Cartografias da Responsabilidade - Parte II - 6. O Gesto que falta

 


Legenda da imagem: Imagem de abertura do ensaio “O gesto que falta”, do ciclo Cartografias da Responsabilidade. No centro da composição, um dossiê assinala o título do ensaio, rodeado por pedidos sem resposta, registos de ocorrências, análises de exceção, fluxos de atendimento interrompidos, decisões não tomadas e marcas de atraso. As expressões “sem resposta”, “pendente”, “não concedido” e “omissão registada” atravessam visualmente a cena, tornando visível a forma como a ausência de gesto se acumula e produz dano. A bússola, colocada no canto inferior direito, introduz a pergunta ética num espaço dominado pelo adiamento, pela espera e pela violência silenciosa da inação.

Ambiente sonoro

A proposta de ambiente sonoro para este ensaio é o II Andamento da Sinfonia n.º 6, de Gustav Mahler. A sua escuta acompanha este texto não como ilustração nem como fundo musical, mas como estrutura de latência, contenção e inquietação interior.

Neste andamento, a música parece abrandar depois da marcha inicial. Abre-se um espaço sonoro menos afirmativo, menos frontal, mas não menos tenso. O movimento já não se impõe como impulso evidente; recolhe-se, torna-se mais discreto, mais difícil de localizar. A inquietação não desaparece — transforma-se em permanência. A ameaça deixa de surgir como choque e instala-se na continuidade.

É precisamente essa qualidade que torna este andamento o horizonte sonoro mais adequado para O gesto que falta. Porque também aqui o que está em causa não é a violência visível, mas a eficácia silenciosa da omissão, da espera, do adiamento e da ausência de gesto. A música torna audível esse regime de suspensão em que nada parece romper-se de forma súbita, mas em que a continuidade, justamente por continuar, produz desgaste, atraso e dano acumulado.

Audição sugerida

Para quem não utiliza esta plataforma: Gustav Mahler — Sinfonia n.º 6, II Andamento, no YouTube

A omissão como forma ativa de violência

A omissão raramente se apresenta como decisão.
Surge como intervalo aceitável, como prudência justificada, como espera razoável. Parece ausência de ato quando é, na verdade, uma modalidade específica de acção — silenciosa, eficaz e socialmente protegida.

Depois do poder pequeno, que enquadra, classifica e normaliza, a omissão aparece como o seu prolongamento natural. Não interrompe o funcionamento; assegura-o. Não cria conflito; evita-o. Não exige justificação moral; basta-lhe a adequação formal. É por isso que a omissão se instala com tanta facilidade nos contextos institucionais: faz tudo continuar sem que ninguém tenha de assumir a decisão.

Não agir não é neutro quando existe capacidade de agir.

O gesto que falta não é, na maioria das vezes, um grande gesto.
É um desvio mínimo que não ocorreu. Uma margem que não foi usada. Uma exceção que não foi considerada. Um tempo que não foi concedido. Um critério que não foi suspenso. A omissão opera sempre abaixo do limiar do escândalo.

É precisamente aí que reside a sua força.

Um gesto isolado em falta pode ser explicado.
A repetição da sua ausência produz estrutura.

Quando a omissão se repete, deixa de ser circunstancial. Torna-se previsível. Quando se torna previsível, transforma-se em norma tácita. E quando se transforma em norma, já não é percebida como escolha, mas como condição do real.

A violência desloca-se então do ato visível para o processo invisível.

A omissão não fere de uma vez.
Desgasta.
Não exclui por declaração.
Mantém fora por continuidade.

Não deixa marcas imediatas. Deixa trajetórias truncadas, tempos suspensos, vidas mantidas em espera. É uma violência lenta, acumulativa, dificilmente atribuível a um momento preciso — e, por isso mesmo, resistente à contestação.

A omissão funciona como forma ativa de violência porque não se reconhece como tal. Não interrompe o funcionamento institucional; legitima-o. Não exige confronto; oferece tranquilidade. Não expõe quem a pratica; protege-o.

A omissão é confortável.

Ao contrário da decisão explícita, a omissão raramente exige justificação densa. Basta invocar a regra, o enquadramento, o prazo, a competência. Basta dizer que “não estava previsto”, “não era possível”, “não era o momento adequado”. A linguagem administrativa faz o resto. A responsabilidade dissolve-se na correção formal.

E, no entanto, os efeitos não se dissolvem.

Quando um pedido não é respondido, alguém espera indefinidamente.
Quando uma situação não é revista, alguém permanece fora.
Quando um critério não é questionado, alguém continua a não caber.

A omissão não distribui o dano de forma aleatória. Incide sistematicamente sobre os mesmos corpos, os mesmos territórios, as mesmas biografias. É por isso que não pode ser pensada como simples falha, distração ou insuficiência individual. A omissão, nestes contextos, é um modo de exercício do poder.

Muitas das formas contemporâneas de violência não resultam de atos deliberados de prejudicar, mas da manutenção organizada da inação em contextos onde agir implicaria risco, exposição ou conflito.

