Cartografias da Responsabilidade - Parte II - 7. A linguagem que administra vidas

 


Legenda da imagem: Imagem de abertura do ensaio “A linguagem que administra vidas”, do ciclo Cartografias da Responsabilidade. No centro da composição, um dossiê assinala o título do ensaio, rodeado por perfis codificados, tabelas de classificação, árvores de decisão, listas de categorias, registos de caso, campos obrigatórios e esquemas que ligam discurso, protocolo e decisão. As palavras “irrelevante”, “arquivar”, “fora do padrão” e “sem categoria” tornam visível a forma como a linguagem classifica, reduz e apaga, transformando vidas singulares em perfis administráveis. A bússola, colocada no canto inferior direito, introduz a pergunta ética num universo dominado pela categorização, pela neutralidade aparente e pela violência discreta do vocabulário técnico.

Ambiente sonoro

A proposta de ambiente sonoro para este ensaio é o II Andamento da Sinfonia n.º 6, de Gustav Mahler. A sua escuta acompanha este texto não como ilustração nem como fundo musical, mas como estrutura de latência, contenção e inquietação interior.

Neste andamento, a música parece abrandar depois da marcha inicial. Abre-se um espaço sonoro menos afirmativo, menos frontal, mas não menos tenso. O movimento já não se impõe como impulso evidente; recolhe-se, torna-se mais discreto, mais difícil de localizar. A inquietação não desaparece — transforma-se em permanência. A ameaça deixa de surgir como choque e instala-se na continuidade.

É precisamente essa qualidade que torna este andamento o horizonte sonoro mais adequado para A linguagem que administra vidas. Porque também aqui o que está em causa não é a violência explícita, mas um regime de organização silenciosa, técnica e aparentemente neutra, em que palavras, categorias e classificações vão moldando o campo do visível, do dizível e do possível. A música torna audível esse funcionamento contido e persistente: uma forma de poder que não precisa de se anunciar para produzir efeitos profundos.

Audição sugerida

Para quem não utiliza esta plataforma: Gustav Mahler — Sinfonia n.º 6, II Andamento, no YouTube

Classificar, reduzir, apagar

A linguagem não é apenas meio de descrição.
É instrumento de governo.

Antes de qualquer decisão, antes de qualquer omissão, antes de qualquer gesto que falha, há palavras que enquadram, nomeiam e ordenam. É nelas que o poder começa a operar com maior eficácia: não impondo, mas definindo antecipadamente o que pode ser pensado, dito e tratado. O que não encontra palavra adequada dificilmente encontra resposta. Administrar vidas começa por classificá-las.

Classificar apresenta-se como gesto técnico, neutro, necessário.
Mas nenhuma classificação é inocente. Classificar é separar, hierarquizar, fixar.
É estabelecer fronteiras que parecem descritivas, mas são normativas.
Decide o que conta, o que sobra e o que fica fora de campo.
O que é classificado torna-se comparável; o que não é classificável torna-se problema. A classificação não descreve o real.
Reorganiza-o.

Histórias singulares convertem-se em casos.
Trajetórias tornam-se perfis.
Experiências passam a indicadores.
O que não cabe na grelha não desaparece por falha: é excluído por definição.
A classificação substitui a escuta pela adequação e transforma a complexidade em erro.

Depois de classificar, a linguagem reduz.

Reduzir não é simplificar para compreender.
É empobrecer para gerir.

A redução converte vidas complexas em variáveis controláveis. Substitui o conflito pelo número, a ambiguidade pela escala, a vulnerabilidade pela estatística.
Tudo o que excede o quadro torna-se ruído. Tudo o que não pode ser quantificado perde relevância decisória.
A redução não elimina a realidade — retira-lhe peso ético.

A redução protege o sistema.
E desprotege quem nele não cabe.

Ao reduzir, a linguagem cria distância.
Permite decidir sem encontrar, justificar sem escutar, gerir sem responder.
O sofrimento convertido em indicador deixa de convocar responsabilidade e passa a exigir apenas otimização. O vocabulário técnico ocupa o lugar do juízo.

Mas o processo não termina na redução. Prossegue no apagamento.

Apagar não é negar explicitamente.
É tornar irrelevante.

O que não é mencionado não existe institucionalmente.
O que não tem categoria não entra na decisão.
O que não tem palavra não tem lugar.
O apagamento opera por silêncio, por ausência de campo, por inexistência de opção prevista.
Não se declara: produz-se.

Apagam-se situações “atípicas”.
Apagam-se casos “difíceis de enquadrar”.
Apagam-se vidas que perturbam a coerência do procedimento.

Este apagamento raramente é vivido como violência.
Surge como limitação técnica, como falha do sistema, como impossibilidade administrativa.
Mas o efeito é constante: alguém deixa de contar.
Não por exclusão explícita, mas por inexistência linguística.

A linguagem que administra vidas não precisa de maldade.
Precisa apenas de coerência interna.
Funciona melhor quanto mais correta, consistente e profissional parece.
A sua força reside na aparência de neutralidade e na promessa de racionalidade.

Não há insulto.
Não há agressão.
Há terminologia adequada.

É por isso que esta forma de poder resiste à crítica.
Questionar a linguagem é visto como excesso de sensibilidade, falta de realismo ou desconhecimento das exigências práticas.
Mas é precisamente aí que a ética se perde: quando a palavra correta impede a pergunta necessária.

