A corda esticada - Crónica
A corda esticada
Ambiente sonoro sugerido: Gustav Mahler — Adagietto (Sinfonia n.º 5)
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Há um país que se levanta cedo, que cumpre, que sobrevive. Há um país de números, gráficos e coeficientes. E depois há o outro: o país real. O país das crianças que vão para a escola com fome, dos idosos que contam moedas no fim do mês, das mães sós que fazem malabarismos com salários mínimos. Entre um e outro país, há uma corda esticada sobre um abismo. É nela que vive Portugal.
Em 2024, Portugal parecia respirar. As cicatrizes da pandemia começavam a fechar, o desemprego registava mínimos históricos e os dados económicos alimentavam o discurso de retoma. O crescimento do PIB era elogiado em Bruxelas e a disciplina orçamental celebrada como um feito nacional. Mas por baixo dessa superfície, persistia uma fratura funda — e o estudo Portugal Desigual, publicado em 2025 pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, mostra-nos exactamente onde ela passa.
A análise dos dados de 2022, recolhidos pelo Inquérito às Condições de Vida e Rendimento (ICOR), revela uma aparente melhoria nos indicadores globais — o risco de pobreza caiu para 16,4%. Ainda assim, 1,7 milhões de portugueses continuam abaixo do limiar de pobreza, dos quais mais de 300 mil são crianças.
A desigualdade de rendimentos diminuiu ligeiramente, medida pelo coeficiente de Gini. Em 2022, Portugal registou um valor de 32,6. Uma melhoria ténue, que não retira o país do grupo dos mais desiguais da Europa Ocidental. Porque uma média pode esconder um abismo.
“A desigualdade é um facto social total”, escreveu Pierre Bourdieu. Em Portugal, essa totalidade manifesta-se sobretudo nos grupos mais vulneráveis: famílias monoparentais, desempregados, trabalhadores pouco qualificados, cidadãos estrangeiros e crianças.
E depois há uma realidade particularmente inquietante: os trabalhadores pobres. Em 2022, mais de uma em cada dez pessoas empregadas vivia em situação de pobreza. Trabalhar já não basta para escapar à privação.
John Rawls defendia que uma sociedade justa só pode aceitar desigualdades se estas beneficiarem os mais desfavorecidos. Os dados mostram o contrário. A habitação tornou-se incomportável, o acesso à saúde permanece desigual e o sistema educativo já não garante mobilidade social.
Hannah Arendt lembrava que a desigualdade se torna politicamente intolerável quando passa a ser percebida como injusta. Em Portugal, a injustiça foi-se normalizando. A pobreza tornou-se paisagem. A desigualdade, ruído de fundo.
Zygmunt Bauman falava de “vidas descartáveis”. A expressão ajusta-se a demasiados portugueses: jovens precários, imigrantes invisíveis, idosos que escolhem entre medicamentos e refeições.
Amartya Sen lembrava que o verdadeiro desenvolvimento se mede pela expansão das liberdades reais. Onde está a liberdade de quem não sabe se terá casa no mês seguinte? De quem hesita entre pagar a luz ou comer?
Em 2025, Portugal precisa de um novo contrato político. Um pacto que trate a pobreza como urgência, a infância como prioridade e o trabalho como dignidade.
Um país que aceita que centenas de milhares de crianças cresçam na pobreza não é desenvolvido. É apenas conformado.
“A justiça é a primeira condição da liberdade”, escreveu António Sérgio. Enquanto milhões viverem numa corda esticada sobre o abismo, não haverá progresso digno desse nome.
© Manuela Ralha

O texto retrata com clareza a contradição entre os indicadores económicos positivos e a realidade dura de milhares de portugueses que continuam a viver na pobreza: não basta celebrar números, quando persistem desigualdades profundas!
ResponderEliminarÉ verdade que o mais urgente é garantir comida na mesa e condições básicas de vida digna, mas atrevo-me a acrescentar que a probreza cultural também representa um grande entrave a um desenvolvimento digno. Não podemos esquecer que a igualdade no acesso à leitura e à informação é também essencial... Uma sociedade que assegura educação e cultura para todos, forma cidadãos mais conscientes e interventivos, capazes de exigir justiça e participar ativamente na construção de soluções.
Sem esse acesso, a pobreza não é apenas material, é também mental.
Face à triste realidade que descreve e que, infelizmente, está à vista de quem a "quer" ver, só me ocorre uma pergunta : onde tem andado a ação de governos consecutivos no sentido de a colmatar? Helena Cavacas Veríssimo
ResponderEliminarTexto muito interessante
ResponderEliminarUma triste realidade 😢
ResponderEliminarNos últimos 20 anos (2005-2025), os governos portugueses implementaram diversas estratégias para combater as desigualdades materiais (rendimento e pobreza) e intelectuais (educação e literacia), adaptando as políticas ao contexto económico e às diretrizes europeias.
ResponderEliminarDesigualdade Material (Rendimento e Proteção Social)
As medidas focaram-se no reforço das prestações sociais e na proteção dos rendimentos das famílias mais vulneráveis:
Rendimento Social de Inserção (RSI): Substituiu o antigo Rendimento Mínimo Garantido, focando-se não apenas no apoio financeiro, mas num contrato de inserção social e laboral. Em 2025, o valor de referência foi atualizado para 243,23€.
Reforço do Abono de Família: Implementação de majorações, especialmente para o segundo filho e famílias monoparentais, para estimular a natalidade e combater a pobreza infantil.
Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 2021-2030: Aprovada para reduzir a taxa de risco de pobreza, com mais de 270 medidas transversais que incluem o aumento sustentado do Salário Mínimo Nacional.
Agenda Transformadora (2024-2025): Foco no crescimento económico e redução da carga fiscal para famílias e empresas, visando aumentar o rendimento disponível. Em 2025, Portugal foi distinguido pela sua recuperação económica com crescimento do PIB e baixa inflação.
Desigualdade Intelectual (Educação e Literacia)
O foco tem sido a democratização do acesso ao conhecimento e a redução do abandono escolar:
Expansão da Escolaridade Obrigatória: Aumento para os 12 anos de escolaridade (18 anos de idade) para garantir que todos os jovens completem o ensino secundário.
Políticas de Educação Inclusiva: Implementação de regimes que removem barreiras à participação de todos os alunos, independentemente do meio socioeconómico.
Ação Social Escolar (ASE): Democratização do ensino superior através do aumento de bolsas e residências universitárias, incluindo o acesso automático a bolsas para alunos que já beneficiavam de apoio no secundário.
Literacia Precoce: Programas de deteção precoce de dificuldades em literacia e numeracia no pré-escolar para reduzir o insucesso escolar futuro.
Digitalização e Autonomia: Investimento na modernização tecnológica das escolas e maior autonomia para os estabelecimentos de ensino adequarem os seus projetos à realidade local.
Apesar destas medidas, estudos recentes indicam que os resultados escolares em Portugal ainda estão fortemente ligados às condições socioeconómicas das famílias, mantendo-se o desafio de tornar a educação um "elevador social" plenamente eficaz.