Gustave Le Bon e a manipulação das massas

 

A inquietante actualidade de A Psicologia das Massas

Ambiente sonoro: Erik Satie — Gnossienne n.º 1

Para acompanhar este ensaio, a escolha recai sobre Erik Satie, praticamente contemporâneo de Gustave Le Bon. A Gnossienne n.º 1, com a sua repetição suspensa, o seu andamento quase hipnótico e a sua estranha serenidade, dialoga com algumas das ideias centrais de A Psicologia das Massas: a sugestão, o contágio emocional, a força das imagens interiores e a fragilidade da consciência crítica quando se deixa conduzir por ritmos colectivos.

A manipulação das massas não pertence apenas ao passado sombrio das grandes propagandas do século XX. Ela atravessa o presente, adapta-se às tecnologias do nosso tempo e reaparece sempre que a palavra pública deixa de procurar a verdade para passar a explorar o medo.

É por isso que A Psicologia das Massas, de Gustave Le Bon, agora editado pela Alma dos Livros, continua a ser uma obra incómoda, mas necessária. Incómoda porque nasce de uma visão profundamente desconfiada das multidões e atravessada por marcas elitistas próprias do seu tempo. Necessária porque nos obriga a olhar para uma questão que permanece no centro da vida política contemporânea: como se formam as crenças coletivas? Como se conduz uma multidão? Como se transforma o cidadão em massa disponível para obedecer, reagir, odiar ou seguir?

Publicado originalmente em 1895, o livro surge numa Europa marcada pela industrialização, pela urbanização acelerada, pela expansão da imprensa, pelo crescimento dos movimentos operários, pelas revoluções e pela entrada progressiva das massas na vida política. O povo deixava de ser apenas uma categoria abstrata invocada nos discursos. Tornava-se presença real nas ruas, nas fábricas, nos partidos, nas greves, nas assembleias e nas urnas.

Le Bon escreve a partir desse abalo. O seu objeto não é o indivíduo isolado, mas o indivíduo quando integrado numa multidão. A sua tese central é conhecida: a massa não é a simples soma dos indivíduos que a compõem. Quando reunidos sob uma emoção, uma crença ou uma palavra de ordem, os indivíduos podem adquirir uma espécie de alma coletiva, mais impressionável, mais impulsiva e mais vulnerável à sugestão.

Esta ideia atravessa toda a obra. Para Le Bon, o indivíduo que pensa, hesita e pondera pode, no interior da massa, perder parte da sua autonomia crítica. O anonimato dilui a responsabilidade. O contágio emocional acelera a adesão. A repetição transforma uma frase simples numa convicção. O prestígio de um líder, de uma instituição ou de uma palavra pode substituir a exigência do pensamento.

É precisamente aqui que a obra se torna mais actual. Le Bon compreendeu cedo que a política moderna não se faz apenas de programas, instituições e argumentos. Faz-se também de imagens, símbolos, medos, ressentimentos, promessas e ilusões. As multidões não são mobilizadas apenas pelo que é verdadeiro; são muitas vezes mobilizadas pelo que parece claro, pelo que conforta uma identidade, pelo que oferece um inimigo e pelo que transforma a complexidade do mundo numa explicação simples.

Esta percepção é fundamental para compreender a situação política mundial contemporânea. Vivemos um tempo em que a manipulação das massas já não depende apenas do comício, do panfleto, da rádio ou da televisão. Depende também dos algoritmos, das redes sociais, dos vídeos curtos, das mensagens virais, das bolhas digitais, das campanhas de desinformação, da indignação permanente e da transformação da política em espectáculo emocional.

A massa do século XXI já não precisa de estar reunida numa praça. Pode formar-se diante de um ecrã. Pode organizar-se em torno de uma hashtag, de uma mentira repetida, de uma imagem descontextualizada, de uma teoria da conspiração, de uma palavra de ordem ou de um líder que fala directamente à cólera, ao medo e ao ressentimento.

É neste ponto que Le Bon deve ser lido com atenção, mas também com distância crítica. A sua visão das massas é muitas vezes demasiado pessimista e demasiado aristocrática. Tende a ver a multidão como irracionalidade e ameaça, esquecendo que foi também através da ação colectiva que se conquistaram direitos, se derrubaram opressões, se ampliou a cidadania e se construíram democracias mais inclusivas.

Mas a crítica à sua visão elitista não deve impedir-nos de reconhecer a força das suas intuições. Le Bon percebeu que a razão pública é frágil quando a emoção coletiva é explorada por quem domina a linguagem da sugestão. Percebeu que as palavras podem ser armas. Percebeu que as imagens podem substituir a reflexão. Percebeu que as massas podem ser conduzidas quando se lhes oferece uma narrativa simples para uma angústia complexa.

