Cartografias da Responsabilidade - Parte II - 8. Instituições sem maldade, efeitos desumanos

 


Legenda da imagem: Imagem de abertura do ensaio “Instituições sem maldade, efeitos desumanos”, do ciclo Cartografias da Responsabilidade. No centro da composição, um dossiê assinala o título do ensaio, rodeado por fluxos de atendimento, relatórios técnicos, critérios de elegibilidade, listas de espera, mapas de processos, planilhas orçamentais e casos indeferidos. Expressões como “conforme regulamento”, “critério aplicado”, “custo necessário” e “dano colateral” tornam visível a forma como o sofrimento pode ser produzido por mecanismos formais, racionais e aparentemente corretos. A bússola, colocada no canto inferior direito, introduz a pergunta ética num universo dominado pelo procedimento, pela conformidade e pela violência sem rosto do funcionamento institucional.

Ambiente sonoro

A proposta de ambiente sonoro para este ensaio é o II Andamento da Sinfonia n.º 6, de Gustav Mahler. A sua escuta acompanha este texto não como ilustração nem como fundo musical, mas como estrutura de latência, contenção e inquietação interior.

Neste andamento, a música parece abrandar depois da marcha inicial. Abre-se um espaço sonoro menos afirmativo, menos frontal, mas não menos tenso. O movimento já não se impõe como impulso evidente; recolhe-se, torna-se mais discreto, mais difícil de localizar. A inquietação não desaparece — transforma-se em permanência. A ameaça deixa de surgir como choque e instala-se na continuidade.

É precisamente essa qualidade que torna este andamento o horizonte sonoro mais adequado para Instituições sem maldade, efeitos desumanos. Porque também aqui o que está em causa não é a violência ostensiva, mas a produção continuada de sofrimento por mecanismos racionais, funcionais e formalmente corretos. A música torna audível esse regime de funcionamento em que tudo parece manter-se dentro da ordem, e no entanto algo de profundamente inquietante persiste, se acumula e se torna estrutural.

Audição sugerida

Para quem não utiliza esta plataforma: Gustav Mahler — Sinfonia n.º 6, II Andamento, no YouTube

Quando ninguém é culpado, mas todos sofrem

Há um ponto em que a pergunta ética deixa de caber nas categorias habituais. Já não é quem fez mal nem quem decidiu injustamente. É algo mais perturbador: como é possível que tudo tenha sido feito corretamente e, ainda assim, o sofrimento seja produzido de forma sistemática.

Neste ponto surgem instituições que não odeiam, não perseguem, não pretendem ferir.

Funcionam.
Cumprem a lei.
Aplicam critérios.
Respeitam procedimentos.
E, no entanto, ferem.

O problema já não reside na intenção, mas no efeito acumulado. Um efeito que não pode ser atribuído a um agente isolado, a uma decisão singular ou a um momento excecional. O sofrimento emerge como resultado de uma cadeia longa de atos formalmente irrepreensíveis, de omissões justificadas, de linguagem adequada e de funcionamento contínuo.

Quando ninguém é culpado, mas todos sofrem, a ética fundada na imputação individual entra em colapso.

Porque foi pensada para atos visíveis, não para processos opacos. Para decisões declaradas, não para normalizações progressivas. Para sujeitos responsáveis, não para sistemas em que a responsabilidade se fragmenta, se desloca e, por fim, se evapora.

Estas instituições apresentam-se como racionais, imparciais, necessárias. Quando confrontadas com os seus efeitos, não negam o sofrimento — deslocam-no. Transformam-no em dado, em estatística, em limitação estrutural, em externalidade inevitável. O sofrimento é reconhecido, mas retirado do campo da decisão.

Regista-se.
Enquadra-se.
Prossegue-se.

É assim que a desumanização se torna compatível com a boa consciência.

Não há aqui atos deliberados de crueldade. Há decisões tomadas sobre categorias, nunca contra pessoas. Há critérios aplicados com rigor, nunca exclusões assumidas. Há vidas suspensas não por rejeição explícita, mas por adequação insuficiente.

Ninguém expulsa.
Ninguém nega.
Simplesmente não há lugar.

O resultado, porém, é sempre concreto: trajetórias interrompidas, existências mantidas em espera indefinida, corpos que permanecem fora do campo de visibilidade institucional. A violência não é dirigida a alguém; é produzida por um modo de funcionamento que não se interroga.

É precisamente por isso que esta forma de violência é tão resistente.

Porque interrompê-la exigiria algo que as instituições evitam: reconhecer que o problema não está numa falha pontual, mas na própria racionalidade que organiza o seu funcionamento. Exigiria admitir que aquilo que é eficiente pode ser eticamente devastador. Que a correção formal não garante justiça. Que a neutralidade pode ser uma forma altamente eficaz de cumplicidade.

Mas essa admissão comprometeria a coerência do sistema.

E a coerência é protegida a todo o custo.

Quanto mais fechado é o procedimento, menos espaço existe para o juízo. Quanto mais perfeita é a engrenagem, mais invisíveis se tornam os corpos que ficam presos nela. Quanto mais profissional é a linguagem, mais difícil se torna interromper o processo sem parecer irracional, emocional ou incompetente.

A ausência de maldade transforma-se, então, num argumento de absolvição.

“Ninguém quis isto.”
“Não era essa a intenção.”
“É assim que funciona.”

Estas frases não negam o sofrimento. Neutralizam-no. Tornam-no irrelevante para a decisão. O sofrimento passa a ser tratado como custo necessário, dano colateral, consequência inevitável de um sistema que não pode parar para responder a cada caso.

Aqui, a ética confronta-se com o seu limite mais severo.

