Diálogos sobre a Vulnerabilidade - IV ANDAMENTO -RISCO / CATÁSTROFE -20 — Expulsões e zonas de sacrifício
Legenda da Imagem : Composição simbólica centrada num planeta incandescente e fissurado, rodeado por cenas de expulsão, devastação territorial e abandono: deslocações forçadas, paisagens industriais degradadas, territórios contaminados, campos de ruína e figuras humanas reduzidas à condição de excedente. A estrutura circular sugere que a violência da globalização não é marginal nem acidental, mas sistémica. Em tons de sépia, ferrugem e âmbar sombrio, a imagem traduz visualmente a lógica das expulsões e das zonas de sacrifício como formas extremas de vulnerabilidade contemporânea.
Ambiente Sonoro:
IV andamento da Sinfonia nº 3 em Ré menor de Gustav Mahler - Sehr langsam — Misterioso — "O Mensch! Gib Acht!" [Muito Lento — Misterioso — "Oh, Humano! Presta Atenção!"]. É um andamento vocal que apresenta uma contralto solista cantando a "Canção da Meia-Noite" ("O Mensch! Gib Acht!") do livro Assim Falou Zaratustra de Friedrich Nietzsche.
20 — Expulsões e zonas de sacrifício
Diálogo com Saskia Sassen
Globalização, despossessão e vulnerabilidade extrema
A globalização prometeu integração, mobilidade e prosperidade. No entanto, aquilo que caracteriza o seu funcionamento real não é apenas a circulação acelerada de capitais, mercadorias e informação, mas um processo sistemático de expulsão. A vulnerabilidade extrema do mundo contemporâneo nasce menos da exclusão acidental do que da produção ativa de populações descartáveis. É esta inversão brutal que Saskia Sassen torna visível.
Em Expulsões: brutalidade e complexidade na economia global, Sassen desloca o olhar da desigualdade clássica para um patamar mais radical. Já não se trata apenas de pobreza, marginalização ou precariedade dentro do sistema, mas de saídas forçadas do próprio sistema social. Pessoas, territórios e ecossistemas deixam de ser integráveis. Tornam-se excedentários.
A lógica das expulsões opera em múltiplas escalas. Manifesta-se na financeirização extrema da economia, que transforma habitação em ativo especulativo e empurra populações inteiras para fora das cidades. Surge na apropriação de terras, na destruição de economias locais, na expulsão de comunidades rurais e indígenas. Aparece na degradação ambiental irreversível que torna regiões inteiras inabitáveis. A vulnerabilidade, aqui, não é transitória: é irreparável.
O que torna este processo particularmente perturbador é a sua normalização técnica. As expulsões não são apresentadas como violência, mas como consequência inevitável de mecanismos económicos abstratos: reestruturações, ajustamentos, eficiência, competitividade global. A brutalidade é escondida sob a linguagem da complexidade. O sofrimento humano desaparece atrás de indicadores, contratos e decisões aparentemente neutras.
As zonas de sacrifício são o resultado territorial desta lógica. Certos espaços são sistematicamente degradados para que outros prosperem. Regiões contaminadas, bairros abandonados, territórios esvaziados de serviços públicos e populações deslocadas tornam-se o preço silencioso da acumulação global. O risco, aqui, já não é apenas exposição ao perigo; é condenação estrutural.
Neste ponto, o IV Andamento atinge uma das suas expressões mais duras. Depois de Beck e Giddens, sabemos que o risco é fabricado e governado. Com Acselrad e Blaikie, compreendemos que ele escolhe territórios e produz desastres sociais. Com Stengers, entrámos num tempo em que a catástrofe é condição histórica. Com Sassen, confrontamo-nos com o passo seguinte: há vidas e lugares para os quais já não há sequer gestão do risco — apenas abandono.
A expulsão não produz apenas vulnerabilidade material. Produz desfiliação política. Quem é expulso perde mais do que casa, terra ou trabalho; perde reconhecimento, proteção e lugar no mundo comum. A cidadania dissolve-se. O direito torna-se irrelevante quando o próprio espaço social desaparece. A vulnerabilidade extrema é aquela que já não encontra mediação institucional.
