A Gramática do Humano | Palavra XIII — ESPERANÇA - Parte II

Legenda da imagem

A chave ocupa o centro simbólico desta imagem. Assenta sobre uma planta, não sobre um mapa acabado: não abre uma porta já dada, exige que se pensem e construam as condições de entrada. O fio dourado que a atravessa liga-a à esperança como responsabilidade concreta — não a esperança que espera pelo futuro, mas a que trabalha para que o futuro possa ser habitado.

À esquerda, os livros de Gabriel Marcel, Primo Levi, Hannah Arendt, Paulo Freire, Walter Benjamin, José Saramago e José Tolentino Mendonça desenham uma comunidade de pensamento. Entre a fidelidade aos gestos pequenos, a memória do sofrimento, o valor do mundo comum, a participação, os direitos e a responsabilidade por quem vem depois, todos recusam a ideia de que a esperança seja um sentimento privado. Ela pede presença, educação, justiça e uma atenção vigilante àquilo que permite ou impede uma vida digna.

As palavras que formam a constelação — fidelidade, presença, mundo, participação, direitos, futuro e responsabilidade — acompanham os três últimos andamentos desta Palavra XIII. No Andamento III, a esperança reconhece-se nos gestos que não abandonam; no IV, ganha corpo nas condições materiais, sociais e políticas que tornam a vida possível; no V, abre-se ao futuro como tarefa partilhada. A partitura de Bach, a escrita e a chave convergem nesse mesmo sentido: nenhuma esperança se sustenta apenas no desejo. Precisa de mãos, de mundo e de uma decisão coletiva de não deixar ninguém reduzido a sobreviver.

Ambiente sonoro para o Andamento III Johann Sebastian Bach, A Arte da Fuga, BWV 1080 — Fretwork

Para o andamento III — A pequena fidelidade dos gestos, a sugestão é o Contrapunctus V, a 4, na interpretação da Fretwork. A fuga trabalha um mesmo material em espelho e variação: a figura regressa, transformada, sem perder a sua identidade. Nas violas da gamba, a repetição não é automatismo; torna-se escuta daquilo que se confirma no tempo. É por isso que acompanha este andamento, onde a esperança se revela na precisão de quem cumpre, regressa e sustenta uma presença sem exigir resultados imediatos. Uma promessa começa a tornar habitável o futuro quando ganha corpo em gestos que alguém pode reconhecer e esperar.

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III — A pequena fidelidade dos gestos

Uma promessa altera a experiência do tempo quando deixa de ser apenas uma frase e começa a organizar a conduta de alguém. A pessoa que diz que regressará e regressa, que assume um compromisso e avisa quando não o pode cumprir, introduz uma regularidade diferente da repetição do abandono. O gesto pode parecer pequeno a quem o realiza, mas ser decisivo para quem já não se atrevia a contar com ninguém. Não produz imediatamente confiança, nem tem o direito de a exigir como recompensa. Oferece uma experiência que poderá, devagar, tornar menos necessária a vigilância permanente.

Gabriel Marcel, em Homo Viator, situa a esperança num plano que não se esgota na expectativa de obter um resultado determinado. A sua reflexão liga-a à comunhão e à disponibilidade para o outro, distinguindo-a da pretensão de controlar o que virá. O horizonte cristão da sua filosofia não deve ser ocultado; também não impede que a sua análise ilumine uma experiência partilhável: certas possibilidades só se tornam habitáveis porque alguém se dispõe a atravessá-las connosco. A esperança deixa, assim, de parecer propriedade de uma consciência isolada e revela a dimensão de relação que a sustenta.7

Pensemos em alguém que perdeu a capacidade de imaginar o mês seguinte. Uma presença atenta não precisa de lhe apresentar um projeto de vida. Pode começar por combinar uma tarefa limitada, voltar à hora anunciada, acompanhar uma deslocação ou respeitar um silêncio sem o transformar numa ofensa. O conteúdo de cada gesto é modesto, mas a sua continuidade permite que o dia seguinte contenha alguma coisa além daquilo que se teme. Não se trata de fabricar dependência, nem de ocupar o lugar da vontade alheia. Trata-se de tornar possível uma experiência de confiança da qual a pessoa possa, mais tarde, apropriar-se à sua maneira.

