Cartografias da Responsabilidade - Parte II - 5. O poder pequeno

 


Legenda da imagem: Imagem de abertura do ensaio “O poder pequeno”, do ciclo Cartografias da Responsabilidade. No centro da composição, um dossiê assinala o título do ensaio, rodeado por regulamentos, formulários, fichas de avaliação, fluxos de decisão, carimbos de validação, critérios de classificação e registos de tramitação. A repetição desses dispositivos administrativos traduz visualmente o modo como o poder se exerce em escala reduzida, através de atos mínimos, decisões invisíveis e procedimentos que parecem neutros. A bússola, colocada no canto inferior direito, introduz a pergunta ética num universo dominado pelo funcionamento, pelo enquadramento e pela acumulação silenciosa de efeitos.

Ambiente sonoro

A proposta de ambiente sonoro para este ensaio é o II Andamento da Sinfonia n.º 6, de Gustav Mahler. A sua escuta acompanha este texto não como ilustração nem como fundo musical, mas como estrutura de latência, contenção e inquietação interior.

Neste andamento, a música parece abrandar depois da marcha inicial. Abre-se um espaço sonoro menos afirmativo, menos frontal, mas não menos tenso. O movimento já não se impõe como impulso evidente; recolhe-se, torna-se mais discreto, mais difícil de localizar. A inquietação não desaparece — transforma-se em permanência. A ameaça deixa de surgir como choque e instala-se na continuidade.

É precisamente essa qualidade que torna este andamento o horizonte sonoro mais adequado para O poder pequeno. Porque também aqui o que está em causa não é a violência ostensiva, mas o funcionamento discreto, repetido e quase invisível de mecanismos que enquadram, classificam, validam e excluem. A música torna audível esse nível baixo e persistente do poder: aquilo que não grita, não se declara e, ainda assim, produz efeitos profundos.

Audição sugerida

Para quem não utiliza esta plataforma: Gustav Mahler — Sinfonia n.º 6, II Andamento, no YouTube

Regulamentos, formulários e decisões invisíveis

O poder de que aqui se fala não se reconhece como poder.
Não se anuncia, não se impõe, não se declara. Opera em escala reduzida, dispersa, quotidiana. Exercita-se através de atos mínimos — preencher, validar, encaminhar, classificar — praticados por sujeitos que raramente se percebem como agentes de decisão.

É pequeno no gesto.
É cumulativo no efeito.

Este poder não decide destinos de uma só vez. Define condições. Enquadra possibilidades. Estabelece limites que se apresentam como técnicos, razoáveis, inevitáveis. Age através de regulamentos, formulários, grelhas, critérios. Cada elemento, isoladamente, parece inofensivo. A violência emerge da repetição.

O poder pequeno não precisa de convicção.
Precisa de funcionamento.

As decisões com maior impacto raramente aparecem como decisões. Surgem como aplicação correta de normas, como resposta obrigatória a procedimentos, como cumprimento de orientações que vêm de outro lugar — ou de lugar nenhum. O ato decisório desloca-se. Quem executa não sente que decide. E, por isso, não se sente responsável.

Quem aplica um regulamento não sente que exclui.
Quem preenche um formulário não sente que reduz.
Quem segue um critério não sente que apaga.

E, no entanto, é aqui que o poder se exerce.

O poder pequeno produz efeitos precisamente porque não se nomeia. Não convoca resistência porque não se apresenta como violência. Confunde-se com normalidade. É aceite porque parece neutro. E é eficaz porque se repete.

O que não cabe no formulário não existe.
O que não corresponde ao critério não conta.
O que não se ajusta à categoria torna-se irrelevante.

Este poder não atua por proibição explícita, mas por enquadramento. Não rejeita; desloca. Não elimina; torna invisível. A sua violência é administrativa, gradual, silenciosa. Não fere de uma vez. Desgasta.

É por isso que decisões com impacto profundo sobre vidas humanas são tomadas sem consciência do seu alcance. O poder pequeno permite agir sem se perceber como agente. Permite participar em cadeias de decisão cujo resultado final ninguém assume por inteiro.

Aqui, o juízo começa a falhar.

Porque o poder pequeno não exige adesão moral. Exige apenas continuidade prática. Basta continuar a fazer o que sempre se fez. Aceitar o regulamento como dado. Confundir a regra com a justiça. Tratar o procedimento como substituto do pensamento.

Não é necessário concordar.
Basta não interromper.

Quanto mais pequeno é o gesto, mais fácil é abdicar do juízo. E quanto mais fácil é abdicar do juízo, mais eficaz se torna o poder que atua através dessa abdicação. O funcionamento substitui a responsabilidade. A repetição substitui a decisão.

Não há aqui vilões nem decisões excecionais. Há funcionamento. Há adaptação. Há normalidade. O poder pequeno prospera neste terreno porque não exige intenção — exige apenas que ninguém pare para perguntar o que está a ser produzido.

Mas este poder não atua apenas pelo que faz.
Atua, sobretudo, pelo que não acontece.

Quando a decisão se dissolve no procedimento, quando a responsabilidade se fragmenta em funções, quando a regra substitui o juízo, o efeito não é apenas a produção de limites. É a suspensão da intervenção possível.

O que poderia ter sido feito não o foi.
O que poderia ter sido interrompido continuou.
O que poderia ter sido questionado tornou-se rotina.

É nesse intervalo — entre o que se faz e o que se deixa de fazer — que o poder pequeno revela a sua forma mais eficaz.

Não é a ordem que fere.
É a ausência de gesto.

A partir daqui o problema já não é apenas o modo como se decide, mas o modo como se deixa de agir. Já não é apenas o que é feito em nome da regra, mas aquilo que a regra permite não fazer.

É nesse ponto — discreto, quotidiano, raramente nomeado — que a ética encontra uma das suas formas mais difíceis de violência: a omissão que atua, a inação que produz efeitos, o gesto que falta.

É para esse território que o ensaio seguinte se desloca.

© Manuela Ralha, 2026

Comentários

  1. Este texto deixou-me realmente a pensar porque fala de uma coisa muito subtil, mas muito presente no dia a dia, a facilidade com que entramos em modo automático. Fazer porque sempre se fez. Aceitar regras sem parar para pensar no que elas produzem.
    A frase “não é necessário concordar. Basta não interromper” ficou-me mesmo. Porque às vezes o problema não está nas grandes maldades ou nas pessoas “más”, mas na ausência de gesto, naquilo que ninguém questiona, no silêncio confortável da rotina.
    Gostei muito da forma como fala da omissão como algo que também cria consequências. Como se o não agir nunca fosse totalmente neutro.
    É um texto exigente, mas muito lúcido e verdadeiro como já estamos habituados.Obriga-nos a pensar em quantas vezes confundimos funcionamento com consciência e rotina com justiça.

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