Já não basta apelar à consciência individual. Já não basta exigir boa vontade, empatia ou sensibilidade. Já não basta corrigir comportamentos. O problema não reside na moral dos agentes, mas na arquitetura que permite agir sem ver, decidir sem responder, continuar sem assumir.

Produz-se, assim, uma violência sem rosto, sem autor identificável, sem momento de rutura.

Não provoca escândalo.
Produz desgaste.
Não gera indignação súbita.
Produz habituação.
Não convoca resistência imediata.
Produz normalidade.

E é essa normalidade que mais fere.

Porque o sofrimento persiste sem encontrar lugar de interpelação. Porque não há a quem pedir contas. Porque tudo parece inevitável, necessário, tecnicamente justificado. A violência deixa de ser percebida como tal e passa a ser o modo regular de funcionamento do mundo institucional.

Quando ninguém é culpado, mas todos sofrem, a pergunta ética já não pode ser adiada. Não é quem falhou, mas o que está a ser produzido enquanto tudo continua a funcionar. Não é quem fez, mas o que se torna possível quando a responsabilidade deixa de ter onde pousar.

Aqui não há reconciliação.
Não há síntese.
Não há absolvição.

Há apenas a recusa de continuar a chamar neutralidade ao que produz sofrimento. A recusa de aceitar como inevitável aquilo que resulta de escolhas acumuladas, protegidas por procedimentos e legitimadas pela linguagem correta.

Depois disto, não é possível regressar intacto.

© Manuela Ralha, 2026

Comentários

  1. Talvez uma das coisas mais perturbadoras neste texto seja precisamente essa ideia, a violência mais perigosa já nem precisa de agressividade, de ódio ou de intenção explícita.
    Basta um sistema demasiado habituado a si próprio.
    Demasiado protegido pela linguagem correta, pelos procedimentos, pela ideia de eficiência e normalidade.
    E de repente o sofrimento continua a existir, mas sem espaço para interromper a máquina. Sem rosto. Sem responsável. Sem escândalo suficiente para obrigar alguém a parar.
    O mais duro é perceber que a normalidade também pode ser violenta.
    E que há formas de desumanização que chegam impecavelmente vestidas de racionalidade. Assusta, não assusta?

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    1. Muito obrigada por este comentário, tão claro, tão fundo e tão inquietante.
      Tocaste num ponto que me parece absolutamente central: talvez uma das formas mais perturbadoras de violência contemporânea seja precisamente esta — a que já não precisa de agressividade explícita, de ódio declarado ou sequer de intenção visível. Basta-lhe um sistema suficientemente habituado a si próprio, suficientemente protegido pela sua linguagem, pelos seus procedimentos e pela sua ideia de normalidade.
      É isso que torna esta forma de desumanização tão difícil de enfrentar. Não porque seja menos real, mas porque chega sem escândalo, sem excesso, sem ruptura evidente. Surge impecavelmente vestida de racionalidade, de correção formal, de eficiência, e é justamente por isso que consegue continuar a funcionar sem ser imediatamente interrompida.
      A tua formulação parece-me muito forte: o sofrimento continua a existir, mas já não encontra espaço para travar a máquina. E talvez seja esse um dos aspetos mais duros de reconhecer — que a normalidade, quando deixa de se interrogar a si própria, pode tornar-se um dos lugares mais eficazes da violência.
      Sim, assusta. Assusta precisamente porque mostra até que ponto o desumano pode instalar-se sem perder a compostura, sem levantar a voz e sem se confessar como tal.
      Agradeço-te muito a lucidez deste comentário. Disseste com grande precisão aquilo que o ensaio procurava pensar.

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  2. Em qualquer estrutura, o elo mais fraco é o funcionário — aquele que atende o público, vê o sofrimento, mas diz: "Eu queria ajudar, mas o sistema não deixa".
    O "critério aplicado com rigor" funciona como um escudo moral. O burocrata que carimba a negação não se sente um carrasco; ele sente-se um profissional exemplar, um guardião da ordem. O rigor técnico substitui a moralidade.
    E no pior disto tudo é que ficam muitas vidas suspensas". Esta é a pior parte. Na rejeição explícita, há um encarceramento, um luto, uma reação possível. Na "adequação insuficiente", a pessoa é colocada numa sala de espera eterna, presa num ciclo de "análise", "revisão de documentos" ou "aguardando parecer". O sistema não te diz não; ele diz-te ainda não, até que alguém desista pelo cansaço. 🙄

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    1. Muito obrigada por este comentário tão preciso.

      Tocou num ponto central do ensaio: a forma como o sistema consegue deslocar a responsabilidade para o elo mais visível e mais frágil, protegendo a estrutura por trás da correção do procedimento. E a sua formulação sobre o “ainda não” parece-me particularmente forte. Há, de facto, uma violência própria nessa suspensão indefinida, nessa espera sem fim, nesse desgaste que acaba por fazer da desistência uma forma silenciosa de exclusão.

      Agradeço-lhe muito a clareza e a força desta leitura.

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    2. Obrigado eu por ter criado estes ensaios 😁🙏
      Queria dar-lhe os parabéns pelos ensaios escritos até agora.
      É raro encontrarmos textos que nos façam parar e olhar para o que está mesmo à nossa frente, mas que a rotina teima em tornar invisível. Os seus ensaios têm esse dom: trazem luz a situações tão próximas de nós que nem nos apercebemos do impacto que têm.
      Mais do que nos fazer ver, obrigada por nos fazer sentir que não somos apenas espectadores. Ler-lhe recorda-nos de que até podemos ter algum controlo sobre certas situações e de que, até certo ponto, podemos mesmo alterar o rumo das coisas. É um despertar necessário.
      Bem haja 😁🙏

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