Em Se Isto É um Homem, Primo Levi recorda a ajuda de Lorenzo Perrone, que lhe levava alimento em Auschwitz. O significado dessa ajuda ultrapassava a sobrevivência física: a conduta de Lorenzo conservava a experiência de uma humanidade que o campo procurava destruir.8 Não devemos extrair daqui uma explicação que atribua a sobrevivência à superioridade moral de quem resistiu, nem uma compensação para o horror. O testemunho permite reconhecer algo mais circunscrito e exigente: uma pessoa pode sustentar noutra a relação com o humano quando a violência procura torná-la impossível. O alimento não representava a bondade; era a sua realização material, recebida por um corpo com fome.

A pequena fidelidade tem, portanto, uma exigência de precisão. Prometer mais do que podemos realizar pode ser uma maneira de aliviar o nosso desconforto à custa da expectativa de quem escuta. É mais responsável assegurar uma presença limitada e efetiva do que anunciar uma disponibilidade sem fronteiras que desaparecerá perante a primeira dificuldade. Quem já conheceu o abandono não precisa de uma linguagem grandiosa; precisa de saber o que pode esperar daquela pessoa, em que circunstâncias, durante quanto tempo. A verdade dos limites também protege a esperança, porque impede que ela seja alimentada por uma dívida que ninguém está disposto a reconhecer.

Estar atento a uma possibilidade não equivale, contudo, a impor um progresso. Uma pessoa não deixa de merecer acompanhamento porque a sua vida não apresenta a evolução que esperávamos, nem deve gratidão sob a forma de uma recuperação capaz de confirmar a eficácia de quem a ajudou. A esperança não pode converter-se num calendário de exigências colocado sobre alguém já ferido. É preciso admitir que a relação conserve valor mesmo quando aquilo que desejávamos não acontece, sem reduzir a pessoa à obrigação de nos mostrar que valeu a pena permanecer.

O cuidado perde a sua orientação quando transforma o outro numa prova do nosso mérito. Isso pode acontecer sem crueldade deliberada: passamos a valorizar sobretudo os sinais de melhoria, mostramos desilusão perante um recuo, insistimos em que a pessoa reconheça o quanto já avançou. Aos poucos, ela aprende a proteger-nos da sua verdade e a representar um bem-estar que não sente. Uma esperança partilhada precisa de suportar notícias difíceis, a repetição de uma pergunta e a possibilidade de um período sem mudança visível. A continuidade da relação não pode estar condicionada à apresentação regular de resultados.

A ficção de José Saramago submete esta continuidade a uma prova extrema. Em Ensaio sobre a Cegueira, podemos ler a esperança nos vínculos que se conservam ou formam quando a ordem social se degrada. A mulher do médico não elimina a violência que presencia; a sua capacidade de ver expõe-na a uma responsabilidade que não escolheu.9 O romance não autoriza a identificar a deficiência com uma falha moral das pessoas reais. Interroga, através da sua situação ficcional, a conduta de quem pode perceber o sofrimento e a de quem se habitua a não responder. A possibilidade humana permanece comprometida, incerta, dependente de atos que ninguém realiza a partir de uma inocência intacta.

Hannah Arendt oferece outra perspetiva ao ligar a ação à natalidade, a capacidade humana de iniciar algo que não é inteiramente dedutível do que aconteceu antes. Esse começo não pertence a uma vontade soberana: realiza-se entre pessoas, num mundo plural, e desencadeia consequências que ninguém controla por completo.10 Pensar a esperança a partir daqui obriga-nos a abandonar a fantasia de recomeçar fora da história. Começamos com outros, dentro de circunstâncias recebidas, sujeitos à resposta e à iniciativa de quem não vemos apenas como destinatário da nossa ação.

