Diálogos sobre a Vulnerabilidade - IV ANDAMENTO -RISCO / CATÁSTROFE -18 — O desastre não é natural

 


Legenda da Imagem: Ao centro, um mundo em combustão, cercado por territórios onde a fragilidade social se tornou paisagem: encostas instáveis, habitação precária, solos secos, zonas inundáveis, periferias expostas e populações obrigadas a viver junto ao limite. Cada segmento mostra não apenas um perigo físico, mas as condições sociais que o tornam devastador.A imagem acompanha o Ensaio 18 — O desastre não é natural, mostrando que a catástrofe não nasce apenas do fenómeno extremo, mas da desigualdade acumulada, da ausência de proteção e da vulnerabilidade estrutural inscrita nos lugares e nas vidas.

Ambiente sonoro: Sinfonia n.º 3 de Gustav Mahler, IV Andamento


18 — O desastre não é natural
Diálogo com Piers Blaikie

Perigo físico, fragilidade social


Os desastres são frequentemente apresentados como acontecimentos naturais, imprevisíveis e inevitáveis. Terramotos, cheias, secas, deslizamentos de terras ou furacões surgem no discurso público como forças externas, alheias à ação humana, perante as quais pouco haveria a fazer para além da resposta de emergência. Esta narrativa cumpre uma função tranquilizadora: transforma o desastre em acidente e a vulnerabilidade em azar. O contributo de Piers Blaikie e dos autores que com ele trabalham desmonta radicalmente esta leitura.

Em At Risk: Natural Hazards, People’s Vulnerability and Disasters, o desastre deixa de ser pensado como consequência direta de um perigo físico e passa a ser entendido como o resultado da interseção entre ameaça natural e fragilidade social. O perigo pode ser natural; o desastre, não. Ele é produzido por condições sociais, económicas e políticas que tornam certos grupos mais expostos, menos protegidos e com menor capacidade de resposta.

Esta distinção é decisiva. Um fenómeno físico só se transforma em desastre quando atinge populações vulnerabilizadas. A mesma cheia não produz os mesmos efeitos em territórios com infraestruturas robustas, planeamento adequado e sistemas de proteção eficazes e em territórios marcados por pobreza, habitação precária, ausência de serviços públicos e exclusão histórica. O que está em causa não é a intensidade do fenómeno, mas a capacidade social de o absorver sem colapso.

Blaikie propõe uma leitura estrutural da vulnerabilidade, sintetizada no modelo de Pressão e Libertação. O desastre emerge quando pressões profundas — pobreza, desigualdade, marginalização política, acesso desigual à terra e aos recursos — se combinam com condições inseguras, como habitação frágil, localização em zonas de risco e ausência de proteção institucional. A catástrofe é, assim, o momento visível de um processo longo de produção de fragilidade.

Este enquadramento desloca o foco do evento para a trajetória. A vulnerabilidade não nasce no momento do impacto; acumula-se ao longo do tempo. É herdada, reproduzida e territorializada. Certos grupos vivem permanentemente mais próximos do limite, porque as estruturas sociais os colocam em posições de maior exposição. Quando o perigo se manifesta, o desastre apenas revela aquilo que já estava inscrito.

No contexto do IV Andamento, este ensaio cumpre uma função crucial: retira à catástrofe o seu caráter de exceção. O desastre não interrompe a normalidade; é o seu produto extremo. A modernidade que fabrica riscos e os distribui de forma desigual cria também as condições para que certos territórios e populações colapsem com maior frequência. O acidente torna-se recorrente porque a fragilidade é estrutural.

A leitura de Blaikie tem implicações políticas profundas. Se o desastre não é natural, então a sua prevenção não se limita a sistemas de alerta ou resposta técnica. Exige políticas de habitação, redistribuição de recursos, planeamento urbano inclusivo, proteção social e participação democrática. A redução do risco passa necessariamente pela redução da desigualdade. Sem transformação estrutural, a gestão do desastre torna-se mera administração da vulnerabilidade.

