Abril não terminou
Abril não terminou
Ambiente sonoro
Eurico Carrapatoso — Dize Sim
Para acompanhar esta primeira crónica, mantém-se Dize Sim, de Eurico Carrapatoso, como ambiente sonoro do ciclo Abril Ainda. A sua respiração contida e grave dialoga com a ideia central deste texto: Abril não como memória encerrada, mas como exigência viva, responsabilidade democrática e liberdade ainda por cumprir.
Abril não ficou no instante em que um regime caiu.
Ficou na pergunta que desde então nos acompanha: o que fazemos com a liberdade quando ela deixa de ser promessa e passa a ser responsabilidade?
É essa pergunta que impede o 25 de Abril de repousar apenas na memória. E é também ela que o salva de se tornar uma data venerável, consensual e, por isso mesmo, um pouco inofensiva. Abril não pertence apenas à história. Pertence ao presente, àquilo que ainda temos de defender, aprofundar e merecer.
A liberdade não é uma conquista imóvel.
Não é um bem que, uma vez alcançado, fique protegido do desgaste. Enfraquece quando deixa de ser exercida com coragem. Empobrece quando o medo regressa à linguagem. E pode até sobreviver nas palavras, ao mesmo tempo que se vai tornando mais débil na vida concreta.
É isso que torna Abril maior do que a sua memória. Não serve apenas para recordar o que um povo foi capaz de conquistar. Serve também para interrogar o modo como, hoje, usamos essa conquista.
Vê-se aí a qualidade da democracia em que vivemos. Vê-se aí a espessura da liberdade que praticamos. Vê-se aí o modo como escutamos, como discutimos, como dissentimos, como tratamos os mais frágeis, como cuidamos — ou não — daquilo que é comum.
A democracia nunca chega a um ponto em que possa descansar.
Tem de ser continuamente habitada.
Não basta que exista em forma institucional, embora precise dessa forma. Não basta que se apresente em calendário eleitoral, embora nada a dispense dessa regra essencial. Precisa também de uma ética do convívio, de uma disciplina da atenção, de uma recusa do cinismo como estilo de vida pública.
E isso revela-se em coisas aparentemente pequenas.
Na forma como se fala.
Na forma como se escuta.
Na forma como se aceita — ou não — que a mentira se normalize, que a brutalidade ganhe espaço, que a desigualdade se torne paisagem.
Abril começou por abrir portas muito concretas: à palavra, ao voto, à participação, à dignidade cívica. Mas nenhuma porta permanece aberta sozinha. É preciso continuar a abri-la. E voltar a abri-la. E perceber, a tempo, quando ela começa a estreitar-se.
Por isso me parece sempre insuficiente tratar o 25 de Abril como simples celebração daquilo que foi conquistado. Prefiro pensá-lo como critério. Uma linha interior que separa o aceitável do inaceitável, o humano do desumano, a democracia viva da sua lenta decomposição.
Abril não terminou porque a liberdade não terminou de se cumprir.
Nem a igualdade.
Nem a justiça.
Nem sequer a nossa aprendizagem do que significa viver juntos sem medo e sem servidão.
Dizer isto não é retirar grandeza ao que aconteceu em 1974.
É, pelo contrário, levá-lo a sério.
Levá-lo a sério é recusar que a democracia se transforme em rotina sem alma. É recusar que a liberdade sobreviva apenas como palavra honrosa. É recusar que Abril se converta num património emocional que se exibe sem que dele retiremos consequências.
O 25 de Abril permanece entre nós por uma razão simples: ainda não acabámos de merecê-lo.
Esta crónica integra a série Abril Ainda, dedicada à liberdade, à democracia e à herança viva do 25 de Abril. A página da série reúne, em sequência, todas as crónicas publicadas.
© Manuela Ralha, 2026

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