Um começo pode, por isso, ter uma forma pouco reconhecível para quem o esperava. Uma pessoa por quem os outros sempre decidiram pode começar por recusar a ajuda tal como lhe é oferecida. Uma criança habituada a não contar pode interromper uma conversa. Alguém que permaneceu numa relação por medo pode finalmente sair. Nenhum destes atos corresponde necessariamente à tranquilidade de quem acompanha, mas todos podem exprimir uma recuperação de autoria. Esperar pelo outro exige aceitar que a sua vida se torne mais sua, incluindo quando essa apropriação contraria o lugar que tínhamos reservado para nós nela.

Não devemos, contudo, transformar os gestos pequenos numa desculpa para aceitar injustiças grandes. A boa vontade de uma professora não substitui os recursos de que a escola precisa; a dedicação de uma família não dispensa serviços de apoio; a atenção de um profissional não torna aceitável um sistema organizado sobre o seu esgotamento. O gesto singular tem valor próprio, mas fica ameaçado quando é chamado a compensar indefinidamente a ausência de condições coletivas. Quem cuida também precisa de continuidade, remuneração, descanso e pessoas a quem possa confiar parte do trabalho sem sentir que está a abandonar quem depende dele.

O que estes gestos mostram é que a esperança tem uma dimensão verificável: transforma, ainda que limitadamente, aquilo com que alguém pode contar. A sua força não está em anunciar um amanhã extraordinário, mas em tornar o tempo menos exposto à arbitrariedade. Uma relação confiável permite assumir riscos que o isolamento tornaria insuportáveis; uma prática repetida de escuta permite dizer o que antes precisava de ficar escondido. Quando a fidelidade adquire duração, já não temos apenas um gesto generoso. Temos uma pequena transformação do mundo de alguém, e essa transformação pergunta como poderá deixar de depender de uma exceção.

Ambiente sonoro para o Andamento IV Johann Sebastian Bach, A Arte da Fuga, BWV 1080 — Fretwork

Para o andamento IV — A esperança precisa de mundo, a sugestão é o Contrapunctus VII, a 4 per Augmentationem et Diminutionem, na interpretação da Fretwork. As vozes afirmam o mesmo desenho em diferentes durações — umas alargadas, outras encurtadas — e Bach constrói unidade sem apagar a diferença de escalas. A música torna audível o desencontro entre tempos: o da necessidade imediata, o da decisão pública e o da transformação que exige continuidade. Por isso acompanha este andamento, onde a esperança não se pode apoiar apenas na força individual; precisa de instituições, direitos e condições que permitam a cada vida projetar-se para além da urgência.

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IV — A esperança precisa de mundo

A pergunta leva-nos para além das relações próximas. A capacidade de imaginar futuro não se distribui independentemente das condições de vida. Quem dispõe de habitação estável, rendimento suficiente, apoios e tempo pode elaborar projetos que exigem demora, suportar alguns fracassos e tentar de novo. Quem vive sob ameaça constante precisa de usar grande parte da sua atenção para impedir a perda imediata do que tem. Não se trata de atribuir maior riqueza interior a uns ou de negar a iniciativa dos outros. Trata-se de reconhecer que a possibilidade de se projetar tem custos e apoios que os discursos sobre motivação frequentemente deixam de fora.

A desigualdade também se manifesta no direito a falhar. Para algumas pessoas, um erro constitui uma experiência corrigível; para outras, compromete a permanência numa casa, a continuidade dos estudos ou o acesso a um trabalho. Pedir a todos a mesma disposição para arriscar é ignorar a diferença entre as consequências que terão de suportar. Uma política que favoreça a esperança precisa de criar condições de recuperação, não apenas oportunidades iniciais. O recomeço torna-se privilégio quando só está disponível a quem conserva recursos depois de uma queda. A dignidade de uma vida não pode depender de um percurso sem interrupções.

