: Ditos e Escritos II. Lisboa: Edições 70.
- HAN, Byung-Chul (2014). A Sociedade do Cansaço. Lisboa: Relógio d’Água.
- LACAN, Jacques (1998). Escritos. Lisboa: Relógio d’Água.
- WEIL, Simone (2003). A Gravidade e a Graça. Lisboa: Assírio & Alvim.
© Manuela Ralha, 2025

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