Violência, Desigualdade e Democracia: Uma Leitura Crítica no Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres
Ambiente Sonoro Sugerido
Claude Debussy — Des pas sur la neige
Ouvir no Spotify: https://open.spotify.com/intl-pt/track/4utLnuPVkBkEAHJc46qZbj?si=b1e63a8b59ce4399
Escolho esta peça porque é uma das composições mais sombrias e introspetivas de Debussy. Des pas sur la neige (“Passos na neve”) não descreve apenas uma paisagem gélida: descreve um estado de alma. É uma música lenta, contida, quase suspensa, que sugere passos cautelosos num terreno frágil — como se cada gesto pudesse revelar algo que preferimos esconder.
A repetição insistente do motivo central cria uma sensação de isolamento, inquietação e urgência silenciosa. É uma peça que contém o vazio, o medo e o eco das vozes que não foram ouvidas. E, simultaneamente, é uma música que exige que se avance: passo a passo, mesmo sobre uma superfície fria onde tantas vidas foram deixadas a congelar. É um ambiente sonoro que acompanha este ensaio com gravidade e respeito, sem distrair e sem suavizar aquilo que não pode ser suavizado.
Introdução
Proclamado pela ONU em 1999, o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres tem por objetivo alertar para a violência física, psicológica, sexual, económica e social que atinge milhões de mulheres. Longe de ser uma data simbólica, este dia lembra-nos que estamos perante uma das violações de direitos humanos mais persistentes e normalizadas.
Assinalar esta data em 2025 significa fazê-lo num contexto em que já não podemos invocar desconhecimento. Existem dados, relatórios, testemunhos e análises que documentam, com clareza, a continuidade da violência de género e a sua inscrição profunda nas estruturas sociais. A violência não é um acidente nem um desvio individual: é um fenómeno estrutural, ligado à forma como distribuímos poder entre mulheres e homens e aos modelos de masculinidade e feminilidade que continuamos a reproduzir.
É por isso que a reflexão sobre violência contra as mulheres não pode ser separada da reflexão sobre a qualidade da democracia. Uma democracia que não protege quem está mais exposto à violência — e que permite a sua normalização — está ferida na sua legitimidade ética e política.
1. Um dia que não é simbólico: é um teste à integridade democrática
Proclamado pela ONU em 1999, este dia não nasceu para gerar um ritual anual de indignação momentânea, mas para nos confrontar com uma pergunta incómoda: que valor real têm os direitos humanos quando, ano após ano, milhões de mulheres continuam a ser agredidas, humilhadas, perseguidas ou assassinadas?
A violência de género é visível nas estatísticas, nos relatórios e nas notícias de homicídios, mas é também invisível nas pequenas violências quotidianas, na vergonha que impede a denúncia e na normalização social de práticas de controlo e humilhação.
Persistem relações de poder assimétricas; persistem modelos de masculinidade baseados na dominação; persistem estruturas sociais e económicas que dificultam a saída das situações de violência; persistem sistemas judiciais lentos; persistem espaços digitais onde a misoginia circula com impunidade.
Este dia é, por isso, um teste à integridade democrática. Uma democracia não se mede apenas por eleições livres, mas pela capacidade de proteger quem vive em maior risco. Quando tantas mulheres vivem com medo — em casa, no trabalho, na rua ou no espaço digital — aquilo que está em causa é a própria credibilidade da promessa democrática.
2. Portugal em 2025: os dados que rompem o silêncio
Em 2025, os dados disponíveis até 30 de setembro revelam uma realidade que não pode ser normalizada:
19 vítimas mortais em contexto de violência doméstica, das quais 16 mulheres.
Entre julho e setembro, a Rede Nacional de Apoio acolheu 1486 pessoas:
Estes números exigem uma leitura rigorosa. Primeiro, reforçam que a violência doméstica é maioritariamente dirigida às mulheres. Segundo, mostram que 45% das pessoas acolhidas são crianças. Ou seja, a violência doméstica é também um fenómeno de vitimação infantil, com impactos profundos e duradouros.
Convém ainda clarificar: a violência doméstica não é um fenómeno das classes mais baixas, nem dos menos letrados, nem é exclusiva do interior do país. Atravessa todas as classes sociais, níveis de escolaridade e territórios. Perpassa condomínios de luxo, centros urbanos, meios rurais, profissões liberais e famílias com altos rendimentos.
O que muda não é a presença da violência — é a capacidade de denunciá-la, a possibilidade de sair, a força económica para recomeçar, o capital simbólico que protege agressores com poder e a probabilidade de a violência ser reconhecida como tal.
Como escreve Pierre Bourdieu, “a violência simbólica é uma violência suave, invisível, insidiosa, exercida com a cumplicidade tácita daqueles que a sofrem e daqueles que a exercem.”