Clarice Lispector torna dolorosamente visível esta distância em A Hora da Estrela. Macabéa recebe de uma cartomante a promessa de uma vida transformada, pouco antes do atropelamento que interrompe esse futuro imaginado. Podemos ler nesse contraste uma advertência: anunciar felicidade não equivale a alterar as condições de abandono em que alguém existe.11 Reduzir Macabéa a uma figura de esperança pura seria suavizar a violência do romance e converter a privação em virtude. A sua vida não nos pede admiração pela capacidade de desejar tão pouco; interpela o mundo que tão pouco lhe permitiu reconhecer como possível.

Paulo Freire, em Pedagogia da Esperança, reconhece na esperança uma necessidade humana fundamental, mas insiste em que ela precisa de se enraizar na prática. A expectativa, por si só, não transforma a realidade. Esta ligação impede tanto o fatalismo como a crença de que o desejo basta para produzir o que anuncia.12 No campo educativo, a questão torna-se concreta: não podemos pedir a uma criança que acredite na sua capacidade de aprender enquanto mantemos intactas as condições que a impedem de participar. A confiança na pessoa exige trabalho sobre o mundo que a recebe, e não apenas palavras sobre o seu potencial.

Uma escola constrói futuro quando permite que o aluno seja mais do que a previsão feita a seu respeito. Isso envolve ensinar, exigir, adaptar percursos e reconhecer dificuldades sem as converter numa descrição definitiva de quem aprende. Exige também que a diferença entre modos de comunicar não seja confundida com ausência de pensamento. Quando uma criança encontra uma forma de se expressar que os outros finalmente reconhecem, não nasceu nesse instante a sua vida interior; mudou a capacidade do mundo para a escutar. A esperança pertence também a essa revisão do olhar, pela qual deixamos de atribuir ao outro o limite dos meios que lhe oferecemos.

Na vida das pessoas com deficiência, esta distinção afasta a esperança de uma narrativa de superação individual. O futuro não pode ficar suspenso até que um corpo se aproxime de um padrão de normalidade. Uma cidade acessível, a assistência necessária, a comunicação em formatos adequados e a participação nas decisões tornam possíveis escolhas que a determinação pessoal, sozinha, não consegue realizar. A questão não é admirar quem atravessa obstáculos que poderiam ter sido removidos; é reconhecer o que continua a ser-lhe negado. Uma vida não deve gastar a sua energia inteira a demonstrar que merece entrar onde os outros entram sem precisar de explicar a sua presença.

O Papa Francisco, em Fratelli tutti, dá expressão pública a esta exigência ao relacionar a fraternidade com a organização da sociedade. No parágrafo 186, distingue a ajuda direta da ação que transforma as condições produtoras de sofrimento, reconhecendo valor a ambas. A sua crítica à cultura do descarte e a sua compreensão do amor político deslocam o cuidado para o terreno das instituições.13 Nesta leitura, podemos pensar a esperança como responsabilidade por criar condições que não deixem a vida dependente da ocasião de encontrar alguém generoso. O direito precisa de continuidade, mesmo quando falta a proximidade afetiva.

Essa continuidade decide-se em matérias pouco celebradas: um serviço que explica os critérios da decisão, um apoio que não desaparece sem transição, um pedido que não obriga a contar repetidamente a mesma dor a interlocutores sucessivos. O problema não é apenas a demora, já referida, mas o modo como a pessoa é tratada durante ela. Ser informada, poder contestar, saber quem responde e não ser penalizada por perguntar são formas de conservar a sua posição de sujeito. Uma instituição alimenta a desesperança quando transforma a necessidade de ajuda numa situação em que se perde também o direito à palavra.

Nelson Mandela inscreveu a esperança num compromisso público ao afirmar, no discurso de tomada de posse de 10 de maio de 1994, a necessidade de enfrentar as feridas do apartheid e construir uma sociedade onde a dignidade não dependesse da cor da pele. O seu apelo ligava a reconciliação à libertação da pobreza, da privação e da discriminação.14 Importa lê-lo sem o reduzir à bondade extraordinária de um indivíduo, como se a transformação política dispensasse lutas coletivas, negociação e instituições. O alcance desse momento reside também na obrigação que enuncia: uma nova ordem só pode ser julgada pelo que permite viver, e não apenas pelo que consegue celebrar.