Hoje, essa questão tornou-se ainda mais grave. A política mundial mostra sinais evidentes de regressão democrática, polarização extrema, nacionalismos agressivos, culto de lideranças fortes, desconfiança nas instituições, ataques à comunicação social, suspeição sobre a ciência, desvalorização da verdade fatual e fabricação permanente de inimigos internos e externos.

A manipulação das massas faz-se, muitas vezes, através de mecanismos reconhecíveis: primeiro cria-se o medo; depois identifica-se um culpado; em seguida simplifica-se a realidade; por fim, apresenta-se um líder, um partido ou uma ideologia como única resposta possível. A partir daí, tudo o que contradiz essa narrativa pode ser apresentado como traição, conspiração, corrupção ou ameaça.

Esta é uma das grandes lições que podemos retirar da leitura contemporânea de A Psicologia das Massas: a massa manipulada não nasce apenas da ignorância. Nasce também da humilhação, da insegurança, da perda de confiança, da precariedade, da solidão social e da sensação de abandono. Onde há medo sem mediação democrática, pode surgir obediência. Onde há ressentimento sem horizonte político, pode surgir ódio. Onde há desigualdade sem resposta, pode surgir a tentação autoritária.

Por isso, a actualidade de Le Bon não está em aceitarmos a sua desconfiança perante o povo. Está em compreendermos o risco de o povo ser transformado em massa conduzida. Uma democracia viva precisa de participação popular, mas essa participação exige pensamento crítico, educação, pluralismo, instituições credíveis, imprensa livre, cultura democrática e responsabilidade na linguagem pública.

A democracia não se defende tratando os cidadãos como multidão irracional. Defende-se criando condições para que não sejam reduzidos a isso. Defende-se com mais leitura, mais debate, mais memória histórica, mais justiça social e mais exigência ética na palavra pública.

A grande questão que Le Bon nos deixa, mesmo contra algumas das suas próprias limitações, é esta: quem conduz as emoções coletivas? Para que fins? Com que palavras? Com que imagens? Contra quem?

Num tempo em que a mentira circula à velocidade da luz e a indignação se tornou matéria-prima da política, reler A Psicologia das Massas é um exercício de vigilância democrática. Não para desprezar as massas, mas para recusar a sua manipulação. Não para desconfiar do povo, mas para defender a sua capacidade de pensar, escolher e agir livremente.

Porque o perigo maior não está na existência das multidões. Está no momento em que uma comunidade deixa de deliberar e passa apenas a reagir; deixa de escutar e passa apenas a obedecer; deixa de procurar a verdade e passa a alimentar-se do medo.

Entre o povo democrático e a massa manipulada há uma fronteira decisiva: a consciência crítica. É essa fronteira que importa defender.

Bibliografia

Le Bon, G. (2026). A psicologia das massas: A arte de influenciar pessoas e dominar multidões. Alma dos Livros.

© Manuela Ralha, 2026

Comentários

  1. Sobre o assunto, e sobre a minha lente apartidária, tenho assistido a discursos contra um certo partido, que apesar de ter ideias mais radicais, vai ao contrário do que este autor refere atrás: "A democracia não se defende tratando os cidadãos como multidão irracional." Onde se ouve que um número elevado de eleitores deste partido são todos, e passo a citar: uns grunhos, fascistas, e entre outras palavras menos agradáveis, bem como as mais variadas pessoas ligadas à política em Território Nacional profere tais palavras.
    Ora bem, seguindo à letra o assunto, não será que o adversário político deixa de ser alguém com quem se debate para se tornar um "inimigo" a ser eliminado? Isso não inviabiliza o compromisso, que é a alma da democracia?
    Também é verdade que vivemos num cenário onde o facto é secundário em relação à emoção ou à crença pessoal. Se um dado científico ou uma notícia contradiz a visão de mundo de um grupo, o dado é descartado como "fake news".
    Não estaremos já num ecossistema onde a razão está a ser asfixiada pela paixão política. A desvalorização da verdade factual não é um detalhe; é a ferramenta que permite que todas as outras regressões aconteçam. Sem um consenso mínimo sobre o que é real, o diálogo torna-se impossível e o autoritarismo encontra o terreno fértil para se instalar.
    ​É um aviso sobre a fragilidade das democracias: elas não morrem apenas por interrupção súbita, mas pelo desgaste contínuo das normas e da confiança mútua.

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