Mulheres, liberdade e o país por cumprir

 

Mulheres, liberdade e o país por cumprir


Legenda da imagem — Entre a sombra da passagem e a praça aberta, a liberdade das mulheres inscreve-se no espaço comum como presença, voz e caminho ainda por cumprir. Os cravos no chão e os papéis dispersos lembram que a democracia só se torna inteira quando a igualdade deixa de ser promessa e passa a habitar a vida concreta.


“ela é também mulher-asa,
mulher-força, mulher-chama”

— Ary dos Santos, “Mulher”

Ambiente sonoro

Eurico Carrapatoso — Dize Sim

Para acompanhar esta quarta crónica, mantém-se Dize Sim, de Eurico Carrapatoso, como ambiente sonoro do ciclo Abril Ainda. A sua densidade interior e a sua gravidade contida acompanham bem o centro deste texto: a liberdade das mulheres como uma das medidas mais exigentes da democracia e como parte ainda inacabada do país que Abril abriu.

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Durante demasiado tempo, a liberdade teve em Portugal uma gramática incompleta.

Falava-se do país, da ordem, da família, da autoridade, da moral. Falava-se do dever, da obediência, da respeitabilidade. Mas, por baixo dessa linguagem, existia uma realidade mais funda e mais dura: a de uma sociedade que aceitava como natural a menoridade cívica, simbólica e social das mulheres. Não apenas na lei, mas nos costumes. Não apenas nas instituições, mas no desenho íntimo da vida quotidiana.

É impossível pensar seriamente o 25 de Abril sem passar por aqui.

A democracia não abriu apenas portas políticas. Abriu também espaço para uma transformação mais lenta, mais difícil e, por isso mesmo, mais profunda: a da condição das mulheres na vida portuguesa. Não resolveu tudo, nem de longe. Mas tornou possível aquilo que antes estava amarrado por uma espécie de evidência opressiva: estudar, trabalhar, escolher, participar, intervir, romper, sair do lugar que lhes tinha sido atribuído como destino e não como construção histórica.

Nenhuma sociedade é verdadeiramente livre quando metade de si vive sob tutela, contenção ou expectativa de obediência.

E essa tutela nem sempre se apresenta com violência explícita. Às vezes, instala-se na naturalização. Na ideia de que há lugares “próprios”. Na benevolência paternalista. Na velha repartição entre o que é central e o que é secundário, entre o que conta como voz pública e o que deve permanecer na retaguarda, no cuidado invisível, no trabalho sem nome, na competência sem reconhecimento.

Por isso, falar de liberdade das mulheres não é acrescentar um tema lateral à democracia. É tocar num dos seus critérios mais sérios.

Vê-se aí a qualidade de um regime. Vê-se aí a verdade de uma cultura cívica. Vê-se aí a distância entre a igualdade proclamada e a igualdade vivida. Porque há democracias que reconhecem direitos e, ainda assim, conservam hábitos de desigualdade tão persistentes que a liberdade continua a chegar de forma desigual aos corpos, aos percursos, às oportunidades e ao tempo de vida.

O país mudou. Mudou muito.

Mudaram as leis, mudaram as possibilidades, mudou a presença das mulheres na escola, no trabalho, na política, na cultura, nas profissões, na palavra pública. Tudo isso é real e não deve ser diminuído. Mas também é real que a igualdade continua a encontrar resistências antigas com nomes novos. Continua a tropeçar na sobrecarga invisível, na desvalorização persistente, na violência que muda de linguagem sem perder poder, na facilidade com que a autoridade masculina continua, tantas vezes, a apresentar-se como medida espontânea do mundo.

É aqui que a liberdade deixa de ser palavra bonita e passa a ser critério exigente.

Porque uma mulher pode ter direitos formais e continuar a viver sob constrangimentos materiais, simbólicos e afetivos que lhe estreitam a vida. Pode ter acesso e continuar a carregar desproporção. Pode participar e continuar a pagar, por essa participação, um preço que os homens raramente conhecem da mesma maneira. Pode ser livre perante a lei e continuar menos livre no quotidiano.

A democracia não se mede apenas pelo que permite em teoria.
Mede-se pelo que transforma na vida concreta.

E a vida concreta continua a dizer-nos que o país de Abril não está concluído. Está mais aberto, mais plural, mais justo do que foi. Mas não está concluído. Continua a pedir vigilância, coragem e lucidez. Continua a pedir uma liberdade que não se satisfaça com a retórica do progresso nem aceite como suficiente o que ainda deixa tanta desigualdade em circulação.

Esta é uma das tarefas mais sérias da democracia: reconhecer como assunto comum aquilo que durante séculos foi empurrado para o plano do privado, do secundário ou do supostamente natural. O trabalho do cuidado. A violência doméstica. A desigualdade de oportunidades. A desvalorização de percursos. O silenciamento subtil. A exigência absurda de que as mulheres conciliem tudo sem falha, sem desgaste e sem direito ao fracasso.

Nada disto é marginal.
Tudo isto é político.

E tudo isto nos devolve à pergunta essencial: que liberdade é essa que aceita continuar distribuída de forma desigual? Que democracia é essa que se declara madura, mas tolera ainda formas persistentes de assimetria na dignidade, na segurança, no reconhecimento e no poder?

Abril abriu o caminho. Mas abrir um caminho não é o mesmo que tê-lo percorrido até ao fim.

Por isso, quando falamos de mulheres e liberdade, não falamos de um apêndice da história democrática portuguesa. Falamos de uma das suas medidas mais exigentes. Falamos da diferença entre uma liberdade enunciada e uma liberdade efetivamente habitável. Falamos do país que mudou — e do país que ainda precisa de mudar para que a igualdade deixe de ser promessa educada e passe a ser substância do comum.

Esse é um dos sentidos mais exigentes de Abril: não permitir que a liberdade se acomode enquanto continuar a chegar de forma desigual à vida de uns e de outras.

Esta crónica integra a série Abril Ainda, dedicada à liberdade, à democracia e à herança viva do 25 de Abril. A página da série reúne, em sequência, todas as crónicas publicadas.

© Manuela Ralha, 2026

Comentários

  1. Sinto que este texto me atravessa de forma muito direta. Não é apenas uma reflexão sobre o 25 de Abril, é um espelho que nos obriga a olhar para o que ainda permanece por cumprir. Há uma verdade difícil aqui, a liberdade das mulheres continua muitas vezes a ser formal, mas não plenamente vivida.
    O mais forte, para mim, é esta ideia de que a democracia não se mede pelo que promete, mas pelo que transforma na vida concreta. E essa transformação ainda está incompleta.
    Reconheço neste texto muitas realidades silenciosas do quotidiano, que raramente entram no discurso público com esta clareza. E talvez por isso ele seja tão importante porque dá nome ao que tantas vezes é vivido em silêncio.
    É uma leitura que incomoda, mas no melhor sentido. Porque nos chama à responsabilidade de não aceitar como suficiente aquilo que ainda deixa tanta desigualdade em circulação.

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