A Gramática do Humano | Palavra XIII — ESPERANÇA - Parte I
Legenda da imagem
A bússola aberta ocupa o lugar da taça partida. Não oferece um mapa, nem promete a chegada; orienta sem decidir pelo caminho. O fio dourado que nasce do seu centro atravessa a mesa de trabalho e liga a esperança a algo mais exigente do que o consolo: à capacidade de não deixar que a dor governe sozinha.
À esquerda, os livros de Camus, Bloch, Steiner, Martin Luther King Jr. e Havel recordam que a esperança não é evasão da realidade. Aprende com o absurdo, reconhece o possível, insiste no poder da linguagem, recusa esperar passivamente pela justiça e mantém-se fiel a um compromisso mesmo quando o resultado não está assegurado. A pauta de Bach, o tinteiro, a luz e as palavras que rodeiam a imagem — lucidez, possível, tempo, ação, justiça, cuidado e responsabilidade — pertencem todos à mesma gramática: o futuro não se recebe; constrói-se.
Nesta primeira parte da Palavra XIII — Esperança, a imagem acompanha dois movimentos do texto. No primeiro, a lucidez recusa confundir o desejável com o provável; no segundo, a esperança responde ao cinismo não com ingenuidade, mas com a decisão de distinguir, corrigir e agir. A bússola não apaga a noite. Indica apenas que ainda podemos caminhar sem entregar a última palavra à ferida.
Introdução — Continuar depois da verdade
Depois do perdão, a vida não regressa necessariamente ao lugar onde estava. A verdade pode ter sido reconhecida, a responsabilidade assumida, alguma reparação iniciada, e continuar a faltar uma maneira de habitar os dias. O que aconteceu já tem nome, mas o que virá ainda não tem forma. Entre estes dois tempos, uma pessoa pode sentir que compreendeu a sua história sem ter recuperado a possibilidade de a continuar. É nesse intervalo que a esperança precisa de ser pensada, com a gravidade de quem sabe que reconhecer uma ferida não equivale a dispor do seu futuro.
A sequência desta gramática não estabelece, porém, uma condição que a vida teria de cumprir. Ninguém precisa de perdoar para ter direito a um amanhã; ninguém está obrigado a reconciliar-se com quem o feriu para voltar a desejar. Colocar a esperança depois do perdão significa recolher as perguntas que ele deixou abertas, não fazer depender dele a continuação de uma existência. Também quem não pode ou não quer perdoar conserva inteira a possibilidade de reconstruir a sua vida, de encontrar relações que não reproduzam o dano e de receber cuidado sem prestar contas da sua disponibilidade para absolver.
O problema é mais difícil do que a recuperação de um ânimo perdido. Quando a violência, a perda ou a humilhação atravessam uma vida, podem atingir a própria relação com o tempo. O amanhã deixa de ser um lugar onde alguma coisa se prepara e passa a ser aquilo de que nos defendemos. Antecipamos a repetição, desconfiamos do que começa, reduzimos os desejos à medida do que parece suportável perder. A esperança terá de se aproximar desta experiência sem lhe chamar fraqueza, porque a recusa de esperar pode ter sido, durante muito tempo, a única proteção disponível.
Não lhe basta, por isso, anunciar possibilidades. Precisa de interrogar as condições em que alguém volta a reconhecê-las como suas. Uma vida não recupera futuro apenas porque lhe dizem que o tem; precisa de encontrar razões para deixar de se proteger de tudo o que ainda não aconteceu. Essas razões podem nascer de uma relação, de um direito finalmente exercido, de uma decisão que interrompe uma injustiça ou da experiência discreta de voltar a desejar sem sentir que esse desejo constitui uma imprudência.
Ao longo desta palavra, a esperança será examinada nessa dupla exigência: como relação íntima com um tempo que permanece incerto e como responsabilidade pública por aquilo que tornamos possível aos outros. Não se trata de escolher entre o trabalho interior e a transformação do mundo, pois ambos se encontram na vida concreta. Uma pessoa pode precisar de tempo para voltar a confiar; uma sociedade pode precisar de mudar para merecer essa confiança. A esperança perde consistência quando se pede apenas à primeira que resolva o que também pertence à segunda.