E, como lembra Boaventura de Sousa Santos, “temos direitos que não temos força para exercer.”
A violência doméstica continua a ser, por isso, um dos mais importantes indicadores da desigualdade real no país.
3. Violência digital + 16 Dias de Ativismo: quando o mundo online se torna campo de batalha
A violência contra as mulheres transformou-se com a digitalização da vida. Hoje, o espaço online é um dos principais palcos de agressão: perseguição, assédio, campanhas coordenadas, chantagem digital, deepfakes, discursos de ódio, doxxing, grooming, exposição íntima não consentida e cyberbullying.
Os dados globais são alarmantes:
O digital não é uma extensão. É território central. E o que começa no ecrã não fica no ecrã.
O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, alerta que “não podemos permitir que os espaços digitais se tornem mais um lugar de insegurança para mulheres e meninas”, descrevendo a violência digital como “um flagelo global”. Sublinha ainda que o crescimento do assédio online, dos conteúdos misóginos e dos deepfakes deslocou o ódio “da margem para o centro do debate público”.
A campanha global UNITE — 16 Dias de Ativismo, entre 25 de novembro e 10 de dezembro, articula precisamente esta preocupação. Sob o mote “Una-se pelo fim da violência digital contra mulheres e meninas”, mobiliza:
Exige legislação eficaz, responsabilização das plataformas, remoção célere de conteúdos abusivos, proteção reforçada às vítimas, literacia digital para crianças e jovens, e combate frontal ao ódio online.
Esta campanha evidencia o que muitas vezes é ignorado: a violência digital é uma força política que retira mulheres do espaço público, limita a sua liberdade de expressão e condiciona a sua participação cívica e democrática.
4. Um país que precisa de assumir o que sabe: desigualdade, masculinidades e responsabilidade coletiva
Portugal não tem um problema de falta de dados — tem um problema de falta de coragem política para assumir aquilo que já sabe.
A violência contra as mulheres é um fenómeno estrutural, não acidental. Nasce de desigualdades acumuladas, de relações de poder assimétricas e de modelos de masculinidade que continuam a associar virilidade à dominação, autoridade e controlo.
Judith Butler lembra-nos que “a vulnerabilidade é produzida socialmente”, não é uma característica individual.
Nancy Fraser afirma que “a justiça só é possível quando articulamos igualdade económica, reconhecimento cultural e representação política”. A violência contra as mulheres situa-se precisamente no cruzamento destas três dimensões: é económica (porque depende da precariedade, da dependência financeira, do custo de sair), é cultural (porque se alimenta de estereótipos, misoginia e naturalização da desigualdade) e é política (porque a capacidade de denúncia, proteção e reparação depende das instituições e do quadro legal).
Bourdieu mostra como a violência pode esconder-se em relações aparentemente consensuais, descrevendo a violência simbólica como “uma violência suave, invisível, insidiosa, exercida com a cumplicidade tácita daqueles que a sofrem e daqueles que a exercem”.
Boaventura de Sousa Santos recorda que “o direito formal não basta quando não existem condições para o exercer”. Esta afirmação é particularmente evidente neste campo: ter formalmente o direito de viver sem violência não significa ter condições reais para denunciar, sair, ser protegida ou recomeçar.
Portugal precisa de assumir que a violência contra as mulheres:
Assumir significa reconhecer que o combate à violência não é apenas tarefa do Estado: é tarefa das escolas, das empresas, das plataformas digitais, do jornalismo, das autarquias, das comunidades e de cada pessoa que participa na vida pública.
Conclusão: quando uma mulher sofre violência, o país inteiro falha
A violência contra as mulheres não é apenas uma violação individual: é um colapso coletivo. Uma democracia que permite que mulheres sejam assassinadas, silenciadas, humilhadas, perseguidas e empurradas para fora do espaço público — físico ou digital — é uma democracia que não está apenas incompleta. É uma democracia que está a falhar.
E falha, sobretudo, porque não protege as mulheres — e uma democracia que não protege não merece esse nome.
É preciso dizê-lo com a dureza que o tema exige: a violência contra as mulheres não é apenas uma ferida da democracia — é um sangramento ativo e contínuo que ameaça o próprio corpo político.
Uma democracia onde as mulheres vivem aterrorizadas, isoladas ou silenciadas não é uma democracia fragilizada — é uma democracia cúmplice.
E uma sociedade que continua a tolerar esta violência — física, psicológica, económica ou digital — não é apenas injusta: é eticamente inaceitável.
E isso, simplesmente, não pode ser tolerado por mais nenhum dia.
© Manuela Ralha, 2025

Texto muito pertinente e necessário. Obrigada pela partilha.
ResponderEliminarExcelente texto! "Não passarão!"
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