Nascemos aos Poucos: Uma Vida em Construção

 



Ambiente sonoro sugerido: Boléro de Maurice Ravel
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Se este texto tivesse um fundo musical, talvez fosse o Boléro de Ravel. Uma peça que, como a vida, se constrói aos poucos: repete-se, ganha corpo, acumula camadas, cresce em intensidade… até se transformar. Tal como nós — que nascemos lentamente, ganhando forma no tempo, desconstruindo-nos também no processo. Uma melodia em espiral, nunca igual, nunca totalmente nova. Uma peça em construção.
 
“Ninguém nasce de uma vez. Nascemos aos poucos, pelo tempo fora. Vamo-nos juntando à medida que nascemos. Vamo-nos desconjuntando à medida que vivemos.”
— Álvaro Laborinho Lúcio, A Vida na Selva

Há frases que nos apanham desprevenidos. Não tanto pela complexidade das palavras, mas pela profundidade do pensamento que escondem. Esta, de Álvaro Laborinho Lúcio, é uma dessas frases que pedem para ser lidas devagar, relidas, digeridas — porque dizem muito mais do que parece à primeira vista.

A ideia de que “ninguém nasce de uma vez” contraria a visão tradicional que temos do nascimento. Desde cedo somos levados a acreditar que nascemos num instante — num determinado dia, a uma determinada hora. Mas o autor propõe algo diferente, mais subtil e mais verdadeiro: o nascimento, o verdadeiro, o que nos torna quem somos, não acontece todo de uma vez. Nascemos aos poucos, no tempo, com o tempo.

Nascer, neste contexto, não é só o início da vida biológica. É o processo contínuo de nos tornarmos. Tornarmo-nos pessoas, conscientes, pensantes, capazes de amar, de escolher, de mudar. E isso não acontece num momento só. Acontece quando aprendemos a perder e a ganhar. Quando descobrimos quem somos e, também, quem não somos. Quando sofremos, quando crescemos, quando mudamos de ideias. A cada experiência significativa, uma parte nova de nós nasce — e outra, talvez, se transforma.

“Vamo-nos juntando à medida que nascemos. Vamo-nos desconjuntando à medida que vivemos.”

Aqui, Laborinho Lúcio apresenta um paradoxo que é difícil de ignorar: o mesmo tempo que nos constrói também nos desconstrói. À medida que nos juntamos — que nos tornamos mais conscientes de quem somos — vamos também perdendo certas peças. Partes de nós ficam pelo caminho: ideias que já não fazem sentido, relações que se desfazem, sonhos que deixámos cair, ilusões que perdemos.

É como se viver fosse andar constantemente entre o juntar e o perder. Vamos tentando fazer sentido de quem somos, mas o próprio processo de viver obriga-nos, muitas vezes, a desfazer esse sentido. Somos um puzzle em permanente mudança — ora a completar-se, ora a desmontar-se.

Esta frase levanta, inevitavelmente, questões importantes sobre a autenticidade e a responsabilidade individual.
Se estamos constantemente a nascer e a desconjuntar-nos, quem somos realmente? O "eu" é algo fixo, uma essência que permanece, ou somos uma construção em constante transformação? E até que ponto temos controlo sobre esse processo?

Há aqui, também, uma dimensão ética que não pode ser ignorada.
Se cada um de nós está continuamente a construir-se e a fragmentar-se, então é exigido de nós um olhar mais compassivo, mais compreensivo para com o outro. Ninguém é apenas o que parece ser num dado momento. Todos estamos, sempre, a meio de um caminho. Todos somos inacabados, em trânsito, em tentativa.

A frase de Álvaro Laborinho Lúcio é, mais do que uma reflexão, um convite à consciência.
Convida-nos a olhar para a vida não como uma linha reta com princípio e fim bem definidos, mas como um movimento contínuo de fazer e desfazer, de juntar e perder, de nascer e viver. É uma visão profundamente humana, vulnerável, e simultaneamente libertadora — porque nos retira a pressão de sermos “prontos”, e devolve-nos o direito de estarmos sempre a caminho.

Sim, viver é isso: nascer muitas vezes.
E aceitar que, em certos dias, nos sentimos desconjuntados — sem que isso signifique que estamos perdidos.
Porque talvez o mais importante não seja manter tudo intacto, mas aprender a renascer, mesmo a partir dos pedaços.

© Manuela Ralha, 2025

Recomendação de leitura:
Laborinho Lúcio, A. (2024). A vida na selva (Edição de fevereiro de 2024). Quetzal Editores.

Comentários

  1. Intenso e tão verdadeiro que toca uma lágrima de emoção porque nos toca na essência da alma . Música perfeita para o contexto 🫶 somos mutantes complexos . Mas assim como o ditado ; muda Deus te ajuda ! Adaptar e renascer no novo no melhor ! Bem haja Manuela pela partilha . Virgínia Pelarigo

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  2. O filme les uns et les autres, sem o bolero de ravel , não ganhava a dimensão sublime q tem. Obrigado pela lembrança de uma das mais épicas músicas da minha vida.

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  3. Patrícia Duarte Lavareda4 de novembro de 2025 às 14:20

    Nascemos tantas vezes ao longo da vida...

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  4. Todos ao dias ao acordarmos, é recomeçar, um dia de cada vez. Beijinhos Maria João Carvalho - JoJo

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