A reconciliação pública torna-se, assim, uma tarefa sujeita a verificação, não um sentimento que o poder possa exigir. Uma sociedade não ultrapassa a violência porque passou a falar dela no passado. Precisa de examinar as desigualdades que persistem, as vantagens herdadas e os obstáculos que continuam a selecionar quem pode participar. Também não pode pedir às pessoas atingidas que deem provas de confiança antes de produzir razões para essa confiança. O recomeço coletivo exige uma distribuição diferente de voz e de possibilidades; caso contrário, a linguagem da união limita-se a tornar inconveniente a recordação do que permanece por reparar.

Participar é, neste sentido, mais do que ser consultado depois de as decisões essenciais terem sido tomadas. Significa poder formular o problema, discutir prioridades, avaliar consequências e alterar o curso de uma resposta. Uma comunidade que só admite a experiência dos seus membros como ilustração de decisões alheias não lhes reconhece plena cidadania. A esperança ganha consistência quando as pessoas percebem que a sua intervenção pode produzir efeitos, ainda que nem sempre prevaleça. Ser escutado não é obter sempre razão; é não descobrir que o resultado estava fechado antes de a conversa começar.

Construir condições de esperança não significa prometer uma existência protegida de toda a adversidade. Significa reduzir a parte do sofrimento que decorre de barreiras evitáveis e assegurar que uma dificuldade não expulsa automaticamente a pessoa da vida comum. O mundo de que a esperança precisa inclui recursos, mas também uma certa relação com o tempo e com o valor humano: oportunidades que não caducam todas na juventude, formas de pertença que não dependem da produtividade, apoios que não exigem humilhação. Uma sociedade torna-se mais habitável quando permite que as pessoas desejem alguma coisa para além de conseguir sobreviver à próxima exigência.

Ambiente sonoro para o Andamento V Johann Sebastian Bach, A Arte da Fuga, BWV 1080 — Fretwork

Para o andamento V — O futuro como responsabilidade, a sugestão é a Fuga a 3 Soggetti, o Contrapunctus XIV, na interpretação da Fretwork. Bach faz entrar três sujeitos e conduz a composição para uma densidade crescente, até à interrupção que a deixa sem conclusão. O inacabamento não oferece uma resolução imaginária; entrega-nos uma tarefa. Por isso acompanha este último andamento: o futuro não é uma posse nem uma promessa de conforto, mas a responsabilidade de criar condições para uma liberdade que continuará depois de nós. A fuga detém-se no limiar, como esta palavra, que se abre agora à Palavra XIV — Amor.

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V — O futuro como responsabilidade

O futuro não começa apenas quando chega. Começa nas decisões que tornam algumas vidas mais livres e outras mais dependentes, nas condições que preservamos e nos danos cujas consequências deixamos para depois. A responsabilidade por ele não exige que saibamos antecipar tudo; exige que não usemos a incerteza como licença para ignorar o que já podemos reconhecer. Entre a previsão impossível e a despreocupação existe a obrigação de examinar os efeitos dos nossos atos, sobretudo quando recaem sobre pessoas que não participaram na decisão e não dispõem dos mesmos meios para se proteger.

Esta responsabilidade não se dirige exclusivamente a quem virá. Em Sobre o Conceito de História, Walter Benjamin recusa a ideia de um progresso que torna aceitáveis as perdas acumuladas pelo caminho. A sua atenção aos vencidos e à exigência que o passado coloca ao presente impede uma esperança satisfeita apenas com o futuro dos vencedores.15 Não estamos perante uma lei de compensação pela qual o sofrimento produziria necessariamente redenção. A leitura que aqui propomos é ética e política: aquilo que foi destruído não se torna justo porque outra coisa veio depois, e as possibilidades que foram violentamente interrompidas continuam a interpelar a nossa maneira de construir o comum.

