No Enxame, de Byung-Chul Han
No Enxame, de Byung-Chul Han
Quando a ligação já não faz comunidade
Ambiente sonoro sugerido
Alva Noto & Ryuichi Sakamoto — Insen
Este ambiente sonoro acompanha a leitura de No Enxame como uma paisagem de sinais, pulsações e silêncios interrompidos. O piano de Ryuichi Sakamoto introduz uma presença humana frágil, quase suspensa, enquanto a eletrónica minimalista de Alva Noto convoca o ruído frio da comunicação digital, a repetição dos dados, a vibração impessoal das redes e a solidão que pode persistir mesmo no interior da hiperconexão.
Ontem trouxe-vos Não-Coisas, de Byung-Chul Han, uma obra em que o autor pensa a perda de densidade do mundo, a substituição das coisas pelos dados, dos objetos pela informação, da presença pela disponibilidade digital. Hoje trago-vos No Enxame, publicado em Portugal pela Relógio D’Água, numa edição de outubro de 2016, com tradução de Miguel Serras Pereira.
Lidos em conjunto, estes dois livros quase se iluminam mutuamente. Se Não-Coisas nos coloca perante um mundo que se desmaterializa, No Enxame interroga aquilo que acontece à vida coletiva quando todos estamos ligados, mas cada vez menos reunidos; quando comunicamos sem pausa, mas nem sempre conversamos; quando reagimos instantaneamente, mas temos cada vez mais dificuldade em construir pensamento comum, presença comum, responsabilidade comum.
A força deste pequeno ensaio está precisamente nessa pergunta: que tipo de sociedade nasce quando a ligação digital substitui a comunidade?
Byung-Chul Han não escreve contra a tecnologia num sentido simplista. A sua crítica é mais funda. O que lhe interessa não é apenas saber que instrumentos usamos, mas que modos de vida esses instrumentos vão produzindo em nós. A Internet, as redes sociais, o smartphone, a circulação permanente de informação, a exposição contínua da intimidade, a aceleração da opinião e a transformação de tudo em dado não são apenas fenómenos técnicos. São fenómenos antropológicos, culturais e políticos.
Em No Enxame, Han parte da ideia de que a sociedade digital não produz necessariamente comunidade. Produz, muitas vezes, aquilo a que chama “enxame”: uma multiplicidade de indivíduos conectados, ruidosos, reativos, mas incapazes de constituir um verdadeiro “nós”. Esta distinção é essencial. Um enxame não é um povo. Não é uma comunidade política. Não é uma massa organizada por uma vontade coletiva. É antes uma agregação instável, feita de reações rápidas, indignações momentâneas, exposições individuais e movimentos afetivos que se inflamam e desaparecem com a mesma velocidade.
É por isso que uma das formulações mais importantes da obra é a ideia de que os indivíduos reunidos no enxame não desenvolvem um verdadeiro “nós”. Esta frase resume uma das inquietações centrais do nosso tempo. Podemos estar permanentemente ligados e, ainda assim, profundamente sós. Podemos comunicar com muitos e, ainda assim, não construir comunidade. Podemos partilhar opiniões, imagens, gostos, indignações e comentários, sem que disso resulte um verdadeiro espaço público.
Han mostra que a comunicação digital tende a eliminar a distância. À primeira vista, isto parece positivo: aproxima pessoas, encurta tempos, dissolve barreiras. Mas o autor lembra-nos que nem toda a distância é separação injusta. Há uma distância necessária ao respeito, ao pensamento, à escuta e à própria existência do outro enquanto outro. O respeito exige que eu não devore o outro com o olhar, que não o reduza a imagem, espetáculo, exposição ou reação. Quando tudo se torna imediatamente visível, comentável, partilhável e julgável, perde-se a delicadeza da distância.
A esfera pública, para existir, precisa dessa distância. Precisa de mediação, de linguagem, de tempo, de instituições, de ponderação. Ora, a sociedade digital tende a substituir a discussão pela reação, a deliberação pela descarga afetiva, o discurso pela indignação. Han chama-lhe “sociedade da indignação”: uma sociedade onde ondas emocionais se formam rapidamente, captam a atenção, produzem ruído, mas dificilmente constroem continuidade política.
Esta análise é particularmente atual. Vivemos num tempo em que a indignação circula com enorme velocidade. Muitas vezes é necessária, justa e compreensível. Mas nem toda a indignação se transforma em ação. Nem toda a denúncia produz transformação. Nem toda a reação funda uma responsabilidade. Han distingue a cólera capaz de abrir mundo, de iniciar ação e narrativa, da indignação digital que frequentemente se esgota no próprio ato de se manifestar. O problema não é indignarmo-nos. O problema é quando a indignação substitui o pensamento, a escuta, a organização e o compromisso.
Outro eixo fundamental da obra é a crítica da desmediatização. O digital permite que todos publiquem, comentem, reajam, opinem e produzam informação. Esta possibilidade tem uma dimensão democratizadora inegável. Muitas vozes antes excluídas ganharam espaço público através das redes. Mas Han chama a atenção para o outro lado do processo: quando todas as mediações são vistas como obstáculos, também se enfraquecem os filtros culturais, jornalísticos, políticos e institucionais que permitiam distinguir informação de ruído, opinião de conhecimento, presença de representação.
