Os Testamentos: os primeiros sinais de um mundo sem direitos

 


Os Testamentos: os primeiros sinais de um mundo sem direitos

Margaret Atwood e os avisos que nunca quisemos ouvir

Ambiente Sonoro: Adam Taylor — The Testaments

A partitura de Adam Taylor sustenta uma atmosfera de contenção, ameaça e melancolia moral, acompanhando a lenta naturalização da violência em Gilead. Mais do que ilustrar a série, amplifica a sua advertência.

🎧 Ouvir

Comecei a ver Os Testamentos no Disney+. E, desde os primeiros episódios, impôs-se-me não apenas a força da narrativa, mas o desconforto de reconhecer, sob a forma da ficção, mecanismos que a história e o presente já nos ensinaram a temer.

Para quem nunca viu nenhuma das séries, importa começar pelo essencial: estamos perante um universo distópico criado por Margaret Atwood, no qual uma sociedade aparentemente moderna colapsa e dá lugar a um regime totalitário chamado Gilead. Em A História de uma Serva, esse regime nasce a partir de uma crise profunda — social, política, ambiental e moral — e instala uma ordem fundada no controlo absoluto dos corpos, sobretudo dos corpos das mulheres. Nessa nova organização do mundo, as mulheres deixam de ter direitos, perdem autonomia, deixam de poder decidir sobre a sua vida e são distribuídas por categorias rígidas, conforme a função que o regime lhes atribui. Algumas tornam-se esposas dos homens do poder, outras são destinadas ao serviço doméstico, outras à vigilância e disciplina, e outras ainda, as aias, são transformadas em instrumentos reprodutivos ao serviço da elite. O corpo feminino deixa de pertencer à própria mulher e passa a pertencer ao Estado, à religião e ao poder.

Em Os Testamentos, a narrativa avança no tempo e mostra-nos o que acontece quando esse sistema já não está apenas a impor-se, mas a formar novas gerações dentro da sua própria lógica. Acompanhamos jovens que cresceram sob a ordem de Gilead, educadas para obedecer, aceitar, calar e interiorizar como natural aquilo que é, na verdade, profundamente violento. E é isso que torna esta continuação especialmente perturbadora: já não estamos apenas perante a fundação de um regime, mas perante a naturalização da opressão. O horror deixa de surgir apenas como imposição externa e passa a instalar-se dentro da linguagem, da educação, da moral e do quotidiano. A violência torna-se hábito. A submissão transforma-se em virtude. A brutalidade apresenta-se como ordem legítima.

Aquilo que mais me impressiona não é apenas a dureza do enredo, nem sequer a sofisticação do universo narrativo. É a clareza com que a série nos obriga a perceber que Gilead não apareceu de súbito. Não nasceu de um dia para o outro, como se a barbárie surgisse de repente, plenamente formada. Nasceu muito antes, em discursos tolerados, em sinais desvalorizados, em ideias que foram sendo ditas à vista de todos enquanto muitos preferiam acreditar que nunca passariam disso mesmo: palavras, excessos, radicalismos sem consequência. E talvez seja essa a dimensão mais inquietante de todo este universo: a de nos mostrar que os maiores retrocessos não começam quando já se tornaram sistema, mas muito antes, quando ainda podem ser confundidos com exagero, ruído ou irrelevância.

Há, em Os Testamentos, essa percepção profundamente perturbadora de que houve um tempo em que aquilo que viria a tornar-se regime já estava anunciado. Havia sinais. Havia discursos. Havia posições assumidas. Havia quem dissesse claramente ao que vinha. Mas muitos não ouviram, não quiseram ouvir, ou acharam que nunca aconteceria. E essa é, talvez, a sua lição mais dura: não a de que o horror chega sem aviso, mas a de que, muitas vezes, chega depois de ter sido repetidamente anunciado.

É precisamente por isso que esta série devia ser vista também como advertência ética e política para o presente. Não no sentido simplista de confundir ficção com realidade, mas no sentido muito mais sério de reconhecer os mecanismos através dos quais as sociedades se degradam e os direitos se perdem. A perda de direitos raramente começa com a sua abolição frontal. Começa antes, no desgaste da linguagem, na normalização do desprezo, na banalização da desigualdade, na revalorização de velhas hierarquias sob novas roupagens. Começa quando regressam discursos que humilham as mulheres, que as reduzem a papéis subordinados, que apresentam a sua autonomia como ameaça, excesso ou desvio.

É aqui que a minha leitura crítica se torna inevitável. Esta série devia ser vista por todas as mulheres — e, na verdade, por toda a gente — que ainda consideram inofensivos os novos influencers que defendem o machismo, a humilhação das mulheres e a perda dos seus direitos. Não são inofensivos. Nunca são. A história mostra-nos, repetidamente, que as grandes regressões começam quase sempre por se apresentar como coisa menor, caricatural, provocatória ou improvável. Primeiro são palavras. Depois tornam-se ideias partilháveis. A seguir, passam a atmosfera cultural. E quando damos conta, já encontraram expressão política, legitimidade social e capacidade de moldar comportamentos.