Podemos aproximar Benjamin, Arendt e Freire a partir desta exigência, sem lhes atribuir uma doutrina única. Benjamin obriga a perguntar quem ficou fora da história celebrada; Arendt permite pensar a iniciativa que rompe uma repetição; Freire exige que a abertura se traduza numa prática transformadora. A esperança surge, nesta articulação, como resistência ao encerramento da história: não aceita que a vitória passada prove a justiça de quem venceu, que o presente esgote o possível ou que a transformação pertença apenas àqueles que já dispõem de poder. A memória torna o começo responsável, e a ação impede que a memória se limite a uma cerimónia sem consequências.

Transmitir uma história é uma das formas concretas dessa responsabilidade. Podemos deixar às novas gerações uma narrativa em que os direitos parecem ter surgido espontaneamente, ou mostrar o trabalho, os conflitos e as vidas que a sua conquista exigiu. A segunda possibilidade não lhes impõe que repitam as nossas lutas. Dá-lhes meios para compreender que as instituições resultam de escolhas humanas e podem ser defendidas, criticadas e alteradas. Uma herança torna-se opressiva quando exige fidelidade à sua forma; torna-se fecunda quando permite reconhecer o que merece continuar e decidir o que precisa de ser transformado.

Também a relação com a terra torna impossível restringir o cuidado ao tempo da nossa presença. Em Laudato si’, Francisco inclui as gerações futuras no bem comum e trata a transmissão de um mundo habitável como questão de justiça, não como generosidade facultativa.16 A esperança adquire aqui uma dimensão material que nenhuma retórica pode substituir: depende do que se preserva, do que se repara e dos custos que não se transferem silenciosamente para quem chegará depois. Amar os descendentes próximos enquanto se aceita destruir as condições partilhadas da sua vida seria separar o afeto das consequências que lhe deveriam corresponder.

Não se trata de exigir a cada pessoa que assuma uma responsabilidade indistinta por tudo. O poder de decisão, os recursos e a capacidade de causar dano não estão distribuídos de maneira igual. A obrigação de quem governa ou dirige uma instituição não é idêntica à de quem procura assegurar o quotidiano com meios escassos. Confundir estas posições produz culpa onde deveria produzir exigência pública. A esperança precisa de responsabilidades proporcionais e identificáveis, para que o apelo ao compromisso de todos não dissolva a prestação de contas daqueles cujas decisões têm maior alcance.

Uma dificuldade mais íntima permanece: muitos dos efeitos daquilo que fazemos não serão visíveis durante a nossa vida. A pessoa que ensinou não acompanhará todos os destinos dos seus alunos; quem defendeu uma mudança pode não chegar a beneficiar dela; quem cuidou de uma memória não saberá quem a receberá. Aceitar esta distância é renunciar à posse dos resultados, não à sua importância. O valor de uma ação não desaparece por não regressar ao seu autor sob a forma de reconhecimento. Podemos preparar condições de liberdade que outros usarão de modos que não previmos, e é precisamente essa autonomia que torna a transmissão diferente do prolongamento de nós próprios.

José Tolentino de Mendonça aproxima a reconstrução da gramática do humano da escuta da vida real e de uma fraternidade entendida como decisão, não como automatismo.17 A sua perspetiva cristã permite acrescentar, neste ponto, uma interrogação que a nossa travessia também reconhece: que valor teria a esperança proclamada se permanecêssemos indisponíveis para a pessoa que a põe à prova? O futuro de que falamos não é uma entidade separada dos encontros presentes. Começa a adquirir conteúdo quando consentimos que a existência de alguém altere as nossas prioridades, o uso do tempo e aquilo que estamos dispostos a defender.

Esse consentimento torna-se mais difícil quando não existe recompensa previsível. É relativamente fácil apoiar um recomeço que promete êxito, admirar quem corresponde às nossas expectativas ou oferecer confiança a quem já reúne condições para a confirmar. A esperança é mais exigente diante de uma vida que continuará dependente, de uma relação cuja reparação será incompleta ou de uma pessoa que não nos pode assegurar que não voltará a falhar. Isso não obriga a abdicar de limites, nem a expor-nos novamente à violência. Obriga a distinguir a proteção necessária da sentença que declara alguém definitivamente excluído de qualquer possibilidade humana.