A democracia representativa torna-se, assim, vulnerável a uma exigência permanente de presença imediata. Tudo deve ser transparente, tudo deve ser instantâneo, tudo deve ser permanentemente exposto. Mas a política, recorda-nos Han, precisa de tempo. Precisa de maturação, de reserva, de elaboração, de estratégia, de responsabilidade perante o futuro. Uma política inteiramente submetida à lógica da transparência instantânea corre o risco de se tornar curta, nervosa, reativa e incapaz de pensar a longo prazo.
Neste ponto, No Enxame é também uma obra sobre a crise da democracia. Han mostra como o cidadão vai sendo transformado em consumidor. O voto aproxima-se do clique. A participação aproxima-se do “gosto”. A opinião pública aproxima-se de um mercado de preferências. O governante passa a ser pressionado a comportar-se como fornecedor de satisfação imediata. A cidadania, porém, exige mais do que escolha. Exige pertença, juízo, responsabilidade pelo comum e capacidade de aceitar que a democracia não é a soma instantânea dos desejos individuais.
A crítica de Han torna-se ainda mais incisiva quando aborda o controlo digital. A sociedade contemporânea já não precisa apenas de vigiar de fora. Somos nós que fornecemos os nossos dados, as nossas imagens, os nossos gostos, os nossos percursos, os nossos hábitos, as nossas preferências. A exposição tornou-se voluntária. A vigilância tornou-se confortável. A liberdade aparece confundida com disponibilidade permanente.
Daí a passagem decisiva de “Big Brother” para “Big Data”. O poder contemporâneo já não se apresenta apenas como autoridade visível que observa. Apresenta-se como recolha, cálculo, previsão e modulação de comportamentos. O controlo torna-se mais subtil porque se confunde com conveniência, personalização, rapidez e conforto. Já não somos apenas vigiados; somos analisados, antecipados e orientados.
Neste sentido, No Enxame ajuda-nos a compreender que o problema do digital não está apenas no excesso de comunicação, mas na transformação da própria vida em informação. A experiência dá lugar ao dado. A presença dá lugar à exposição. A memória dá lugar ao arquivo. A amizade dá lugar ao número. A ação dá lugar ao gesto do dedo sobre o ecrã.
Han convoca Hannah Arendt para lembrar que agir, em sentido político forte, significa iniciar algo novo no mundo. Agir não é apenas reagir. Não é apenas escolher entre opções pré-formatadas. Não é apenas clicar, gostar, partilhar ou deslizar o dedo. Agir é introduzir uma possibilidade nova no mundo comum. É comprometer-se com outros. É abrir futuro.
Ora, a cultura digital tende a substituir a ação pela operação. O dedo enumera, seleciona, calcula, aprova, elimina. Mas a história não é feita apenas de contagens. A história precisa de narração, de sentido, de memória, de conflito, de decisão. Quando tudo se torna mensurável, aquilo que não pode ser contado parece perder valor. E, no entanto, o mais importante da vida humana talvez resida precisamente no que não se deixa reduzir a número: o cuidado, a confiança, a amizade, a dignidade, a justiça, a esperança, a palavra dada.
A obra não está isenta de limites. Han escreve de forma incisiva, por vezes quase totalizante. O digital surge muitas vezes como uma força homogénea, sem que sejam suficientemente consideradas as formas emancipatórias, comunitárias e solidárias que também podem nascer das redes. Há movimentos sociais, comunidades de cuidado, redes de apoio, formas de participação e circulação de conhecimento que não podem ser ignoradas. O problema, por isso, não será simplesmente o digital em si mesmo, mas a sua captura pela lógica da atenção, do mercado, da vigilância, da velocidade e do desempenho.
Ainda assim, é precisamente por ser tão radical que No Enxame se torna uma leitura necessária. Han obriga-nos a parar. Obriga-nos a perguntar o que estamos a perder enquanto ganhamos velocidade. Obriga-nos a distinguir ligação de comunidade, visibilidade de verdade, comunicação de encontro, indignação de ação, opinião de pensamento, consumo de cidadania.
Depois de Não-Coisas, No Enxame aparece como uma peça indispensável para compreender a arquitetura crítica de Byung-Chul Han. Num livro, perdemos as coisas; no outro, perdemos o “nós”. Num, o mundo torna-se informação; no outro, a sociedade torna-se enxame. Em ambos, o que está em causa é a dificuldade contemporânea de habitar verdadeiramente o mundo: com corpo, com tempo, com silêncio, com alteridade, com responsabilidade.
No Enxame não nos pede que rejeitemos a tecnologia. Pede-nos algo mais exigente: que não confundamos conexão com vida comum. Que não confundamos ruído com participação. Que não confundamos exposição com presença. Que não confundamos reação com democracia.
Num tempo em que todos parecemos falar ao mesmo tempo, talvez a pergunta mais urgente seja esta: ainda sabemos escutar em comum?
© Manuela Ralha, 2026

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