Ambiente sonoro para o Andamento I Johann Sebastian Bach, A Arte da Fuga, BWV 1080 — Fretwork
Para o andamento I — A esperança que atravessa a lucidez, a sugestão é o Contrapunctus I, a 4, na interpretação da Fretwork. O primeiro sujeito da fuga entra sem gesto teatral e regressa, de voz em voz, conservando a sua forma enquanto se mede com as outras. Bach não oferece uma resolução antecipada: constrói uma ordem paciente, em que cada linha mantém a sua diferença e, ainda assim, participa num desenho comum. É esse o movimento deste andamento: uma esperança que não confunde o desejável com o provável, mas que preserva, dentro da lucidez, um lugar para aquilo que ainda pode tornar-se diferente. O sentido nasce da relação. Também o humano.
Ouvir no YouTube: A Arte da Fuga — Fretwork
Ouvir no Spotify: Contrapunctus I — Fretwork
I — A esperança que atravessa a lucidez
A lucidez começa por retirar à esperança uma facilidade: a de confundir o desejável com o provável. Desejar que uma relação se recomponha não demonstra que exista reciprocidade; desejar justiça não assegura que as instituições a realizem; desejar que alguém permaneça vivo não concede ao amor poder sobre a morte. Esta distância entre o que queremos e aquilo de que dispomos não é um defeito passageiro da condição humana. A esperança que pretenda suprimi-la acaba por exigir à realidade uma obediência que ela não pode dar e à pessoa ferida uma confiança que nenhuma evidência sustenta.
Mas reconhecer essa distância não obriga a concluir que todos os desejos são ilusórios. Entre possuir o futuro e desistir dele existe um trabalho de discernimento: perceber o que terminou, o que permanece incerto, o que pode mudar e o que depende de uma ação partilhada. A dificuldade está em não aplicar a tudo a mesma sentença. Uma perda irreversível não torna irrelevantes todas as relações que continuam; o fracasso de uma tentativa não prova a inutilidade de qualquer tentativa futura. A dor merece ser escutada na sua verdade, sem receber por isso a autoridade de antecipar a totalidade da vida.
No luto, esta distinção pode ser particularmente exigente. Quem perdeu alguém não precisa de descobrir uma vantagem escondida nessa morte, nem de agradecer a aprendizagem que os outros apressadamente lhe atribuem. Algumas ausências não produzem crescimento; deixam uma falta que nenhuma narrativa de superação torna justa. Ainda assim, voltar a interessar-se por uma conversa, preparar uma viagem ou sentir prazer numa tarde não diminui o amor por quem morreu. A esperança pode começar por esta autorização difícil: consentir que o presente tenha experiências que não sejam apenas uma demonstração de fidelidade à perda. O vínculo com quem falta não depende de renunciar a tudo o que ainda pode acontecer.
Também depois de uma traição o futuro exige uma aprendizagem que não se resolve por decisão. A pessoa pode saber que nem todos a enganarão e continuar a receber cada aproximação como ameaça. O conhecimento e a confiança não avançam necessariamente ao mesmo ritmo. Seria injusto censurar essa demora ou interpretá-la como resistência voluntária à felicidade. O que se perdeu não foi apenas uma opinião favorável sobre alguém, mas uma certa espontaneidade no modo de estar com os outros. Recuperá-la, mesmo parcialmente, implica experiências suficientemente consistentes para que a prudência deixe de precisar de ocupar todo o espaço da relação.
