Quando o poder começa a desaparecer

 

Quando o poder começa a desaparecer

A partir da leitura de Sobre a Violência, de Hannah Arendt



Ambiente sonoro

Dmitri Chostakovitch — Quarteto de Cordas n.º 8 em dó menor, Op. 110

Composto sob a impressão das ruínas de Dresden e dedicado às vítimas do fascismo e da guerra, o quarteto transporta a memória da violência sem a transformar em espetáculo. A tensão, o lamento e a resistência atravessam os cinco andamentos como uma voz humana que procura não desaparecer dentro da força que a ameaça. Em diálogo com Hannah Arendt, a música recorda-nos que a violência pode destruir um mundo, mas nunca criar o poder que nasce quando os seres humanos permanecem juntos.

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A violência impressiona-nos porque faz ruído. Ocupa as ruas, atravessa os ecrãs, incendeia edifícios, derruba corpos, impõe silêncio. O poder, pelo contrário, pode existir sem se impor. Reconhece-se quando pessoas diferentes conseguem reunir-se, falar, decidir e agir em comum. Não precisa de ferir para se fazer reconhecer, porque não se funda na obediência: nasce do consentimento que sustenta uma comunidade e da confiança que permite aos seres humanos construir alguma coisa juntos.

Foi Hannah Arendt quem traçou, com uma nitidez ainda desconcertante, esta fronteira entre poder e violência. Sobre a Violência, publicado originalmente no final da década de sessenta, pertence àquela rara categoria de livros que não envelhecem com os acontecimentos que os provocaram. A Guerra do Vietname, a ameaça nuclear, os movimentos de libertação, as lutas pelos direitos civis e as revoltas estudantis formam o horizonte imediato da obra. No entanto, aquilo que Arendt procura compreender ultrapassa largamente o seu tempo: a facilidade com que confundimos força política com capacidade de destruição.

Durante séculos, habituámo-nos a imaginar o poder como domínio. Poderoso seria aquele que consegue obrigar os outros a fazer aquilo que deseja. Um governante demonstraria o seu poder pela eficácia das ordens, pela extensão da obediência e, no limite, pelos instrumentos de coerção ao seu dispor. A arma surgiria, assim, como a expressão derradeira do poder.

Arendt interrompe esta evidência aparente. Do cano de uma arma pode sair uma ordem e dessa ordem pode resultar uma obediência imediata. O que nunca poderá nascer dali é poder.

O poder pertence aos muitos. Existe quando as pessoas agem em conjunto e permanece apenas enquanto continuam ligadas por uma vontade comum. Nenhum governante o possui como se possui um território, um exército ou um arsenal. Aquilo a que chamamos o seu poder é, na realidade, o apoio que outros lhe concedem para agir em seu nome. Quando esse apoio desaparece, podem restar-lhe as armas, a polícia, o medo e a capacidade de castigar. Pode conservar os instrumentos da violência e, apesar disso, ter perdido o poder.

Esta inversão muda profundamente o nosso modo de olhar para a vida política. Um governo que aumenta a coerção não está necessariamente a tornar-se mais poderoso. Pode estar apenas a revelar que já não consegue ser reconhecido sem ameaçar. A violência surge, muitas vezes, no lugar deixado vazio pelo poder. Quanto mais frágeis se tornam o consentimento, a autoridade e a confiança, maior é a tentação de substituí-los pela força.

A violência consegue destruir o poder, mas não consegue criá-lo. Pode dispersar uma multidão, silenciar uma voz, ocupar um território ou derrubar uma instituição. Não pode produzir a legitimidade de que uma comunidade necessita para perdurar. Pode obter submissão, mas não pertença. Pode impor uma ordem, mas não fundar um mundo comum.

Também os movimentos que lutam contra a opressão enfrentam esta contradição. Arendt não ignora que a violência pode tornar visível uma injustiça que todos se habituaram a não ver. Reconhece que, em determinadas circunstâncias, a sua rapidez parece ser a única resposta possível perante aquilo que ofende intoleravelmente o nosso sentido de justiça. A violência pode obrigar uma sociedade a escutar o que durante demasiado tempo recusou ouvir.

A sua eficácia, porém, é sempre limitada e perigosa. Sendo um meio, necessita de um fim que a justifique. Quando esse fim se torna remoto — a sociedade futura, a humanidade redimida, a revolução definitiva —, os meios começam a ocupar o lugar do propósito que deveriam servir. A violência praticada em nome de um mundo melhor acaba demasiadas vezes por determinar a forma desse mundo. Em vez de desaparecer depois da vitória, instala-se nas instituições, nos hábitos e na linguagem.

