Quando os ecrãs deixam de ser janelas e passam a ser mundo - Ensaio a partir de Sociedade sem Ecrãs, de Joaquim Fialho
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A sociedade digital habituou-nos a pensar os ecrãs como instrumentos. Usamo-los para trabalhar, comunicar, aprender, comprar, escrever, criar, participar, distrair-nos. Estão em todo o lado, quase sempre à mão, quase sempre acesos, quase sempre disponíveis.
Mas a pergunta mais séria já não é apenas o que fazemos com os ecrãs. A pergunta mais profunda é perceber o que os ecrãs fazem connosco.
É a partir desta inquietação que leio Sociedade sem Ecrãs — Como a mediação digital está a transformar a experiência humana, de Joaquim Fialho. O livro não me parece uma condenação da tecnologia, nem um lamento nostálgico por um tempo anterior ao digital. A sua força está precisamente noutro lugar: obriga-nos a pensar o modo como a mediação digital entrou na nossa vida, nos nossos gestos, nos nossos vínculos, no nosso corpo, na nossa atenção e na própria forma como nos experimentamos a nós mesmos.
Joaquim Fialho não escreve contra a tecnologia. Escreve contra a sua naturalização acrítica. Essa distinção parece-me essencial. Não se trata de perguntar se devemos regressar a uma sociedade sem dispositivos, como se tal fosse possível ou sequer desejável. Trata-se antes de perguntar se a tecnologia continua ao serviço do humano ou se, silenciosamente, começámos nós a adaptar o humano à lógica da tecnologia.
Esta inquietação não surge isolada no percurso do autor. Em Redes Sociais. Como compreendê-las? — Uma Introdução à Análise de Redes Sociais, obra coordenada por Joaquim Fialho, encontramos uma abordagem introdutória à análise das redes sociais, pensadas como estruturas de relações, atores, ligações e formas de organização social. A própria apresentação editorial sublinha esse caráter introdutório e pedagógico, orientado para compreender o universo das redes sociais.
Esse primeiro gesto é importante: antes de criticar as redes, é necessário compreendê-las. As redes não são apenas plataformas digitais. São formas de relação, mapas de proximidades, distâncias, centralidades, dependências, influências e circulação. Há aqui um olhar sociológico fundamental: perceber como os laços se organizam antes de analisar aquilo em que se transformam.
Mas, em Redes Sociais – Ilusão, Obsessão e Manipulação, o olhar desloca-se para uma zona mais inquietante. A obra centra-se nas transformações das relações de sociabilidade provocadas pela penetração das redes sociais, analisando a ilusão da felicidade, a obsessão por estar ligado e a manipulação pelos grandes agentes tecnológicos.
Aqui começa a surgir com nitidez uma das linhas fortes do pensamento de Fialho: a tecnologia não é neutra. As plataformas digitais não são apenas lugares onde comunicamos. São ambientes que condicionam formas de ver, desejar, expor, comparar, validar e reconhecer. Nas redes sociais, a vida humana passa a depender de uma economia simbólica da visibilidade: mostrar, ser visto, ser validado, ser lembrado, receber reação.
O sujeito digital já não vive apenas a sua experiência. Aprende a apresentá-la. A intimidade transforma-se em conteúdo. O corpo torna-se imagem. A felicidade torna-se performance. A relação com o outro passa a ser mediada por métricas, comentários, gostos, partilhas e formas rápidas de reconhecimento.
Depois, em Scroll. Logo existo!, essa reflexão torna-se ainda mais concreta, quase corporal. O texto, assinado por Joaquim Fialho, Inês Casquilho-Martins, Lourdes Caraça e Andreia Oliveira, apresenta um projeto de investigação-ação sobre comportamentos aditivos no uso da internet e das redes sociais, centrado nas práticas de uso dos ecrãs, na identificação de comportamentos aditivos, na caracterização de perfis de utilização e na prevenção.
Há nesse texto duas imagens muito fortes. A primeira é a ideia de que fazer scroll se tornou um “ato litúrgico” do mundo virtual. A expressão retira o gesto da banalidade. O scroll deixa de ser apenas um movimento do dedo no ecrã; torna-se repetição, ritual, hábito, presença quase automática. A segunda é a ideia de que “um click e um scroll” se transformaram em “aspirinas de prazer”. O ecrã alivia, distrai, recompensa, anestesia, ocupa. Não precisa de nos obrigar. Basta estar disponível. Basta prometer novidade. Basta chamar por nós.
Visto assim, o percurso de Joaquim Fialho parece abrir-se em círculos cada vez mais amplos. Primeiro, a rede enquanto estrutura. Depois, a plataforma enquanto lugar de ilusão, obsessão e manipulação. Depois, o gesto — o scroll — enquanto rotina, prazer e possível dependência. Finalmente, em Sociedade sem Ecrãs, o humano inteiro: o corpo, a atenção, a presença, a liberdade, a política, o tédio, a imaginação e a vida comum.
