O que ainda pedimos a Abril

 

O que ainda pedimos a Abril


Legenda da imagem
Entre a sombra da passagem e a praça aberta, os cravos dispersos e os papéis no chão lembram que Abril não vive apenas na memória celebrada, mas na vigilância que o presente exige. Imagem de uma democracia habitada e frágil, que continua a pedir lucidez, resistência e defesa.

“Há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não”

— Manuel Alegre

Ambiente sonoro

Eurico Carrapatoso — Dize Sim

Para acompanhar esta quinta crónica, mantém-se Dize Sim, de Eurico Carrapatoso, como ambiente sonoro do ciclo Abril Ainda. A sua gravidade interior e a sua tensão contida acompanham bem o fecho desta série: Abril como exigência viva, vigilância democrática e recusa da erosão da liberdade, da memória e da dignidade cívica.

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Abril não ficou onde o colocam as cerimónias.
Ficou onde a democracia falha, onde a desigualdade resiste, onde a liberdade ainda precisa de defesa.

É isso que faz do 25 de Abril uma data tão singular na vida portuguesa. Não regressa apenas pela memória do que derrubou, nem pela emoção legítima que continua a suscitar. Regressa porque permanece como medida. Mede o país que somos, mede a qualidade da vida democrática, mede a distância entre aquilo que celebramos e aquilo que ainda não conseguimos cumprir.

Nenhuma revolução permanece viva apenas no que mudou.
Permanece também no que deixou por fazer.

Abril abriu uma possibilidade histórica de liberdade, de participação, de dignidade cívica e de justiça. Abriu o espaço da palavra, restituiu direitos, devolveu ao país a possibilidade de se pensar e de se governar em liberdade. Mas nenhuma possibilidade se realiza por si mesma. Entre o que uma revolução promete e o que uma sociedade consegue construir há sempre um intervalo longo, irregular, por vezes contraditório.

É nesse intervalo que continuamos.

E é por isso que ainda pedimos coisas a Abril.

Pedimos-lhe mais do que evocação.
Pedimos-lhe critério.
Pedimos-lhe exigência.
Pedimos-lhe lucidez bastante para reconhecer que a democracia nunca está definitivamente a salvo.

Porque a democracia não é atacada apenas quando um regime cai.
É atacada também quando a mentira ganha estatuto de método.
Quando a linguagem pública se degrada até já não distinguir entre crítica e ódio, entre liberdade e licenciosidade, entre convicção e brutalidade.
Quando a desigualdade se torna tão funda que esvazia por dentro a promessa de igualdade cívica.
Quando o medo regressa com novas máscaras.
Quando o cinismo substitui a responsabilidade.
Quando a memória histórica começa a ser tratada como obstáculo, exagero ou incómodo.

É aqui que Abril volta a tornar-se indispensável.

Porque também há ataques que não chegam de frente.
Chegam pela erosão.
Pela banalização do autoritarismo.
Pela reescrita branda da história.
Pela tentativa de tornar a ditadura discutível, a censura relativizável, a repressão comparável a um simples estilo de governação mais austero, mais ordeiro, mais eficaz.

E é precisamente aí que a democracia começa a perder defesas.

Quando se enfraquece a memória do que foi o medo.
Quando se desvaloriza o peso da censura.
Quando se normaliza a ideia de que a liberdade é excessiva, que os direitos são um incómodo, que a pluralidade desgasta, que a participação complica, que a crítica perturba.

Nenhuma democracia madura pode permitir-se essa amnésia.

Não se trata de transformar Abril em dogma.
Trata-se de recusar a falsificação moral da história.
Trata-se de não aceitar que a liberdade seja julgada pelos seus ruídos e a ditadura absolvida pelos seus silêncios.
Trata-se de saber que toda a reescrita complacente do passado prepara sempre alguma forma de empobrecimento do presente.

É por isso que ainda pedimos coisas a Abril.

Pedimos-lhe firmeza para defender a democracia também dos seus inimigos íntimos: a indiferença, a preguiça cívica, a sedução da autoridade sem contraditório, a facilidade com que se troca liberdade por simplificação e memória por conveniência.

Pedimos-lhe clareza para reconhecer que os direitos humanos não são ornamento moral.
Que a liberdade de expressão não existe para proteger apenas o que é cómodo.
Que a igualdade não é um luxo progressivo, mas um critério da dignidade democrática.
Que a história não pode ser entregue a revisionismos que limpam a violência, suavizam a opressão e tornam suportável o que nunca deveria voltar a sê-lo.

Pedimos-lhe, no fundo, que continue a inquietar-nos.

Que não deixe a democracia transformar-se em rotina sem alma.
Que não deixe a liberdade tornar-se mera palavra de prestígio.
Que não deixe a memória do 25 de Abril ser reduzida a ritual vazio ou a nostalgia inofensiva.
Que não deixe o país esquecer o preço do silêncio, da censura, do medo e da obediência.

Abril abriu uma possibilidade histórica.
Mas uma possibilidade não é um destino.

Cabe-nos a nós decidir se a defendemos com seriedade bastante para reconhecer os perigos do presente, ou se a deixamos desgastar-se entre a indiferença, a simplificação e a falsificação da memória.

Celebrar Abril, hoje, é também isto:
não consentir que se apague o que ele libertou,
não aceitar que se reescreva o que ele interrompeu,
não permitir que a democracia desaprenda o valor da liberdade.

Porque há datas que se comemoram.
E há datas que continuam a exigir vigilância.

Abril é uma delas.

Esta crónica integra a série Abril Ainda, dedicada à liberdade, à democracia e à herança viva do 25 de Abril. A página da série reúne, em sequência, todas as crónicas publicadas.

© Manuela Ralha, 2026

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