Voltamos, assim, ao lugar aberto pelo perdão, mas com uma pergunta que já não é apenas sobre o passado. Que fazemos da vida que continua, incluindo quando não sabemos reconciliá-la com a nossa ideia de como deveria ser? A esperança não fornece uma resposta antecipada a cada situação. Sustenta o trabalho de procurar condições em que ninguém seja reduzido ao seu pior ato, à sua maior perda ou àquilo que deixou de conseguir fazer. Esse trabalho exige justiça e discernimento; exige igualmente uma disponibilidade que não depende de poder demonstrar, de antemão, que o outro corresponderá.

É nesta disponibilidade que a esperança se aproxima do amor. O futuro deixa de ser apenas aquilo que desejo para mim e passa a incluir uma existência cuja liberdade não controlo, mas cujo abandono já não me é indiferente. Não sei tudo o que será possível, não posso impedir todas as perdas e não tenho o direito de decidir pelo outro o sentido da sua vida. Posso, contudo, responder pela maneira como a recebo e pelas condições que ajudo a criar para que continue a ser sua. A passagem ao amor faz-se neste compromisso: a pessoa permanece digna do nosso cuidado mesmo quando já não consegue prometer-nos um futuro que nos console.

Referências de leitura

7. Gabriel Marcel, Homo Viator. Contextualização da esperança, da comunhão e da fidelidade: «Gabriel (-Honoré) Marcel», Stanford Encyclopedia of Philosophy, em especial a secção sobre esperança. Consultar

8. Primo Levi, Se Isto É um Homem. Passagem sobre Lorenzo Perrone reproduzida na exposição de Yad Vashem sobre os Justos entre as Nações em Auschwitz. Consultar

9. José Saramago, Ensaio sobre a Cegueira, 1995. Contextualização pelo autor: entrevista a Clara Ferreira Alves, originalmente publicada no Expresso, recuperada em «30 anos de cegueira branca», Blimunda, Fundação José Saramago, 5 de novembro de 2025. Consultar

10. Hannah Arendt, A Condição Humana, 1958. Contextualização dos conceitos de ação, natalidade e pluralidade: «Hannah Arendt», Stanford Encyclopedia of Philosophy, secção 4.3. Consultar

11. Clarice Lispector, A Hora da Estrela, 1977. Para localização do episódio da cartomante e do desfecho: síntese da obra, UOL. Consultar

12. Paulo Freire, Pedagogia da Esperança: Um Reencontro com a Pedagogia do Oprimido, 1992. Apresentação editorial da tradução inglesa, Bloomsbury Academic. Consultar

13. Papa Francisco, Fratelli tutti, 3 de outubro de 2020, em especial os parágrafos 18, 55 e 186–188. Consultar

14. Nelson Mandela, discurso de tomada de posse, Pretória, 10 de maio de 1994. Texto integral disponibilizado pela agência pública sul-africana SAnews. Consultar

15. Walter Benjamin, Sobre o Conceito de História, 1940, em especial as teses II, VI, VII e IX. Tradução inglesa, Marxists Internet Archive. Consultar

16. Papa Francisco, Laudato si’, 24 de maio de 2015, parágrafos 159–160, sobre justiça entre gerações e transmissão de um mundo habitável. Consultar

17. José Tolentino de Mendonça, intervenções em Madrid e Salamanca relatadas em «Mais escuta e menos abstrações, mais fraternidade e menos medo, mais coração e menos egoísmo», Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura. Consultar