Albert Camus torna esta questão mais rigorosa precisamente porque desconfiava das esperanças que oferecem uma reconciliação final capaz de justificar o sofrimento presente. Não seria fiel ao seu pensamento apresentá-lo como defensor de uma esperança consoladora. O seu confronto com o absurdo e a sua reflexão sobre a revolta interrogam a possibilidade de viver e agir sem essa garantia superior. Interessa-nos aqui o limite que essa exigência impõe: nenhuma promessa de sentido deve dispensar-nos de responder ao sofrimento concreto, nem autorizar que uma vida seja sacrificada em nome de uma explicação que a transcende.1
A partir deste limite, podemos formular a nossa própria pergunta: que esperança resta quando recusamos justificar o injustificável? Resta, desde logo, a diferença entre não poder explicar um sofrimento e não poder fazer nada diante dele. A impossibilidade de oferecer uma razão para a perda não impede a companhia; a ausência de uma solução completa não elimina a obrigação de proteger; a incerteza do resultado não torna equivalentes a intervenção e o abandono. A esperança não precisa de resolver o enigma inteiro da existência para reconhecer que uma situação pode tornar-se menos cruel através daquilo que fazemos.
Ernst Bloch permite acrescentar outra dimensão. Em O Princípio Esperança, o «ainda não» designa uma abertura que atravessa a consciência e o próprio mundo, não apenas um desejo privado de felicidade. A sua reflexão, situada numa perspetiva marxista de transformação social, procura distinguir a antecipação ligada a possibilidades reais da fantasia que apenas compensa a privação. Não precisamos de adotar integralmente o seu sistema para receber esta exigência: a esperança deve aprender com as condições do presente, identificar capacidades por desenvolver e reconhecer obstáculos, em vez de tomar a intensidade do desejo como prova da sua realização.2
Esta aprendizagem obriga a rever o que esperamos. Uma esperança pode deixar de ser justa ou possível sem que a pessoa que a abandona esteja a desistir de viver. Permanecer numa relação destrutiva à espera de que o outro mude não é necessariamente sinal de coragem; por vezes, a coragem consiste em aceitar que aquela promessa já não deve organizar a nossa existência. O mesmo vale para um projeto profissional, uma forma de reconhecimento ou uma imagem antiga de nós próprios. Continuar não exige conservar intacto o objeto de todos os desejos. Pode exigir o luto por um futuro imaginado, para que a vida deixe de ser julgada apenas pelo que não conseguiu cumprir.
A esperança lúcida admite, assim, uma transformação da escala. Quando uma cura deixa de ser possível, o tempo não perde automaticamente todo o conteúdo: podem continuar a importar a escolha de uma visita, uma conversa por concluir, o respeito pela intimidade, a possibilidade de decidir com quem estar. Não compete a quem acompanha decretar qual deve ser a nova esperança de alguém. Compete-lhe evitar que o reconhecimento de um limite se converta no abandono da pessoa. O futuro não se mede apenas pela sua duração; mede-se também pela possibilidade de ainda nele exercer vontade, receber atenção e não ser tratado como se já estivesse ausente.
George Steiner encontra na linguagem uma capacidade de ultrapassar a descrição do que existe: formular hipóteses, imaginar alternativas, falar de um acontecimento que ainda não se deu. A sua reflexão sobre a sintaxe da esperança permite compreender como o possível entra na experiência humana antes de adquirir realidade.3 Dizer que uma situação poderia ser diferente não demonstra que virá a sê-lo, mas interrompe a identificação entre o existente e o necessário. Esta abertura exige rigor: a mesma linguagem que permite conceber outra vida pode produzir promessas enganosas. O futuro verbal não é uma garantia; é um espaço que tanto a imaginação responsável como a manipulação podem ocupar.
Esta forma de esperança não é uma disposição constante nem um atributo dos temperamentos mais fortes. Pode coexistir com medo, revolta e períodos em que nada parece desejável. Uma pessoa pode deixar de a sentir sem deixar de merecer o que a sustenta. A lucidez que aqui procuramos inclui esta modéstia: não sabemos antecipadamente quanto sofrimento cada um consegue suportar, nem podemos transformar a nossa linguagem sobre o futuro numa exigência emocional dirigida aos outros. Antes de perguntar por que razão alguém perdeu a esperança, importa perceber o que lhe foi retirado e que presença concreta ainda podemos oferecer. A reflexão sobre o possível começa a tornar-se ética quando deixa de avaliar a coragem alheia e examina a nossa própria responsabilidade.