A inquietação maior de Sociedade sem Ecrãs está precisamente aqui: o livro não pergunta apenas se usamos demasiado o telemóvel, se dependemos das redes ou se fazemos scroll em excesso. Pergunta que tipo de humanidade se forma quando os ecrãs deixam de ser objetos e passam a ser ambiente.
Os ecrãs já não estão apenas diante de nós. Estão no modo como acordamos, trabalhamos, esperamos, compramos, aprendemos, amamos, discutimos, protestamos, nos mostramos e nos comparamos. Estão na escola, na saúde, no trabalho, na cultura, na política, nos afetos, nas relações familiares, na administração pública, no lazer e na forma como cada um se narra a si próprio.
O ecrã deixou de ser apenas uma janela. Tornou-se, muitas vezes, o próprio lugar onde a experiência acontece.
E, no entanto, estar conectado não é o mesmo que estar presente. Esta distinção atravessa todo o livro e deveria atravessar também o nosso tempo. Nunca tivemos tantos meios para comunicar e, ainda assim, tantas vezes nos falta encontro. Nunca estivemos tão disponíveis e, ao mesmo tempo, tão distraídos. Respondemos depressa, reagimos depressa, partilhamos depressa, mas nem sempre escutamos. A presença vai sendo substituída por disponibilidade; o vínculo, por contacto; a atenção, por reação.
Bauman ajuda a pensar esta fragilidade dos vínculos numa sociedade líquida, onde tudo parece mais rápido, reversível e menos comprometido com a demora. Byung-Chul Han ajuda a perceber como a velocidade, a transparência e a hiperatividade nos afastam da pausa, da escuta e da vida contemplativa. Sherry Turkle permite compreender a solidão que pode esconder-se por detrás da ligação permanente. Mas Fialho dá a esta discussão uma forma muito concreta: mostra que a mediação digital deixou de ser exceção e passou a ser condição habitual da experiência.
O corpo também não fica fora desta transformação. Pelo contrário, é talvez um dos lugares onde ela se torna mais visível. Os ecrãs alteram posturas, gestos, olhares, ritmos e formas de exposição. Habituam-nos a tocar, deslizar, verificar, responder, aparecer. Tornam-nos simultaneamente mais visíveis e mais ausentes. Podemos estar fisicamente num lugar e mentalmente dispersos por muitos outros. Podemos mostrar muito de nós e, ainda assim, preservar pouco da nossa presença.
David Le Breton ajuda-nos a compreender que o corpo não é apenas organismo; é experiência, linguagem, inscrição social, presença no mundo. Marcel Mauss lembra-nos que existem técnicas do corpo, modos socialmente aprendidos de usar o corpo. E os ecrãs criaram novas técnicas: o polegar que desliza, o pescoço inclinado, o olhar que desce, a mão que verifica, o rosto que se prepara para a imagem, o corpo que se transforma em perfil.
Com Foucault, esta reflexão ganha uma dimensão política. A tecnologia não é neutra quando começa a organizar gestos, ritmos, posturas, exposições e formas de disponibilidade. Os ecrãs podem funcionar como dispositivos de normalização: ensinam-nos como aparecer, como responder, como estar disponíveis, como medir-nos, como comparar-nos e como vigiar-nos a nós próprios.
Também a liberdade merece ser interrogada. A sociedade digital apresenta-se como espaço de escolha: podemos escolher o que ver, o que comprar, o que seguir, o que comentar, o que partilhar. Mas que liberdade é essa quando aquilo que vemos já foi selecionado, recomendado, hierarquizado e ajustado ao nosso perfil? Que liberdade resta quando os nossos gostos são observados, previstos e devolvidos sob a forma de novas sugestões?
O perigo maior já não é apenas sermos vigiados. É tornarmo-nos previsíveis.
Orwell continua a ser uma sombra inevitável, mas talvez o nosso tempo seja mais subtil do que o Big Brother clássico. A vigilância contemporânea muitas vezes não aparece como violência. Aparece como conforto, conveniência, eficiência, personalização. Entregamos dados porque é prático. Aceitamos sugestões porque facilitam. Somos orientados porque parece cómodo. O controlo contemporâneo é tanto mais eficaz quanto menos se apresenta como controlo.
Shoshana Zuboff ajuda-nos a compreender esta transformação quando fala da captura dos comportamentos e preferências como matéria-prima económica. Habermas ajuda-nos a pensar os riscos para o espaço público quando a deliberação é substituída por ruído, polarização e reação. Hannah Arendt recorda-nos que a política exige presença, palavra, ação e mundo comum.
A democracia não pode viver apenas de cliques. O digital pode mobilizar, denunciar, aproximar e amplificar causas. Mas a política precisa de mais do que reação rápida. Precisa de escuta, corpo, presença, confronto, responsabilidade e permanência. Uma cidadania reduzida ao clique corre o risco de confundir visibilidade com transformação.