© Manuela Ralha, 2026

Comentários

  1. Querida amiga Manuela Ralha.
    Só agora consegui ler mais um dos seus ensaios, e desta vez, sobre a Esperança e o Andamento III — A pequena fidelidade dos gestos com o coração sobressaltado. Li-o não como quem consome literatura, mas como quem continua a encontrar nos seus ensaios, um espelho para a minha própria carne. Mais um ensaio em que é a tradução exata, diária e dolorosa de cada linha que escreveu.
    Todos os dias visto uma farda e saio à rua com uma missão que a esmagadora maioria das pessoas desconhece. O meu território não é o crime espetacular das notícias, é o silêncio das casas onde os nossos idosos esperam pela morte sem que ninguém lhes abra a porta, é o olhar vulnerável das crianças que precisam de perceber que a autoridade pode ser sinónimo de abrigo, é o isolamento das pessoas com deficiência, tantas vezes invisíveis na sua cidadania.
    Quando a Manuela escreve que "uma promessa altera a experiência do tempo quando deixa de ser apenas uma frase e começa a organizar a conduta de alguém", descreve o meu método de trabalho. No policiamento comunitário, a segurança não se faz com armas, faz-se com a regularidade da presença. O idoso isolado não precisa que eu lhe prometa resolver a sua solidão estrutural, precisa de saber que, na próxima terça-feira, à hora exata combinada, aquela farda vai voltar a aparecer à sua porta apenas para o escutar. É a precisão do gesto modesto que vence a repetição do abandono.Mas este ensaio toca-me num lugar ainda mais profundo, onde a farda cai e sobra apenas o homem. O de ser pai de uma criança com deficiência.É na minha casa que a sua reflexão sobre Gabriel Marcel e Primo Levi se torna o meu oxigénio. O cuidado diário da minha filha ensinou-me, pela força da realidade, que "o cuidado perde a sua orientação quando transforma o outro numa prova do nosso mérito". A sociedade, na sua pressa utilitarista, exige sempre resultados, métricas de evolução, progressos visíveis. Mas a deficiência da minha filha libertou-me dessa ilusão. Ela não me deve uma recuperação linear para provar que sou um bom pai.Como as violas da gamba de Bach no Contrapunctus V, a nossa vida em casa é feita de uma repetição que nunca é automatismo, mas sim escuta e confirmação do amor no tempo. Há dias em que recuamos. Há dias de silêncio denso. Há períodos sem qualquer mudança visível. E é aí, precisamente aí, que a esperança se torna uma decisão coletiva e uma tarefa partilhada. Aprender a suportar a verdade dos limites da minha filha, sem deixar de estar presente, é a maior exigência ética da minha vida.A chave sobre a planta, e não sobre o mapa acabado, com que a Manuela abre o texto, é o desenho perfeito da minha existência. Como OPC, tento construir na rua as condições para que os mais frágeis possam habitar o futuro. Como pai, seguro na mão da minha filha todos os dias, sem um mapa que me garanta onde vamos chegar, mas com a certeza absoluta de que ela não será reduzida a sobreviver.
    Obrigado por dar palavras e partitura à minha farda e ao meu berço.
    A esperança não é um sentimento privado, tem mãos, tem mundo, e no meu caso, tem a consistência de quem decidiu não deixar ninguém para trás.
    Beijinhos minha querida amiga 🙏
    Continuo consigo👍

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    1. Meu querido Marco,
      As suas palavras ficaram comigo. Levam-nos à pergunta que atravessa esta parte da esperança: o que fazemos quando a vida de alguém pede mais tempo, mais cuidado e mais atenção — e o mundo responde com pressa, distância ou silêncio?
      A esperança não apaga essa realidade, mas recusa tratá-la como inevitável. Ninguém deveria ter de provar a sua utilidade, a sua autonomia ou o seu progresso para merecer presença, respeito e um lugar inteiro no mundo.
      É por isso que a esperança não pode ser apenas íntima. Pede relações que não abandonem, instituições capazes de cuidar e uma responsabilidade coletiva por quem tantas vezes fica invisível. O sofrimento não deve ser romantizado: deve ser levado a sério.
      Obrigada, Marco, por dar a esta reflexão uma verdade tão humana. É bom saber que continua desse lado, a pensar comigo.
      Beijinhos grandes, meu querido amigo.

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