Cartografias da Responsabilidade - PARTE II — O poder que não parece poder - Interlúdio II
Legenda da imagem: Imagem de abertura da PARTE II — O poder que não parece poder, do ciclo Cartografias da Responsabilidade. Sobre uma superfície cartográfica antiga, distribuem-se dossiers e documentos assinalados com os títulos dos ensaios desta secção — O poder pequeno, O gesto que falta, A linguagem que administra vidas e Instituições sem maldade, efeitos desumanos — acompanhados por formulários, grelhas, carimbos, esquemas administrativos e marcas de arquivo. A bússola, colocada no canto inferior direito, introduz a pergunta ética num universo dominado pela omissão, pela linguagem técnica, pela normalização e pelo funcionamento discreto do poder.
Ambiente sonoro
A proposta de ambiente sonoro para esta PARTE II — O poder que não parece poder é o II Andamento da Sinfonia n.º 6, de Gustav Mahler. A sua escuta acompanha esta secção não como ilustração nem como fundo musical, mas como estrutura de latência, contenção e inquietação interior.
Neste andamento, a música parece abrandar depois da marcha inicial. Abre-se um espaço sonoro menos afirmativo, menos frontal, mas não menos tenso. O movimento já não se impõe como impulso evidente; recolhe-se, torna-se mais discreto, mais difícil de localizar. A inquietação não desaparece — transforma-se em permanência. A ameaça deixa de surgir como choque e instala-se na continuidade.
É precisamente essa qualidade que torna este andamento o horizonte sonoro mais adequado para a PARTE II. Porque também aqui o que está em causa já não é o poder na sua forma ostensiva, mas o poder que opera por enquadramento, por omissão, por repetição, por normalização. A música torna audível esse nível baixo e persistente do funcionamento: aquilo que não grita, não se declara, não se apresenta como violência — e, ainda assim, organiza vidas, distribui lugares e produz efeitos profundos.
Audição sugerida
Para quem não utiliza esta plataforma: Gustav Mahler — Sinfonia n.º 6, II Andamento, no YouTube
Decidir, omitir, normalizar
O poder que não parece poder
Depois da perda da inocência e da recusa da neutralidade, a pergunta desloca-se novamente. Já não é apenas o que sabemos ou se colaboramos. É onde o poder se exerce quando ninguém parece exercê-lo.
Esta parte do ciclo de ensaios começa num ponto difícil de reconhecer:
quando o poder deixa de se apresentar como decisão soberana e passa a actuar como processo. Não impõe — organiza. Não ordena — enquadra. Não violenta — normaliza.
Decide-se pouco de cada vez.
O que não se decide, omite-se.
O que se omite, repete-se.
E o que se repete torna-se normal.
É assim que o poder pequeno se acumula.
O poder que aqui interessa não grita, não ameaça, não se declara. Habita regulamentos, formulários, grelhas de avaliação, critérios aparentemente objetivos. Age através de decisões invisíveis, tomadas longe das consequências, protegidas pela linguagem da necessidade e do procedimento.
Neste território, o gesto decisivo é muitas vezes o gesto que falta.
A intervenção adiada.
A exceção não considerada.
A pergunta que não se faz.
A omissão não aparece como violência. Aparece como prudência, como cumprimento, como respeito pelas regras. Mas, quando há capacidade de agir, não agir é já uma forma ativa de poder. Não interromper também produz efeitos. E esses efeitos acumulam-se sobre os mesmos corpos, os mesmos lugares, as mesmas vidas.
É aqui que a linguagem se torna decisiva.
Porque este poder administra mais do que decide. Administra vidas através de palavras: classifica, reduz, enquadra, apaga. Traduz experiências singulares em categorias gerais. Substitui rostos por perfis, histórias por casos, sofrimento por indicadores. A linguagem técnica não é neutra — organiza o campo do visível e do irrelevante.
Nada disto exige maldade.
Instituições podem funcionar sem intenção de ferir e, ainda assim, produzir efeitos desumanos. Pessoas podem cumprir corretamente as suas funções e contribuir para cadeias de decisão que ninguém controla por inteiro. É precisamente essa ausência de intenção que torna o mecanismo tão resistente à crítica.
Quando ninguém é culpado, mas todos sofrem, o poder já não pode ser pensado apenas como abuso. Tem de ser pensado como normalidade organizada.
O II Andamento da Sinfonia n.º 6, de Gustav Mahler, acompanha este momento do ciclo de ensaios porque habita exatamente esse lugar intermédio: não o choque, mas a latência; não a explosão, mas a continuidade tensa.
Depois da marcha do primeiro andamento, a música abranda. Parece oferecer espaço, quase repouso. Mas esse abrando não resolve nada. A tensão não desaparece — recolhe-se. O perigo continua presente, agora mais discreto, mais difícil de localizar.
É assim que o poder desta parte atua.
Não se impõe.
Permanece.
Não se anuncia.
Funciona.
Tal como no andamento de Mahler, nada aqui é totalmente estável. A beleza convive com a inquietação. A regularidade com a ameaça. O que parece equilíbrio é apenas adiamento.
Esta PARTE II convida o leitor a escutar esse nível baixo do poder — aquele que não provoca indignação imediata, mas organiza lentamente o campo do aceitável. Um poder que não precisa de ser reconhecido para ser eficaz.
(Sugere-se a audição do II Andamento da 6.ª Sinfonia de Gustav Mahler durante a leitura desta parte.)
© Manuela Ralha, 2026

Gostei muito deste texto pela forma como transmite uma inquietação silenciosa. Mesmo quando tudo parece mais calmo, sentimos que a tensão continua lá, só que de forma muito mais discreta.
ResponderEliminarA ideia de um poder que não precisa de se impor, apenas permanecer e funcionar, parece-me muito real no dia a dia. Muitas vezes habituamo-nos às coisas sem percebermos como elas passam a definir o que aceitamos como normal. Há coisas que nem nos apercebemos e ao ler ficamos a pensar e isso é tão bom.
Remeto este texto para o contexto atual, frases que ganham uma camada tecnológica assustadora:
ResponderEliminarQuem exerce o poder sobre o que nós compramos ou em quem votamos? Muitas vezes, não é um político a discursar, mas um algoritmo de recomendação.
O código de programação não tem "vontade" humana, mas exerce uma influência massiva sobre o comportamento social. Ninguém parece estar a exercer o poder ativamente no momento em que estamos a percorrer um ecrã, mas a estrutura está a moldar os nossos desejos.
O poder se materializa no espaço de forma tão natural que esquecemos que ele foi desenhado para controlar.
O poder mais eficaz não é aquele que diz "não", mas aquele que diz "seja". Ele não reprime o desejo; ele produz o desejo.