Ciclo Ecos das Palavras Ensaio 1 – A Leitura enquanto Direito Humano
Ensaio 1 – A Leitura enquanto Direito Humano
1.º andamento da Sagração da Primavera — "Adoração da Terra"
“Como um solo que desperta antes da luz, a leitura nasce onde o humano começa.”
Ouvir: Igor Stravinsky — The Rite of Spring (Parte I – Adoration of the Earth)
Primeiro Andamento — O gesto inaugural
Antes de qualquer escola, de qualquer lei ou qualquer sistema, houve sempre alguém que contou uma história. Uma voz que tremia na penumbra. Um gesto lento sobre um livro gasto. Um corpo que se inclinava para outro corpo.
É talvez aí — nessa arqueologia íntima da palavra — que nasce o direito de ler: no estremecimento primeiro de quem percebe que a linguagem nos abre janelas onde antes só havia parede.
Também eu aprendi assim: pela mão de uma voz que chegava antes da escrita. E mais tarde, num dos rituais mais doces da minha infância, à porta de uma carrinha-biblioteca da Gulbenkian que aparecia uma vez por semana, como uma aparição azul. Fazíamos fila. Podíamos levar poucos livros — mas eu descobria sempre quem pudesse levar mais por mim. Comecei a ler com quatro anos. Hoje sei que sou, em grande parte, filha dessas leituras, dessa curiosidade sem freios e de pais que nunca puseram censura ao que eu queria ler.
E é justamente por isto que digo: a leitura é um direito humano antes mesmo de ser uma competência. É uma espécie de cidadania interior. Um modo de nascer duas vezes.
1. A leitura como fundamento do humano
A leitura não se reduz à decifração de palavras — é um modo de estar no mundo. É a forma mais antiga de organizar aquilo que em nós se inquieta e se confunde. Antonio Candido dizia que a literatura “humaniza e organiza o caos”. Kafka lembrava que um livro deve ser “o machado que abre o mar gelado dentro de nós”. E Saramago murmurava, com essa coragem que lhe reconhecemos: “Escrevemos porque não queremos morrer.”
Ler é isto: o instante em que a vida encontra uma forma, um ritmo, um sentido possível.
Por isso mesmo, negar a leitura é negar uma parte essencial da dignidade humana. É amputar possibilidades. É reduzir o horizonte.
2. A gramática dos direitos: o que nos garante o acesso ao mundo
A leitura está inscrita, ainda que de forma silenciosa, na Declaração Universal dos Direitos Humanos. Sem leitura, o direito à liberdade de expressão (Art. 19), o direito à educação (Art. 26) e o direito à participação na vida cultural (Art. 27) ficam incompletos.
A Declaração Universal dos Direitos à Leitura e à Informação (2018) disse-o claramente: todos têm o direito de aprender a ler, escolher o que ler, aceder à informação, e participar na vida cultural, independentemente da idade, origem, língua ou condição social.
E a UNESCO, desde os seus primeiros programas de literacia, insiste: a leitura é uma chave de liberdade; um instrumento de autonomia; uma forma de inclusão.
Sem ela, não há cidadania plena — apenas sobrevivência.
3. Ler como resistência, pertença e emancipação
Portugal foi, durante décadas, um país onde a maioria não sabia ler. E, mesmo assim, ou talvez por isso, as bibliotecas pequenas — sobretudo as de estrada, dispersas, improvisadas — tornaram-se espaços de resistência. Ali, em surdina, partilhavam-se livros proibidos, ideias clandestinas, sonhos de uma liberdade ainda por vir. Sempre houve Index. Mas também sempre houve quem resistisse — quem ensinasse outro a ler, quem abrisse um livro diante de quem nunca tinha tocado num.
Paulo Freire ensinou-nos que a leitura da palavra nasce da leitura do mundo: é impossível entender o texto sem entender a vida. Bell Hooks ampliou esse território, dizendo que ler deve ser também prazer, pertença, reconhecimento — um gesto de cura e de liberdade.
E Sophia lembrava que “a literatura é a voz dos que não têm voz”. Eça mostrava como escrever é denunciar o que a sociedade procura ocultar. Cardoso Pires afirmava que a literatura “não é um refúgio — é um lugar onde devolvemos o mundo ao mundo”.
Ler é tudo isto: um ato íntimo com consequências públicas. Um gesto individual com impacto coletivo. Um modo de resistência numa sociedade que, tantas vezes, prefere o silêncio.
4. O tempo de agora: a aceleração e o esquecimento
Vivemos mergulhados num mundo que nos empurra para a dispersão. Ecrãs, notificações, urgências artificialmente fabricadas. O silêncio rareia. E, com ele, a possibilidade de concentração profunda — esse músculo indispensável ao pensamento crítico.
Nunca se leu tão pouco. Nunca se opinou tanto.
Há uma espécie de ruído permanente que nos rouba o tempo interior, esse espaço onde a leitura se faz gesto de autonomia. A leitura exige lentidão, exige corpo, exige pausa. E hoje a pausa tornou-se quase um ato de rebeldia.
É por isso que ler, hoje, é também resistir ao colapso da atenção — e, com isso, salvar o que ainda podemos ser.
5. Que mundo teríamos sem a leitura?
Um mundo sem leitura seria um mundo sem memória. Sem reflexão. Sem espelho. Sem empatia.
Um mundo onde as injustiças se repetiriam porque ninguém as narraria; onde os silêncios cresceriam porque ninguém lhes daria nome; onde o futuro se estreitaria porque ninguém ousaria imaginá-lo.
A leitura é um gesto de cuidado com o humano. Conecta o que fomos ao que podemos vir a ser. E oferece-nos a hipótese — preciosa — de compreender o outro sem deixar de ser nós.
6. A travessia que começa agora
Este primeiro andamento quis apenas isto: recordar que o direito de ler é o direito a existir plenamente.
Mas para compreender verdadeiramente esse direito, precisamos de descer mais fundo: de compreender como a leitura se articula com a consciência, com a participação cívica, com a liberdade e com o futuro.
É por isso que, no Ensaio 2, entraremos no território visionário de Paulo Freire — onde a leitura não é apenas um ato solitário, mas um gesto político, uma libertação, uma forma de olhar o mundo com os olhos abertos e a palavra desperta.
A música continua. E a caminhada está apenas a começar.
© Manuela Ralha 2025

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