Há ainda uma dimensão que me parece essencial: o tédio. Durante muito tempo, o tédio foi visto como algo a evitar. Hoje, talvez tenhamos de o recuperar como espaço de resistência. O tédio abre lugar à pausa, à imaginação, ao pensamento e à contemplação. Quando todos os intervalos são ocupados — a espera, a viagem, o silêncio, a solidão —, perdemos a possibilidade de estar connosco próprios sem estímulo permanente.
Sem tédio, dificilmente haverá pensamento verdadeiramente livre. Sem silêncio, dificilmente haverá escuta. Sem demora, dificilmente haverá imaginação.
Esta questão conduz-nos à arte, à criação e ao futuro da imaginação humana. O que acontece à capacidade de criar quando tudo nos é sugerido, antecipado e recomendado? O que acontece à arte quando passa a depender cada vez mais da visibilidade, da métrica, da tendência e da aceitação imediata?
Os ecrãs democratizam o acesso à cultura, e isso é importante. Mas também podem favorecer uma mercantilização dos gostos e uma padronização da experiência estética. O risco não é apenas vermos mais do mesmo. O risco é deixarmos de desejar o diferente.
A arte, a criação e o pensamento precisam de desvio, demora, erro, estranheza e liberdade interior. Precisam de tempo para amadurecer e de espaço para não obedecerem imediatamente ao que é útil, rentável, partilhável ou reconhecível. Quando a imaginação passa a ser conduzida por sistemas de recomendação e por lógicas de desempenho, a cultura pode tornar-se mais rápida, mas não necessariamente mais livre. Pode tornar-se mais acessível, mas também mais domesticada.
Walter Benjamin ajuda-nos a pensar a experiência estética num tempo de reprodução e circulação. Adorno e Horkheimer lembram-nos os riscos da padronização cultural. Bourdieu recorda-nos que o gosto nunca é neutro, pois é atravessado por capitais culturais e sociais. Rancière permite perguntar quem decide o que pode ser visto, ouvido, sentido e pensado. E Camus ajuda-nos talvez a resistir: humanizar a tecnologia é também uma forma de revolta lúcida contra tudo o que reduz o humano.
Por isso, Sociedade sem Ecrãs não deve ser lido como um aviso moralista contra a tecnologia. Deve ser lido como uma pergunta sobre o futuro da presença humana.
A tecnologia deve ampliar a vida, não substituí-la. Deve servir a presença, não fragmentá-la. Deve favorecer a liberdade, não condicioná-la. Deve abrir mundo ao corpo, não reduzi-lo a imagem ou dado. Deve estimular a imaginação, não domesticá-la. Deve fortalecer a democracia, não reduzi-la a reações digitais.
O percurso de Joaquim Fialho ajuda-nos a perceber a profundidade deste problema. Em Redes Sociais. Como compreendê-las?, aprendemos que as redes são estruturas de relação. Em Redes Sociais – Ilusão, Obsessão e Manipulação, percebemos que as plataformas transformam a sociabilidade em visibilidade, exposição e manipulação. Em Scroll. Logo existo!, vemos o gesto quotidiano tornar-se rotina, prazer e dependência. Em Sociedade sem Ecrãs, compreendemos que tudo isto desemboca numa pergunta maior: como continuar humanos num mundo em que a mediação digital entrou no corpo, na atenção, no desejo, na política, na arte e na própria forma de nos pensarmos?
Gostei muito de ler Sociedade sem Ecrãs precisamente porque não é um livro confortável. Obriga-nos a parar e a olhar de outra forma para gestos que já se tornaram banais: pegar no telemóvel, responder a uma notificação, fazer scroll, estar ligado, estar disponível, ver e ser visto.
O livro não fala apenas de ecrãs. Fala de nós.
E é essa a pergunta maior que fica depois da leitura: como continuar humanos num tempo que nos quer rápidos, visíveis, disponíveis, reativos, previsíveis e cada vez menos capazes de imaginar para além daquilo que nos é mostrado?
© Manuela Ralha, 2026
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Infelizmente muitos não se aperceberam ainda que vivemos numa era de inversão muito perigosa.
ResponderEliminarDeixámos de ser apenas os utilizadores da ferramenta para nos tornarmos a matéria-prima sobre a qual ela atua.
E o perigo só será ultrapassado quando deixarmos de perguntar "o que faço com isto?" e passamos a questionar "o que é que isto está a fazer de mim?
Tudo se resume ao bendito algoritmo: O ecrã decide o que devemos ver com base no que já gostamos. Isto cria câmaras de eco que limitam a nossa capacidade de lidar com a diferença e o contraditório. O ecrã não nos mostra o mundo; mostra-nos um espelho do que ele acha que nós somos.
O ecrã oferece-nos o mundo inteiro na palma da mão, mas o custo oculto pode ser a perda da nossa capacidade de estar inteiros em qualquer lugar. O desafio não é destruir os ecrãs, mas recuperar a soberania sobre a nossa própria atenção e perceber onde termina o brilho do LED e onde começa a luz da nossa própria consciência. 😁👍