Ambiente sonoro para o Andamento II Johann Sebastian Bach, A Arte da Fuga, BWV 1080 — Fretwork
Para o andamento II — Contra o cinismo, a sugestão é o Contrapunctus IX, a 4 alla duodecima, na interpretação da Fretwork. Nesta fuga, o impulso torna-se mais firme e mais vivo, sem abandonar a disciplina do contraponto. As vozes avançam por caminhos próprios, cruzam-se e respondem-se, mas nenhuma procura impor-se como voz única. A sua energia não é euforia; é persistência organizada. Por isso acompanha este andamento: contra o cinismo, que declara inútil toda a ação antes de a examinar, a esperança aprende a distinguir, a corrigir e a continuar a agir com os outros, mesmo quando a vitória não está assegurada.
Ouvir no YouTube: A Arte da Fuga — Fretwork
Ouvir no Spotify: Contrapunctus IX — Fretwork
II — Contra o cinismo
O cinismo de que aqui falamos não é a dúvida que protege contra a manipulação, nem a desconfiança aprendida por quem foi repetidamente enganado. É uma maneira de interpretar o mundo que decide, antes de qualquer exame, que todo o compromisso esconde interesse e toda a transformação acabará por reproduzir aquilo que combate. A sua força está em não se deixar contrariar: se uma iniciativa falha, confirma a inutilidade de tentar; se produz algum bem, esse bem será apresentado como fachada. Uma interpretação assim parece conhecer profundamente a realidade, mas impede que a realidade lhe ensine alguma coisa de novo.
Existe uma diferença moral entre reconhecer a mistura das motivações humanas e concluir que essa mistura anula o valor de qualquer ação. Quem cuida pode também desejar reconhecimento; quem combate uma injustiça pode ser contraditório noutras dimensões da sua vida. Essas ambiguidades precisam de crítica, não de uma absolvição automática. Contudo, exigir pureza como condição de validade de todo o gesto é estabelecer um critério que nenhum ser humano consegue cumprir. O cinismo serve-se dessa impossibilidade para tornar dispensável a distinção entre quem aceita corrigir-se e quem transforma o interesse próprio numa regra sem limites.
O seu efeito público é particularmente corrosivo. Quando todas as instituições são declaradas igualmente irrecuperáveis, desaparece a razão para defender as que admitem fiscalização, escuta e mudança. Quando todas as pessoas são consideradas igualmente venais, deixa de importar a diferença entre prestar contas e fugir à responsabilidade. A crítica perde então a capacidade de discriminar, que era precisamente aquilo que a tornava necessária. Não se trata de confiar por princípio em quem exerce poder, mas de conservar critérios que permitam identificar abusos, exigir consequências e reconhecer uma correção efetiva quando ela acontece.
Seria, no entanto, uma violência chamar cínica à pessoa que já não suporta outra promessa. O esgotamento de quem passou anos a requerer um apoio ou a denunciar uma agressão não equivale à indiferença de quem comenta tudo sem se implicar em nada. A mesma frase, «não vale a pena», pode encobrir experiências inteiramente diferentes. Num caso, pode funcionar como recusa de responsabilidade; noutro, como expressão de uma capacidade exaurida. Uma ética da esperança precisa de saber ouvir essa diferença, ou acabará por reprovar nas pessoas feridas os efeitos daquilo que não conseguiu impedir.
O niilismo coloca um problema distinto. Numa das suas formas, não afirma apenas que o bem é difícil de realizar, mas que nenhuma finalidade merece verdadeiramente orientar a existência. O desespero vivido pode ter outra configuração: a pessoa continua a reconhecer o valor de uma relação ou de um projeto, mas já não consegue sentir-se ligada a eles. O futuro torna-se uma sucessão de datas sem apelo; as escolhas parecem equivalentes porque nenhuma chega a mobilizar o desejo. Estes são modos de descrever uma experiência, não critérios para classificar pessoas. Uma pergunta pelo sentido pode ser intelectualmente fecunda; a impossibilidade dolorosa de encontrar qualquer ligação com a vida pede uma escuta diferente.