O que hoje parece apenas pose agressiva, masculinidade performativa ou discurso digital sem consequência pode amanhã tornar-se pedagogia social de dominação. Pode transformar-se em cultura aceitável. Pode consolidar-se como linguagem comum. E, quando isso acontece, já não estamos apenas perante opiniões isoladas: estamos perante condições de possibilidade para formas mais amplas de retrocesso. A História de uma Serva e Os Testamentos mostram-nos precisamente isso com enorme lucidez: os regimes autoritários não vivem apenas da força; vivem também da habituação. Precisam que a violência simbólica deixe de chocar. Precisam que a desigualdade volte a parecer natural. Precisam que a liberdade das mulheres seja reinterpretada como desordem, e que o controlo sobre elas se apresente como restauração moral.

Gilead começa muito antes de Gilead. Começa quando a sociedade já não sabe distinguir firmeza de crueldade, tradição de opressão, autoridade de domínio, moralidade de submissão. Começa quando a humilhação das mulheres deixa de escandalizar. Começa quando o desprezo circula com novo brilho, nova linguagem e novos rostos. Começa quando demasiada gente acredita que nada daquilo terá consequências reais.

É por isso que estas obras continuam tão necessárias. Porque não falam apenas de um futuro sombrio imaginado por Margaret Atwood; falam da fragilidade concreta das democracias, da facilidade com que os direitos podem ser erodidos e da rapidez com que a indiferença colectiva abre caminho ao retrocesso. O mais perturbador em Gilead não é ser impossível; é ser reconhecível.

No fundo, a grande lição desta distopia é simples e terrível: nenhum direito está garantido para sempre, nenhuma conquista é irreversível e nenhuma forma de humilhação sistemática deve ser tratada como entretenimento inocente. Quando os discursos que inferiorizam as mulheres regressam com nova linguagem, novo brilho e novos rostos, não estamos perante excentricidades inofensivas. Estamos, muitas vezes, perante os primeiros sinais de um mundo que, se não for travado a tempo, poderá vir a dizer abertamente amanhã aquilo que hoje ainda ensaia dizer em surdina.

Porque os mundos mais sombrios não começam quando já têm nome. Começam quando deixamos de reconhecer, nas palavras de hoje, a violência de amanhã.

© Manuela Ralha, 2026

Comentários

  1. Apesar de não ter assistido a esta série que menciona, esta sua reflexão faz-me direcionar para esta nova geração, que ligada à tecnologia, começa a aparecer organizada e que tem em cima da "mesa", um tema tão preocupante como a misoginia.
    Vivemos um paradoxo: ao mesmo tempo que nunca se falou tanto sobre igualdade de género, estamos a assistir a um ressurgimento de discursos misóginos que parecem ter "rejuvenescido".
    A misoginia moderna não nasce no vácuo; ela é digital. Figuras conhecidas como "influenciadores de masculinidade" (ou alpha influencers) começaram a utilizar uma retórica de autoajuda para atrair jovens vulneráveis.
    A radicalização acontece muitas vezes em fóruns e comunidades fechadas (como Discord ou subreddits específicos). Ali, a mulher é desumanizada, transformada em memes ou estatísticas.
    Esta "gamificação" do desrespeito faz com que a violência verbal pareça apenas uma piada interna, o que torna mais difícil para o jovem perceber o impacto real e cruel das suas palavras.
    O que assusta não é apenas o comentário ofensivo na internet, mas a tradução disso para a vida real.
    Professores relatam um aumento de comportamentos desafiadores e agressivos contra colegas e docentes do sexo feminino.
    A ideia de que o consentimento é opcional ou que o controlo sobre a parceira é "proteção", ao que me parece, está a voltar a ganhar força.
    Neste campo não basta apenas punir; é preciso disputar o quanto antes esta narrativa.
    Ensinar os jovens a identificar como os algoritmos os empurram para conteúdos de ódio.
    Mostrar que ser homem não depende de dominar ninguém, mas sim de ter inteligência emocional e respeito.
    Precisamos de ouvir as frustrações destes jovens sem julgamento imediato, para depois lhes mostrar que a misoginia é um beco sem saída que também os torna infelizes.
    É um desafio geracional. A tecnologia avançou à velocidade da luz, mas parece que, nalguns aspetos sociais, estamos a ser puxados para trás por um fio invisível de insegurança e desinformação.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

A escrita só se completa no diálogo. Se quiseres, deixa a tua reflexão.
© Manuela Ralha