Este processo revela uma transformação profunda do capitalismo contemporâneo. A desigualdade deixa de ser apenas hierárquica e passa a ser exclusória. Já não se trata de estar em baixo, mas de estar fora. Fora da economia formal, fora das redes de proteção, fora do horizonte de futuro. A vulnerabilidade deixa de ser gerível e torna-se condição terminal.
No percurso do IV Andamento — Risco / Catástrofe, este ensaio mostra que a catástrofe não se manifesta apenas sob a forma de colapso repentino. Pode assumir a forma de erosão lenta, deslocação forçada, expulsão silenciosa. Não há explosão; há desaparecimento. Não há ruína visível; há esvaziamento.
Pensar as expulsões é, por isso, um teste ético decisivo. Obriga a perguntar que vidas são consideradas sacrificáveis, que territórios podem ser destruídos e que sofrimentos são tratados como custos aceitáveis. A vulnerabilidade extrema não é falha do sistema; é uma das suas condições de funcionamento.
Este ensaio aproxima o ciclo do seu limite mais inquietante. Quando a vulnerabilidade já não pode ser mitigada, quando a exclusão se transforma em expulsão, a responsabilidade deixa de ser abstrata. Torna-se pergunta direta: que mundo estamos a aceitar manter de pé, e à custa de quem?
Bibliografia comentada
SASSEN, Saskia. Expulsões: brutalidade e complexidade na economia global. Lisboa: Relógio d’Água, 2016.
Obra central para compreender os processos contemporâneos de despossessão, financeirização e expulsão de populações e territórios. Sassen revela como a globalização produz vulnerabilidade extrema através de mecanismos aparentemente técnicos e neutros.
Glossário pedagógico
Expulsão: processo pelo qual pessoas, comunidades, territórios ou ecossistemas são forçados para fora das estruturas económicas, sociais e políticas, deixando de ser considerados integráveis no sistema.
Populações descartáveis: grupos humanos tratados como excedentários ou sacrificáveis pelo funcionamento da economia global, sem reconhecimento pleno do seu direito à proteção, à permanência e à dignidade.
Despossessão: perda forçada de terra, habitação, meios de subsistência, direitos ou pertença social, geralmente em benefício de processos de acumulação económica e financeirização.
Financeirização: domínio crescente da lógica financeira sobre a economia e a vida social, transformando bens essenciais, como a habitação, em ativos especulativos orientados pelo lucro.
Zonas de sacrifício: territórios sistematicamente degradados, contaminados ou abandonados para sustentar a prosperidade de outros espaços, tornando-se áreas de vulnerabilidade extrema e de injustiça territorial.
Abandono estrutural: situação em que vidas e lugares deixam de ser objeto de proteção, investimento ou cuidado institucional, ficando expostos à exclusão e ao agravamento irreversível da vulnerabilidade.
Desfiliação política: perda de reconhecimento, pertença e mediação institucional, em que os sujeitos deixam de ter acesso efetivo à cidadania, à proteção e ao espaço comum.
Exclusão estrutural: forma de desigualdade em que indivíduos e comunidades não ocupam apenas posições inferiores na hierarquia social, mas são colocados fora das redes que garantem participação, direitos e futuro.
Vulnerabilidade extrema: condição em que a exposição ao dano deixa de ser transitória ou mitigável, tornando-se irreparável, terminal e sem mediação institucional suficiente.
Sofrimento invisibilizado: sofrimento humano ocultado por linguagens técnicas, indicadores abstratos e decisões aparentemente neutras, que escondem a brutalidade real dos processos económicos contemporâneos.
© Manuela Ralha, 2026

Impressiona-me esta forma de mostrar que a desigualdade já nem é “ficar para trás”, é ser empurrado para fora.
ResponderEliminarFaz-nos pensar e sentir até que ponto aceitamos tudo isto como normal.
Cada um lê à sua maneira, mas para mim isto é um alerta sério sobre o mundo que estamos a deixar acontecer.