Nenhum meio atravessa intacto o corpo político. Aquilo que fazemos para alcançar um fim permanece entre nós depois de o fim ter sido esquecido.

A lucidez de Arendt torna-se ainda mais necessária quando analisa a raiva. Nem toda a emoção é inimiga da razão. A incapacidade de nos deixarmos afectar pelo sofrimento pode revelar uma forma mais profunda de desumanização do que a própria indignação. A raiva nasce frequentemente quando percebemos que uma injustiça poderia ser corrigida e, apesar disso, permanece. Não é necessariamente irracional nem egoísta. Podemos enfurecer-nos por aquilo que acontece a alguém que nunca vimos.

Mas a raiva perde a sua verdade quando deixa de reconhecer o responsável concreto e procura um culpado substituto. Também por isso Arendt desconfia das proclamações de culpa coletiva. Quando todos são declarados culpados, ninguém chega verdadeiramente a responder. A culpa torna-se tão vasta que já não permite distinguir atos, decisões ou responsabilidades. E aquilo que parecia uma confissão moral pode acabar por proteger quem efetivamente agiu.

O pensamento de Arendt exige-nos essa difícil fidelidade ao mundo concreto. Obriga-nos a distinguir sem deixar de sentir e a sentir sem abdicar do juízo. Recusa a comodidade das explicações que transformam a violência numa fatalidade biológica, numa descarga inevitável da agressividade humana ou numa etapa necessária do progresso histórico. A violência não pertence ao destino da espécie. Pertence ao mundo das escolhas humanas e deve ser julgada dentro dele.

O mesmo rigor atravessa a sua reflexão sobre a burocracia. Quando já não conseguimos identificar quem decide, quem responde ou a quem dirigir uma palavra, o espaço político começa a desaparecer. A administração ocupa o lugar do governo; os cidadãos tornam-se processos, números, ocorrências e destinatários de decisões sem rosto. Ninguém parece mandar, mas todos se descobrem submetidos.

Este governo de Ninguém pode ser uma das formas mais sufocantes de impotência. Perante uma estrutura que absorve todas as perguntas sem oferecer um interlocutor, a violência começa a parecer a única maneira de interromper o funcionamento da máquina e tornar novamente visível aquilo que ela ocultou. Não porque seja capaz de construir uma alternativa, mas porque ainda consegue produzir uma rutura.

É precisamente neste ponto que Sobre a Violência deixa de ser apenas um livro sobre aquilo que destrói. Arendt devolve-nos a faculdade humana de agir.

Agir não significa simplesmente reagir. Significa começar alguma coisa com outros, introduzir no mundo aquilo que não estava previsto, interromper processos que pareciam inevitáveis. A liberdade política não se cumpre apenas quando podemos falar sem sermos castigados. Precisa de instituições onde a palavra tenha consequências, onde os cidadãos possam participar na construção da realidade comum e onde o poder não seja confiscado por aparelhos que já ninguém consegue alcançar.

A resposta à violência não é, por isso, a passividade. É o poder entendido como capacidade partilhada de iniciar.

Num tempo em que a exibição da força volta tantas vezes a ser confundida com grandeza, Hannah Arendt recorda-nos que uma sociedade não é poderosa por conseguir assustar aqueles que a habitam. É poderosa enquanto eles ainda conseguem reconhecer-se uns aos outros como participantes do mesmo mundo.

Quando só restam a ameaça, a imposição e o medo, o poder pode já ter desaparecido. E todo o ruído da violência pode não ser mais do que a tentativa desesperada de esconder esse vazio.

A recente edição portuguesa de Sobre a Violência, publicada pela Relógio d’Água, com tradução de Miguel Serras Pereira, devolve-nos a oportunidade de ler — ou de reler — uma obra breve, incisiva e perturbadoramente atual. Não porque Hannah Arendt nos ofereça respostas simples para os conflitos do presente, mas porque nos ensina a reconhecer aquilo que as palavras confundidas já não nos deixam ver.

E são poucos os livros capazes de nos devolver, com tanta clareza, a diferença entre dominar os outros e construir poder com eles.