Este ponto é particularmente relevante quando se observa a forma como os desastres são narrados. A ênfase no fenómeno natural obscurece as responsabilidades sociais e políticas. As vítimas surgem como números; as causas estruturais permanecem invisíveis. A vulnerabilidade é tratada como fatalidade, e não como injustiça. O discurso do “inevitável” funciona, assim, como mecanismo de desresponsabilização.

Ao insistir que o desastre é socialmente construído, Blaikie obriga a repensar a relação entre risco, território e poder. Quem decide onde se constrói? Quem vive nas zonas mais expostas? Quem dispõe de seguros, de alternativas de deslocação, de acesso à informação? Quem permanece, geração após geração, nos mesmos espaços de risco? Estas perguntas revelam que a catástrofe segue padrões previsíveis de exclusão.

No percurso do IV Andamento — Risco / Catástrofe, este ensaio aprofunda a ideia de que a vulnerabilidade não é apenas amplificada pela modernidade, mas organizada por ela. O desastre não é falha do sistema; é uma das formas como o sistema revela os seus limites e prioridades. Onde a proteção falha repetidamente, a desigualdade torna-se visível sob a forma de ruína.

Pensar o desastre como construção social é, por isso, um gesto profundamente político. Significa recusar a naturalização do sofrimento e afirmar que a vulnerabilidade pode — e deve — ser transformada. Não eliminando os perigos físicos, mas reduzindo as fragilidades sociais que os tornam devastadores. A justiça social começa antes da catástrofe, no modo como se distribuem recursos, riscos e possibilidades de vida digna.

Bibliografia comentada

BLAIKIE, Piers et al. At Risk: Natural Hazards, People’s Vulnerability and Disasters. Londres: Routledge, 1994.

Obra fundadora dos estudos críticos sobre desastres. Introduz uma abordagem estrutural da vulnerabilidade, demonstrando que os desastres resultam da interação entre perigos naturais e fragilidades sociais produzidas historicamente.

Glossário

Desastre socialmente construído: entendimento segundo o qual o desastre não resulta apenas de um fenómeno físico, mas da interação entre esse fenómeno e condições sociais de vulnerabilidade acumulada.

Perigo físico: ameaça natural ou material, como uma cheia, um sismo ou um furacão, que pode causar danos, mas que só se transforma em desastre quando atinge populações vulneráveis.

Fragilidade social: conjunto de condições sociais, económicas e políticas que reduzem a capacidade de proteção, resposta e recuperação de indivíduos e comunidades perante um perigo.

Modelo de Pressão e Libertação: modelo analítico que explica o desastre como resultado do encontro entre ameaças naturais e pressões estruturais, como pobreza, desigualdade, marginalização e condições inseguras.

Condições inseguras: situações concretas que aumentam a exposição ao dano, como habitação precária, localização em zonas de risco, falta de infraestruturas e ausência de proteção institucional.

Vulnerabilidade acumulada: ideia de que a vulnerabilidade não surge de forma súbita no momento do impacto, mas se constrói historicamente através de processos continuados de exclusão e desigualdade.

Naturalização do desastre: processo discursivo que apresenta o desastre como inevitável ou puramente natural, ocultando as suas causas sociais e políticas.

Administração da vulnerabilidade: gestão técnica ou institucional do risco e do desastre sem transformação das estruturas sociais que produzem fragilidade.

Prevenção estrutural: conjunto de políticas e medidas que procuram reduzir o risco através da transformação das condições sociais, económicas e territoriais que tornam o desastre devastador.

© Manuela Ralha, 2026

Comentários

  1. Este texto mexe... Porque tira o desastre do acaso e coloca-o onde deve estar, nas responsabilidades que muitas vezes se escondem. Cada um de nós lê e tira a sua opinião mas é impossível ficar indiferente. Os teus textos são tão importantes.

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    1. Obrigada por me leres. Vem dando ânimo para continuar. Sinto que chego a pouca gente. As pessoas hoje já não têm tempo para ler nem para refletir.

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