O Conto do Reino da Palavra Desatada
Ambiente sonoro: floresta encantada — conto de fadas
Hoje vou contar uma história para dormir.
Falem baixo, é um conto simples, com um reino e gente importante.
Pode ser que embale.
Pode ser que, em vez disso, deixe os olhos bem abertos.
O Reino da Palavra Desatada
Havia um reino onde se governava sobretudo com palavras. Muitas palavras. Demais, talvez. Eram ditas em salas amplas, com paredes grossas e janelas altas, de onde quase não se via a rua. No Reino acreditava-se firmemente que o mundo era aquilo que se dizia sobre ele.
No alto de um castelo confortável reunia-se o Conselho. As cadeiras eram estofadas, a temperatura regulada e o silêncio apenas interrompido pela segurança de quem nunca precisava de interromper a própria vida para ouvir a dos outros. Falavam de educação sem entrar numa escola, de trabalho sem cumprir horários, de saúde sem esperar numa urgência, de segurança olhando mapas limpos, sem fumo nem gente.
Quando alguma frase causava desconforto cá fora, explicavam que tinha sido mal interpretada.
Quando provocava indignação, garantiam que era exagero.
A realidade, insistiam, estava a funcionar.
O Chefe presidia com calma inabalável. Não corrigia, não assumia, não se inquietava. Pedia serenidade. A serenidade, no castelo, era sempre fácil.
Porque, visto de dentro, o reino parecia funcionar perfeitamente.
Mesmo nos dias em que cá fora milhares de pessoas enchiam as ruas, fechavam serviços, paravam transportes e levantavam cartazes, no castelo dizia-se que era um dia normal. Um ministro, com ar convicto, explicou que o país estava a funcionar. Funcionava nos relatórios, nas declarações e nos corredores acarpetados.
Se não funcionava na rua, isso era um detalhe logístico.
Do alto das muralhas viam-se pontos a mexer, ouviam-se sons distantes.
Chamavam-lhes ruído.
Nunca gente.
E enquanto se discutia a normalidade, o reino ardia.
Ardiam serras, campos, quintais e memórias. Ardiam casas que tinham nome, árvores que tinham idade e silêncios antigos. Do castelo saíam palavras tranquilizadoras, números provisórios, promessas de apuramento. Dizia-se que estava tudo preparado. Que era um fenómeno natural. Que a culpa era do vento.
Enquanto isso, as chamas não esperavam pelo contraditório.
Nas aldeias e nos caminhos, as pessoas faziam o que sempre fizeram: tentavam salvar o que podiam. Uns carregavam baldes, outros animais, outros apenas fotografias e papéis antigos.
À noite, o céu ficava laranja e o ar irrespirável.
Nos estúdios explicava-se o fogo com palavras técnicas, como se a precisão do vocabulário pudesse apagar alguma coisa.
No terreno, o fogo avançava.
No dia seguinte, contavam-se hectares.
Não histórias.
Mas o reino não ardia só por fora.
Havia dias em que as urgências encerravam, com avisos pequenos e linguagem suave. Diziam que era reorganização. Temporária. Controlada.
Enquanto isso, grávidas percorriam estradas, tinham filhos em ambulâncias, em passeios, à porta de hospitais fechados. Aprendiam, nesse instante, que a palavra “contingência” não consola.
Quando alguém chamava por socorro, o INEM nem sempre aparecia.
Havia chamadas sem resposta.
Tempos de espera incompatíveis com a vida.
Depois explicava-se.
Sempre se explicava.
E quando as instituições não funcionavam, havia uma solução elegante: mudava-se o nome.
Se um serviço falhava, passava a chamar-se programa.
Se um problema persistia, tornava-se plano.
Se nada resultava, anunciava-se uma estratégia.
Uma urgência encerrada era uma reconfiguração.
Um socorro que não chegava era um modelo em transição.
Um sistema exausto estava apenas em reforma.
No castelo acreditava-se profundamente no poder regenerador das designações.
Mudar palavras era mais simples do que mudar a realidade — e muito mais seguro.
No trabalho, dizia-se que era preciso compreender.
Que os trabalhadores deviam ser resilientes, pacientes, agradecidos.
Que os salários não acompanhavam a vida, mas a vida precisava de contenção.
A precariedade era uma fase.
O cansaço, uma perceção.
O descontentamento, ruído.
Da Segurança Social falava-se no castelo com especial impaciência. Segundo os conselheiros, o sistema não estava em crise por falta de justiça ou de investimento — estava em crise porque as pessoas adoeciam demais e insistiam em ser pobres.
Era um comportamento difícil de compreender.
A pobreza tornara-se excessiva.
A doença, inconveniente.
A velhice, mal calendarizada.
Falava-se de solidariedade como quem fala de um favor abusado. Garantia-se proteção com o sobrolho franzido, como se alguém estivesse a viver acima das suas possibilidades… precisamente por precisar.
No castelo, parecia lógico concluir que o problema não era o sistema, mas as pessoas.
Na educação, falava-se de mérito.
E quando as residências universitárias apareciam degradadas, não se falava de abandono nem de investimento falhado. Falava-se das pessoas que lá viviam.
Como se a pobreza tivesse um estranho poder destrutivo: empenava portas, fazia cair tectos, corroía paredes.
Tudo isto era dito com naturalidade, do alto do castelo.
Como se governar fosse comentar o mundo sem nunca lhe tocar.
Mas nas cortes do Reino não viviam apenas ministros e chefes.
Havia também um vistoso bando de bobos da corte.
Ao contrário dos bobos antigos — que diziam verdades a rir —, estes faziam o inverso: mentiam sobre verdades, aos gritos, aos saltos, aos urros. Ululavam frases ocas, pulavam sobre factos e batiam palmas sempre que a confusão aumentava. Viviam da perturbação, alimentavam-se do ruído e prosperavam no exagero.
Quando alguém apontava uma falha, os bobos ridicularizavam.
Quando alguém pedia explicações, os bobos gritavam.
Quando alguém tentava pensar, os bobos interrompiam.
Não governavam, mas contaminavam.
Não decidiam, mas distorciam.
Não propunham, mas incendiavam.
Transformavam cada tragédia num espectáculo, cada protesto numa caricatura, cada pergunta séria num duelo de gritos. E quanto mais grave era a realidade, mais infantil se tornava a encenação.
Cá fora, alguém continuava à espera.
De socorro, de resposta ou apenas de que alguém descesse do castelo.
E assim funcionava o Reino da Palavra Desatada:
um castelo confortável,
um mundo em combustão,
e palavras suficientes para fingir que uma coisa não tinha nada a ver com a outra.
Não era sátira quando o erro deixava de envergonhar, quando ninguém assumia o que dizia e quando o barulho valia mais do que a verdade. Nesse ponto, o riso já não revelava — apenas distraía.
E foi assim que o Reino começou a cair.
Não por falta de alertas.
Mas porque, do alto do castelo, o mundo parecia sempre distante.
© Manuela Ralha, 2025

Verdade Manela, um reino em desgoverno. Mais cego é aquele que não quer ver.
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