A partir da leitura de Hannah Arendt, Sobre a Violência, tradução de Miguel Serras Pereira, Relógio d’Água, 2026.

© Manuela Ralha, 2026

Comentários

  1. Um ensaio brilhante e incrivelmente oportuno, Manuela Ralha.
    Essa distinção de Arendt entre o ruído da violência e a força silenciosa do poder comum devia ser leitura obrigatória.
    Fiquei a pensar: o que acontece quando a violência deixa de fazer ruído e passa a atuar em silêncio?
    Hoje, esse «governo de Ninguém» de que falava Arendt ganhou a forma de burocracia algorítmica. Já não precisamos de tanques nas ruas para ver o espaço político encolher; basta o algoritmo a tomar decisões sem rosto e as redes a fragmentarem a praça pública em bolhas de indignação rápida. A coerção moderna raramente magoa o corpo, mas isola os cidadãos, e sem encontro, o verdadeiro poder evapora-se.
    Como a Manuela Ralha diz tão bem no final, a resposta não é a passividade. Reivindicar Arendt hoje é recusar que a política seja gerida por máquinas ou burocracias e ter a coragem de voltar a sentar, falar e iniciar com os outros.
    Obrigado pela pausa e por este momento de reflexão tão necessário! 🙏🙄

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    1. Marco, a sua pergunta leva a reflexão para um lugar ainda mais inquietante: o da violência que já não precisa de se mostrar para produzir obediência, exclusão e silêncio. Quando a decisão perde o rosto e a responsabilidade se dissolve no algoritmo, no procedimento ou na máquina burocrática, torna-se difícil saber a quem pedir razões — e ainda mais difícil construir resistência.
      O perigo está também nessa fragmentação que nos mantém permanentemente ligados, mas cada vez menos juntos. Sem encontro, sem palavra partilhada e sem um mundo comum, o poder dos cidadãos vai-se desfazendo quase sem darmos por isso.
      Regressar a Arendt é, como tão bem diz, recuperar a política como presença, relação e capacidade de começar com os outros. Muito obrigada pela profundidade da sua leitura e por ter prolongado o meu texto numa direção tão necessária. 🙏

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  2. Há livros que atravessam décadas sem perderem a capacidade de nos inquietar. Talvez porque o mundo mude muito menos do que gostamos de acreditar.
    Hoje fala-se de violência como se fosse inevitável. Grita-se mais, ameaça-se mais, impõe-se mais. Mas, ao ler estas palavras, fiquei a pensar que talvez a violência nem sempre seja o sinal de quem é forte. Talvez seja, tantas vezes, o último recurso de quem já não consegue convencer, inspirar ou construir com os outros.
    Vivemos numa sociedade onde confundimos demasiadas vezes o medo com respeito e a imposição com autoridade. E, quando isso acontece, perdemos a capacidade de distinguir quem lidera de quem apenas domina.
    No meio de tanto ruído, Hannah Arendt continua a lembrar-nos de uma verdade desconfortável, o poder nasce das pessoas, da sua vontade de agir em conjunto. A violência aparece quando esse poder começa a falhar.
    E isso deixa-me uma pergunta, talvez mais incómoda do que qualquer resposta: quando vemos a violência crescer à nossa volta, estaremos perante um excesso de poder ou perante a sua mais profunda ausência?

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    1. Acho que é mesmo essa a questão, Patrícia: a violência cresce quando já se perdeu a capacidade de convencer, de inspirar e de construir com os outros. Pode ainda impor obediência, mas não cria confiança, pertença ou verdadeira autoridade.

      E é isso que torna o pensamento de Arendt tão atual. Por detrás de tanta demonstração de força pode estar, afinal, uma enorme fragilidade — o vazio deixado pelo desaparecimento do poder comum.

      Obrigada, minha querida amiga, por esta leitura tão tua, sempre atenta ao que permanece para além das palavras. ❤️

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    2. Obrigada pelas tuas palavras. ❤️
      Foi exatamente essa ideia com que fiquei a de que, muitas vezes, aquilo que parece força pode ser apenas o reflexo de uma enorme fragilidade.
      É por isso que gosto tanto de ler e de conversar sobre o que escreves. Às vezes não encontramos respostas, mas encontramos perguntas melhores. E essas vezes, são as que nos fazem crescer.
      Um beijinho.

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    3. Obrigada por me leres
      Como eu digo, a escrita só se completa no diálogo. E na amizade. Beijinhos

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