A expressão «depressão existencial» não será usada aqui como diagnóstico, nem a depressão clínica confundida com uma conclusão filosófica. A depressão pode envolver desesperança, perda de interesse, alterações do sono e dificuldades no funcionamento quotidiano; requer atenção clínica e pode beneficiar de tratamento.4 Não resulta simplesmente de pensar de maneira errada, e não se resolve por injunção à coragem. Quando esta gramática falha, a falha pode estar precisamente na resposta dos outros: insistimos em oferecer argumentos a quem precisa de cuidado, ou interpretamos como desistência voluntária aquilo que a pessoa não consegue modificar pela vontade. Nenhuma ausência de esperança retira o direito a ser acompanhado.
A indignação também não deve ser confundida com o contrário da esperança. Protestar significa frequentemente que ainda se reconhece uma obrigação onde os outros aprenderam a ver apenas rotina. A pessoa que insiste numa explicação, que contesta um procedimento ou que recusa agradecer um direito como favor conserva uma relação exigente com o mundo. A sua voz pode ser incómoda porque revela a distância entre as palavras de uma instituição e aquilo que ela efetivamente faz. Pedir-lhe serenidade antes de escutar a matéria da sua denúncia é uma forma de proteger o conforto de quem responde, não de cuidar da possibilidade de mudança.
Na Carta da Prisão de Birmingham, de 1963, Martin Luther King Jr. dirige uma crítica decisiva à ideia de que o simples decorrer do tempo resolveria a segregação. Contesta o adiamento exigido aos que sofrem e distingue a ordem que evita perturbações da paz que depende da justiça. A sua esperança não dispensava a ação organizada; tornava a demora moralmente discutível. O texto impede-nos de apresentar a paciência como virtude universal, sem perguntar quem beneficia dela e quem continua a pagar o seu preço.5
Podemos prolongar esta interrogação para as esperas que organizam a vida comum. O tempo de quem decide não tem o mesmo peso do tempo de quem depende da decisão. Um adiamento administrativo pode parecer pequeno num calendário de serviço e ocupar uma parte irrecuperável da infância de alguém. A prudência institucional deixa de ser prudência quando ignora os danos que a sua própria demora produz. A esperança exige duração para construir mudanças, mas não pode converter essa duração num argumento indiferente à vida que acontece entretanto. É preciso distinguir o tempo necessário para fazer bem do tempo que se deixa passar porque o custo recai sobre outros.
Também precisamos de desconfiar dos discursos de esperança que não toleram perguntas. Uma promessa coletiva torna-se perigosa quando exige lealdade ao seu anúncio mesmo depois de os seus efeitos a desmentirem. Se toda a crítica é tratada como desânimo, se todo o sofrimento presente é apresentado como sacrifício inevitável, o futuro deixou de ser uma possibilidade partilhada e passou a funcionar como autorização para dominar. A esperança democrática tem de admitir revisão, oposição e mudança de rumo. O bem prometido não torna bons todos os meios, e nenhuma geração pode ser reduzida a matéria de preparação para a felicidade de outra.
Václav Havel, nas conversas reunidas em Disturbing the Peace, distingue a esperança da previsão de um desfecho favorável e liga-a ao sentido de um compromisso, mesmo quando o êxito não está assegurado.6 Esta distinção permite recusar a medida exclusiva da vitória, mas requer um cuidado: a convicção de que algo faz sentido não torna irrelevantes as suas consequências. Uma causa justa pode ser mal servida por uma decisão. A esperança precisa tanto de razões para persistir como de atenção suficiente para não continuar a ferir em nome da persistência.
Por isso, uma esperança responsável não se protege da evidência. Precisa de saber reconhecer um resultado insuficiente, admitir que uma estratégia falhou e abandonar soluções que agravaram o problema. A fidelidade deve dirigir-se às pessoas e aos fins justos, não à preservação da nossa imagem de quem sabia o caminho. Este ponto é difícil porque investimos identidade nas causas que defendemos. Recuar numa decisão pode parecer traição, quando constitui o primeiro ato de honestidade que permite continuar. A alternativa ao cinismo não é acreditar em tudo; é aceitar o trabalho de distinguir, incluindo quando essa distinção nos obriga a corrigir aquilo em que acreditámos.
