Não-Coisas Entre a dissolução do mundo e a leveza inquieta da informação
Ambiente sonoro
Ryuichi Sakamoto — async
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Um álbum feito de fragmentos, pausas e respirações mínimas. async não organiza o tempo — expõe-no. Cada som surge como vestígio, como presença frágil que se anuncia e se retira. Mais do que acompanhar a leitura, cria um espaço de escuta onde o mundo abranda, permitindo perceber aquilo que, no excesso de informação, tende a desaparecer: a duração, o silêncio, a espessura do real.
Começa-se por um gesto simples, quase imperceptível: pousar o telemóvel sobre a mesa. O objecto permanece ali, presente, mas a sua presença não coincide com a das coisas que outrora organizavam o mundo. Não pesa como um livro lido e relido, não guarda marcas de uso que o tempo inscreve, não devolve o passado sob a forma de memória habitada. Está ligado a um fluxo. Vibra, acende, chama. Não é apenas um objecto: é uma passagem.
É a partir desta deslocação subtil — do objecto para o fluxo — que Não-Coisas, de Byung-Chul Han, constrói uma das mais inquietantes leituras do presente.
O livro não descreve uma mudança tecnológica. Nomeia uma transformação ontológica. O que está em causa não é apenas a substituição de ferramentas, mas a mutação da própria estrutura do mundo vivido.
As coisas, na acepção que Han recupera, não são simples objectos utilitários. São aquilo que estabiliza. Aquilo que permanece. Aquilo que resiste à passagem do tempo e, por isso mesmo, a torna habitável. Uma coisa é sempre mais do que o seu uso: é um ponto de ancoragem.
Um livro sublinhado, uma mesa herdada, uma fotografia guardada numa gaveta — cada um destes elementos participa numa economia da duração. Não se limitam a existir; sustentam a continuidade da experiência.
É precisamente essa continuidade que a era digital desagrega. A substituição das coisas pelas “não-coisas” — isto é, pela informação, pelos dados, pelos conteúdos — não elimina o mundo, mas altera o seu regime de presença.
A informação não permanece: circula. Não se fixa: actualiza-se. Não resiste: substitui-se. Vive de um tempo sem espessura, um tempo que não se sedimenta, que não se transforma em memória, que não se deixa habitar.
Ao contrário das coisas, que envelhecem connosco, a informação exige constante renovação. E, ao fazê-lo, dissolve a possibilidade de duração.
Esta transformação tem consequências que ultrapassam largamente o plano tecnológico. Han mostra que, quando o mundo se organiza em torno da informação, a experiência humana sofre uma reconfiguração profunda. A atenção fragmenta-se. A memória torna-se armazenamento. O vínculo converte-se em conexão. O silêncio — condição de toda a escuta — cede lugar ao ruído permanente da comunicação.
A vida deixa de ser um processo de inscrição no tempo para se tornar um encadeamento de estímulos.
A passagem da posse para a experiência é, neste contexto, particularmente reveladora. A cultura contemporânea proclama ter ultrapassado o materialismo. Já não queremos possuir coisas, diz-se; queremos viver experiências. Viajar, sentir, experimentar, partilhar.
À primeira vista, esta deslocação parece libertadora. Mas Han introduz uma suspeita decisiva: e se a experiência for apenas uma nova forma de mercadoria? E se aquilo que chamamos experiência não for senão um conteúdo a produzir, a registar e a exibir?
A experiência, neste regime, deixa de ser interioridade para se tornar exterioridade visível. Vive-se para mostrar. Viaja-se para fotografar. Ama-se para partilhar. O mundo não é tanto habitado como capturado em imagens.
A selfie torna-se o símbolo mais evidente desta mutação. Não se trata apenas de auto-representação, mas de auto-produção contínua. O sujeito contemporâneo constrói-se como superfície, antecipando o olhar dos outros, regulando-se por métricas invisíveis, convertendo a própria identidade em fluxo de informação.
O smartphone concentra, de forma quase paradigmática, esta nova condição. Não é apenas um instrumento: é um meio ambiente. Nele convergem trabalho, lazer, comunicação, memória, orientação, vigilância e consumo.
A sua promessa é a da liberdade — acesso ilimitado, comunicação instantânea, mobilidade permanente —, mas essa liberdade revela-se ambígua. O dispositivo que liberta da distância captura a atenção. O instrumento que facilita a vida organiza o comportamento. O meio que promete autonomia introduz novas formas de dependência.