Quando o vocabulário substitui o juízo.
Quando dizer bem passa a valer mais do que ver claramente.
Quando a adequação formal se torna critério suficiente.

A linguagem administrativa não se limita a acompanhar decisões.
Prepara-as.
Define antecipadamente o campo do possível e do impossível.
Ao enquadrar o que pode ser dito, determina também o que pode ser feito — e, sobretudo, o que pode ser deixado por fazer sem escândalo.

É assim que a violência se torna pensável antes de se tornar real.

Classificar, reduzir e apagar não são operações neutras.
São gestos políticos exercidos sob a forma de linguagem.
Gestos silenciosos, cumulativos, dificilmente atribuíveis — e por isso duradouros.
Uma vez estabilizada, esta linguagem cria realidade: aquilo que não nomeia deixa de poder ser reclamado.

Mas há ainda algo mais inquietante.

Esta linguagem não administra apenas vidas.
Administra a ausência de responsabilidade.

Quando tudo é dito na linguagem correta, quando cada decisão encontra o seu termo adequado, quando cada exclusão se apresenta como consequência técnica,
a pergunta ética deixa de ter onde pousar.
Não há sujeito a interpelar.
Não há ato a contestar.
Há apenas vocabulário em funcionamento.

A responsabilidade não é recusada.
É tornada irrelevante.

O problema deixa de ser quem respondeu e passa a ser quem poderia responder.
Mas essa pergunta já não encontra lugar, porque nenhuma palavra a sustém.
A linguagem torna-se, assim, o espaço onde a responsabilidade se dissolve sem ser negada.

Deixa de ser instrumento.
Torna-se ambiente.

Um ambiente onde tudo pode ser dito corretamente e, ainda assim, nada pode ser assumido.

É neste ponto que a administração se converte em desumanização estrutural.
Não por crueldade, não por ódio, mas por excesso de correção.
Quando a linguagem funciona sem pensamento, quando governa sem juízo,
as instituições podem operar de forma irrepreensível e, ainda assim, produzir efeitos devastadores.

É para esse território — onde ninguém parece agir mal e, ainda assim, todos sofrem — que o passo seguinte se desloca.

© Manuela Ralha, 2026

Comentários

  1. O mais assustador neste texto é perceber que a desumanização já nem precisa de pessoas más.
    Basta uma linguagem vazia de pensamento, uma sucessão de procedimentos corretos e ninguém a parar para perguntar “mas isto continua a ser humano?”
    E é aí que tudo se torna perigoso.
    Quando a responsabilidade não desaparece, apenas se dilui até já ninguém lhe conseguir tocar.

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    1. Muito obrigada por este comentário, tão claro e tão fundo.
      Tocaste num ponto que me parece decisivo: talvez o mais inquietante, hoje, seja precisamente isso — a desumanização já não precisar de maldade explícita, bastando-lhe uma linguagem esvaziada de pensamento, uma sucessão de procedimentos corretos e a ausência dessa pergunta fundamental: isto continua a ser humano?
      A tua formulação da responsabilidade que não desaparece, mas se dilui até já ninguém lhe conseguir tocar, é fortíssima. Porque é aí que o problema se torna mais difícil de enfrentar: quando o dano existe, mas já não encontra rosto, gesto ou lugar claro de imputação.
      Agradeço-te muito a lucidez e a força deste comentário. Disseste com grande precisão aquilo que o ensaio procurava pensar.

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  2. Neste território de areias movediças, o sofrimento dos indivíduos é tratado como uma externalidade negativa ou um "erro estatístico aceitável". A tragédia aqui é que não há um vilão para combater, pois o "inimigo" é o próprio funcionamento impecável da máquina.
    Quando a linguagem deixa de ser um meio de comunicação para se tornar um instrumento de gestão, ela sofre uma mutação subtil: ela pára de falar com as pessoas e passa a operar sobre as vidas.
    O indivíduo perde o nome e ganha uma categoria jurídica ou técnica. Ele passa a ser o "caso 402", o "paciente da ala B", o "contribuinte", o "usuário" ou o "recurso humano". Ao neutralizar-se a identidade, neutraliza-se a necessidade de empatia.
    É a linguagem que funciona como um algoritmo pré-programado. Diante de uma tragédia humana, a resposta da máquina é o clichê normativo: "Está no sistema", "É o protocolo", "Falta o carimbo". Não há espaço para a interpretação ou para o imprevisto da dor.
    E no final, é esta mesma linguagem que administra vidas, cria uma ilusão de ordem enquanto produz um deserto afetivo. Ela é o motor invisível daquela "desumanização estrutural" mencionada na sua reflexão: uma máquina que funciona sem ódio, mas que destrói pela mera recusa em reconhecer a singularidade de quem está do outro lado do balcão, do ecrã ou do memorando.

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  3. Pode responder assim:

    Muito obrigada por este comentário tão certeiro.

    Tocou num ponto essencial: a forma como a linguagem, quando se torna instrumento de gestão, deixa de apenas nomear e passa a operar diretamente sobre as vidas. E, como diz, talvez o mais inquietante seja precisamente isso: não haver um vilão nítido, mas um funcionamento impecável que produz desumanização sem precisar de ódio nem de intenção declarada.

    A sua formulação do “deserto afetivo” parece-me particularmente forte. Diz com grande precisão aquilo que o ensaio procura pensar: o modo como a correção técnica, a categoria adequada e o protocolo podem, ao mesmo tempo, organizar e apagar.

    Agradeço-lhe muito a inteligência e a força desta leitura.

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