Agir expõe.
Não agir protege.

Protege carreiras.
Protege hierarquias.
Protege a aparência de neutralidade.

É aqui que a ética enfrenta um dos seus pontos mais difíceis. Porque a omissão, no momento em que ocorre, raramente se apresenta como falha ética. Apresenta-se como prudência, como respeito pelas regras, como contenção responsável. Só mais tarde — muitas vezes demasiado tarde — os seus efeitos se tornam visíveis.

A repetição dessa prudência produz normalização do dano.

A omissão torna-se hábito.
O hábito torna-se procedimento.
O procedimento torna-se destino.

Não se trata de exigir intervenção constante nem de abolir qualquer forma de espera ou contenção. Trata-se de reconhecer que há contextos em que a ausência de gesto já não é defensável. Contextos em que continuar a não agir equivale a consentir. Contextos em que a prudência deixou de proteger e passou a ferir.

O gesto que falta não é sempre espetacular.
Mas a sua ausência nunca é neutra.

Há momentos em que a ética não exige fazer mais, mas deixar de não fazer. Exige quebrar a cadeia da omissão. Exige assumir o risco mínimo de um gesto que interrompe a normalidade, mesmo sabendo que esse gesto não resolve o problema, não repara o dano acumulado e não garante reconhecimento.

Esse gesto altera, no entanto, o campo.

Ao acontecer, expõe o mecanismo.
Ao acontecer, revela o poder pequeno.
Ao acontecer, devolve densidade ética ao que parecia apenas funcionamento.

A omissão é eficaz enquanto permanece invisível.
O gesto que falta, quando ocorre, não redime — desvela.

E ao desvelar, restitui à ética aquilo que o funcionamento sistemático lhe retira: a possibilidade de dizer aqui não, mesmo quando não há apoio, mesmo quando não há garantia, mesmo quando tudo convida à continuidade.

A partir daqui, torna-se impossível ignorar outro nível ainda mais profundo do poder: a linguagem que torna estas omissões pensáveis, aceitáveis e administráveis. A linguagem que não apenas descreve a realidade, mas a produz ao classificar, reduzir e apagar.

É para esse terreno — onde as palavras começam a governar vidas — que o próximo ensaio se desloca.

© Manuela Ralha, 2026

Comentários

  1. Grato por mais uma reflexão poderosa, que propõe uma inversão de perspectiva: retira a omissão do campo da "passividade" e coloca-a no campo da "ação".
    Muitas vezes, quem se omite justifica-se com a prudência ou a neutralidade ("não me quis envolver", bla,bla,bla...). No entanto, essas mesmas pessoas esquecem que existe um limiar ético.
    Tanto havia a dizer.
    No entanto, e pedindo desculpa desde já pelo extenso comentário, mas neste tema não conseguia fazer de outra forma. Quem sente diariamente, é impossível resistir 😁🙏.
    Então aqui vai:
    Em primeiro lugar, e em modo de contextualizar o que vou escrever, tenho de começar por dizer que a omissão como forma ativa de violência exige que olhemos para o que acontece no vácuo deixado por quem deveria intervir.
    A omissão deixa de ser neutra quando o contexto exige uma ação para evitar um dano.
    Decidir não agir diante de uma injustiça ou de um processo que depende de nós é, em si, uma decisão. Como tal, carrega a mesma responsabilidade moral que um gesto físico.
    A violência da omissão é silenciosa, o que a torna muitas vezes mais perversa e difícil de combater.
    Por exemplo, quando alguém retém uma aprovação, um documento ou uma resposta, está a exercer poder sobre o tempo do outro. O tempo perdido é uma forma de erosão da vida alheia.
    Não incluir, não convidar ou não considerar necessidades específicas não é "esquecimento"; é uma forma de apagar a presença do outro no espaço público ou social.
    Diferente de um evento traumático único, a omissão produz danos que se acumulam de forma invisível.
    Danos Psicológicos: O sentimento de invisibilidade e a desvalorização do eu ("Eu não sou importante o suficiente para obter uma resposta?").
    Danos Materiais: Oportunidades perdidas, carreiras estagnadas e direitos que prescrevem porque ninguém "teve tempo" de dar o passo necessário.
    E se aplicarmos esta lente à realidade das pessoas com deficiência, das pessoas cuidadas e dos seus cuidadores? A omissão deixa de ser um debate conceptual e passa a ser uma ferida física, diária e, muitas vezes, devastadora.
    Aqui, a omissão institucional e social não é apenas uma "falha de gestão"; é um ato de violência que desaba sobre os corpos e as mentes de quem já vive no limite das suas forças.
    Neste caso, sou da opinião que o Estado e a sociedade muitas vezes omitem-se porque sabem que, no limite, o amor e o desespero do cuidador não o deixarão abandonar a pessoa cuidada. O sistema capitaliza e explora a moralidade do cuidador. A omissão transforma o ato de cuidar — que deveria ser sustentado pela comunidade — numa espécie de prisão domiciliária por amor.
    O dano acumulado nestas vidas é a perda da esperança. Quando um pedido de ajuda é enviado para o vazio e a resposta não vem, o que se quebra não é apenas um processo administrativo; é o pacto social.
    A pessoa vulnerável e o seu cuidador percebem que, para a estrutura que os rege, as suas vidas têm menos valor. A mensagem implícita da omissão estatal e social é de uma violência psicológica incalculável: "Vocês são um fardo pesado demais para que nos importemos com pressa."
    Nota Final
    Olhar para a omissão sob este prisma exige que paremos de aceitar a "falta de verbas", a "escassez de pessoal" ou a "lentidão dos processos" como desculpas inevitáveis. Na vida de quem cuida e de quem é cuidado, a lentidão do Estado não é ineficiência — é uma escolha política de negligência. E a negligência planeada sobre os mais fracos é, por definição, a forma mais cobarde de tirania.
    🙏🙏🙏