É neste ponto que a análise de Han ganha uma dimensão política mais nítida. A substituição das coisas pelas não-coisas não implica apenas uma mudança de hábitos; implica uma transformação das condições de possibilidade da liberdade.
Quando a vida se organiza em torno de fluxos de informação, torna-se mais permeável à vigilância, à previsão e à manipulação. O mundo deixa de ser um espaço de acção para se tornar um campo de dados. E o sujeito, em vez de agir, reage.
A crítica da inteligência artificial inscreve-se nesta mesma lógica. Han recusa identificar inteligência com processamento de informação. Pensar não é apenas calcular. Pensar implica memória, corpo, tempo, finitude, relação com o mundo.
A inteligência artificial pode prever, correlacionar, optimizar. Mas não habita o mundo. Não conhece a resistência das coisas, nem a duração da experiência, nem a densidade da memória. Reduzir o humano ao que pode ser processado é perder precisamente aquilo que define a sua singularidade.
No entanto, Não-Coisas não é apenas um diagnóstico de perda. Há, ao longo do livro, uma tentativa de reencontrar aquilo que ainda resiste. E essa resistência não se situa num regresso nostálgico ao passado, mas na atenção às formas de permanência que persistem.
As coisas queridas, por exemplo, não são substituíveis por informação. Não são intercambiáveis. Guardam tempo. Exigem cuidado. Estabelecem uma relação que não se esgota no uso.
O silêncio, por sua vez, surge como condição de possibilidade de uma outra experiência do mundo. Num ambiente saturado de estímulos, o silêncio não é ausência, mas densidade. Permite ver, ouvir, demorar. Restitui à percepção uma espessura que a informação tende a dissolver.
A contemplação — tão desvalorizada numa cultura da produtividade — reaparece aqui como forma de resistência. Não produz, não acumula, não acelera. Mas sustenta.
Há, neste ponto, uma afinidade evidente com Hannah Arendt. Tal como Arendt via nas coisas a condição de estabilidade do mundo humano, Han reconhece nelas uma função ontológica essencial. Sem coisas, o mundo torna-se instável. Sem permanência, a vida torna-se frágil. Sem duração, a memória dissolve-se.
A digitalização, ao privilegiar o fluxo sobre a fixação, enfraquece as estruturas que sustentam a existência comum.
Mas a leitura de Han também pode ser tensionada. A oposição entre coisas e não-coisas, embora conceptualmente poderosa, corre o risco de simplificar a complexidade do presente. Há experiências digitais que criam vínculo. Há objectos que se tornam descartáveis. Há formas híbridas que escapam à dicotomia.
O próprio mundo contemporâneo é feito de sobreposições, não de substituições absolutas. Ainda assim, a força do argumento não reside na descrição exaustiva da realidade, mas na capacidade de iluminar uma tendência dominante.
Essa tendência pode ser formulada de forma simples: vivemos cada vez mais num mundo sem resistência. A informação não resiste. Desaparece, substitui-se, actualiza-se. As coisas, pelo contrário, obrigam-nos a uma relação. Não cedem imediatamente. Não respondem ao toque como um ecrã. Exigem tempo.
E é precisamente esse tempo que a cultura contemporânea tende a eliminar.
É aqui que o ensaio de Han encontra o seu ponto mais inquietante. Não se trata apenas de uma crítica à tecnologia, mas de uma interrogação sobre a nossa própria disponibilidade para permanecer.
Permanecer numa relação, numa leitura, numa escuta, num lugar. Permanecer implica aceitar a duração, o desgaste, a repetição, o cuidado. Num mundo orientado pela novidade e pela substituição, permanecer torna-se quase um gesto de resistência.
Não-Coisas não oferece soluções. Nem pretende fazê-lo. O seu gesto é outro: tornar visível aquilo que se perde quando tudo se torna informação. Ao fazê-lo, devolve à filosofia uma função essencial — a de interromper a evidência do presente.
O que parece natural, inevitável, progressivo, revela-se contingente, problemático, discutível.
É nesse intervalo — entre o fluxo e a resistência, entre a informação e a coisa, entre a aceleração e a duração — que se decide a possibilidade de continuarmos a habitar um mundo, e não apenas a atravessar informação.
Porque, no fundo, a questão que Han nos coloca não é apenas o que estamos a perder. É saber se ainda reconhecemos essa perda como perda. E se, reconhecendo-a, somos capazes de lhe resistir.
© Manuela Ralha, 2026

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