Esse trabalho raramente se sustenta isoladamente. Uma comunidade de ação precisa de lugares onde se possa dizer que se está cansado, discordar de uma estratégia ou reconhecer uma derrota sem perder o direito a pertencer. Caso contrário, produz uma representação de entusiasmo que encobre o desgaste dos seus membros. A continuidade de uma luta depende também de quem substitui quem não pode comparecer, de quem conserva os registos, de quem transmite o que aprendeu e de quem aceita que outros avancem de maneira diferente. A esperança torna-se mais resistente quando não está concentrada na energia de uma única pessoa ou na autoridade de uma única voz.
Contra o cinismo, importa então recuperar uma capacidade de avaliação que não esteja antecipadamente vencida. Uma alteração parcial não deve ser confundida com justiça plena, mas também não deve ser desprezada por não o ser. Quem deixou de depender de uma autorização humilhante sabe que uma mudança limitada pode alterar profundamente o dia seguinte. Reconhecer essa diferença não manda interromper a exigência; dá-lhe matéria e memória. A esperança encontra consistência quando consegue olhar para um resultado concreto, compreender o que falta e continuar a agir sem precisar de declarar inútil tudo o que ainda está incompleto.
Palavra XIII — Esperança continua na Parte II, com os Andamentos III, IV e V.
Referências de leitura
1. Albert Camus, O Mito de Sísifo e O Homem Revoltado. Contextualização das relações entre absurdo, revolta e crítica da esperança metafísica: Ronald Aronson, «Albert Camus», Stanford Encyclopedia of Philosophy. Consultar
2. Ernst Bloch, O Princípio Esperança, introdução. Texto em tradução inglesa, «The Principle of Hope», Marxists Internet Archive. Consultar
3. George Steiner, Gramáticas da Criação. Excerto publicado como «The Syntax of Hope», Humanum, 8 de julho de 2020. Consultar
4. National Institute of Mental Health, «Depression». Referência para a distinção entre reflexão existencial e depressão clínica. Consultar
5. Martin Luther King Jr., Carta da Prisão de Birmingham, 16 de abril de 1963. Texto em inglês disponibilizado pela University of Missouri–Kansas City. Consultar
6. Václav Havel, Disturbing the Peace, conversas com Karel Hvížďala. Excerto sobre esperança e otimismo reproduzido por Maria Popova em The Marginalian, 22 de setembro de 2019. Consultar
© Manuela Ralha, 2026

Talvez seja essa a esperança em que acredito, não a de achar que tudo vai acabar bem, nem a de apagar a ferida com uma frase bonita. É aceitar que aquilo que nos aconteceu aconteceu, que algumas perdas ficam e que nem tudo tem reparação. Mas também perceber que aquilo que nos aconteceu não pode decidir, para sempre, o que fazemos com a nossa vida. A ferida fica. A dor pode ficar. E a esperança talvez seja mesmo isto, não saber o que vem a seguir, mas ainda assim não fechar a porta ao que pode vir.
ResponderEliminarQuerida Patrícia,
EliminarA esperança torna-se mais verdadeira quando não exige que se ultrapasse depressa aquilo que feriu. Nem tudo se repara, nem toda a perda encontra equivalente, e pedir à dor que se transforme depressa num ensinamento seria acrescentar violência àquilo que já doeu.
Mas o futuro não pode ficar reduzido à repetição do que nos aconteceu. A esperança começa quando a ferida deixa de ser uma sentença sobre a vida inteira e o possível regressa — devagar, sem garantias, mas como espaço de decisão.
E esse espaço não é apenas íntimo. Interpela também os outros e o mundo em que vivemos: uma sociedade que fere, exclui ou abandona tem o dever de se transformar para que alguém possa voltar a reconhecer o futuro como lugar habitável.
Esperar é não fechar a porta ao que vem e trabalhar para que ela possa realmente abrir-se. Não uma frase bonita para apagar a dor, mas uma prática de cuidado, de responsabilidade e de ação.
Obrigada por esta leitura tão funda.