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    1. Muito obrigada por este comentário tão denso, tão vivido e tão intelectualmente exigente.
      Tocou com enorme precisão no ponto em que a omissão deixa de poder ser lida como simples ausência e se revela como forma de poder. É precisamente aí que a reflexão ética se torna mais difícil: quando o dano não resulta de um acto ruidoso, mas do vazio deixado por quem podia — e devia — ter interrompido o curso das coisas.
      O que escreve sobre o tempo é particularmente forte. Há, de facto, uma violência própria em fazer alguém esperar indefinidamente, em reter uma resposta, em suspender uma possibilidade, em deixar uma vida à mercê de um procedimento que nunca chega a cumprir-se. Esse desgaste não é abstrato. Corrói a existência a partir de dentro.
      E quando leva esta reflexão para a realidade das pessoas com deficiência, das pessoas cuidadas e dos seus cuidadores, o comentário ganha uma gravidade ainda maior. Aí, a omissão deixa de ser apenas falha institucional e mostra-se como estrutura de abandono. Como bem diz, não estamos perante mera ineficiência: estamos perante uma forma de organização social que, muitas vezes, se sustenta precisamente sobre a disponibilidade moral, afectiva e física de quem cuida, explorando o amor onde deveria existir responsabilidade partilhada.
      A sua formulação sobre a quebra do pacto social é, para mim, central. Porque há um momento em que a omissão já não significa apenas atraso, entrave ou negligência: significa a experiência brutal de perceber que certas vidas são tratadas como suportáveis no seu sofrimento. E isso é de uma violência ética e política imensa.
      Agradeço-lhe profundamente este comentário. Não apenas pela leitura generosa, mas porque trouxe ao ensaio aquilo que nenhum conceito, por si só, consegue dar: a espessura concreta da vida vivida.
      Manuela Ralha

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  2. Muito obrigado pelas suas palavras ao meu comentário.
    Como sabe, dos 30 anos que tenho ao serviço de uma nobre Instituição, há 15 que vivo intensamente uma missão, entre o eu, quem me é próximo, e os outros, também eles vulneráveis, e onde tento ter um equilíbrio delicado entre a entrega e a preservação. E no meio de tudo ter a arte de estar presente se me perder, e de cuidar sem me anular. Mas confesso que não está fácil.
    Obrigado mais uma vez por "me ler" também. 🙏
    As suas reflexões tento sempre acompanhar por são deveras muito impactantes, e tocam em assuntos que tantos não gostam de abordar. 😁🙏🙏
    Obrigado, obrigado, obrigado 🙏

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  3. Li este texto duas vezes. Da primeira senti o impacto, da segunda fiquei mesmo a pensar nele.
    A parte da linguagem mexeu muito comigo, porque é verdade… às vezes nem nos apercebemos do poder que certas palavras têm. Da forma como se vai normalizando o silêncio, a exclusão ou até a indiferença através de discursos que começam a parecer “naturais”. E quando damos conta, já há coisas que deixaram de nos chocar.
    Gostei muito desta ideia de que a linguagem não serve só para descrever a realidade, mas também para a construir. Porque aquilo que se repete vezes suficientes acaba muitas vezes por ser aceite como verdade, mesmo quando reduz pessoas, apaga dores ou simplifica realidades muito mais complexas.
    É mais um texto que obriga a parar e a pensar. E hoje em dia isso vale muito. E é o que adoro na tua escrita.

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    1. Muito obrigada por esta leitura tão atenta e tão generosa.
      Tocaste num ponto essencial: a forma como a linguagem, pela repetição e pela aparência de naturalidade, vai tornando aceitável aquilo que talvez nunca devesse deixar de nos inquietar. É precisamente aí que ela deixa de ser simples descrição e passa a participar ativamente na construção do real.
      Quando certas palavras se impõem como evidentes, quando certos enquadramentos começam a parecer neutros, o que se perde não é apenas rigor — perde-se também a capacidade de ver, de escutar e de deixar-se afetar.
      Fico muito tocada por saber que o texto te fez parar e voltar a ele. E agradeço-te muito isso, tal como agradeço a delicadeza com que acolhes a minha escrita.

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