Navegar pela vida
«É preciso ser guiado ao mesmo tempo pela razão e pela paixão, e isso é navegar pela vida.»
Edgar Morin
Ambiente sonoro sugerido para a leitura
Ludovico Einaudi — Experience
Experience, de Ludovico Einaudi, integra o álbum In a Time Lapse. É uma peça construída sobre uma progressão quase hipnótica: começa de forma contida, com uma estrutura repetida e luminosa, e vai crescendo até se tornar travessia, impulso, emoção em movimento. Por isso acompanha tão bem este texto: porque também aqui a razão não anula a paixão, nem a paixão dispensa a razão. Ambas avançam juntas, como quem aprende a navegar.
Li esta frase de Edgar Morin e reconheci nela, quase palavra por palavra, o lugar a partir do qual escrevo.
Chamei ao meu blogue Entre a Razão e o Coração porque nunca soube viver inteiramente de um lado ou do outro. Nem quis.
A razão interroga. Procura compreender. Desconfia das respostas fáceis, das certezas absolutas, das emoções que nos arrastam sem que saibamos para onde. Obriga-nos a olhar o mundo como ele é, mesmo quando preferíamos que fosse diferente.
O coração, porém, impede que essa lucidez se torne indiferença. É ele que nos faz permanecer diante do sofrimento quando seria mais cómodo desviar os olhos. É ele que nos liga aos outros, que nos inquieta, que nos comove, que nos faz cuidar. Sem ele, a razão pode explicar o mundo — mas dificilmente nos dará razões para não desistirmos dele.
Morin não escolhe entre uma e outra. E é precisamente aí que a sua frase se torna tão profundamente humana.
Navegar pela vida não é seguir uma linha reta. É aprender a habitar a tensão.
Entre o que sabemos e o que sentimos.
Entre a lucidez e a esperança.
Entre a necessidade de compreender e a impossibilidade de tudo compreender.
Entre o pensamento que nos contém e a paixão que nos põe em movimento.
Durante muito tempo, ensinaram-nos a desconfiar desta mistura. Como se pensar exigisse afastar o sentimento. Como se sentir diminuísse a inteligência. Como se a razão fosse sempre prudente e o coração sempre cego.
A vida, porém, desmente essa separação.
Existem razões sem humanidade e paixões sem discernimento. A razão, sozinha, pode tornar-se fria, instrumental, capaz de justificar o injustificável. A paixão, sozinha, pode tornar-se cega, incapaz de reconhecer limites, complexidade e consequências.
Precisamos das duas.
Precisamos de uma razão que não tenha medo de sentir e de um coração que aceite pensar.
Foi, sem o saber formular assim desde o início, o lugar onde sempre procurei escrever. No Entre a Razão e o Coração, os textos nascem quase sempre de uma inquietação: alguma coisa que vejo, leio, escuto ou vivo e que não consigo simplesmente deixar passar. Depois vem o pensamento. Os livros. Os autores. As perguntas. A tentativa de compreender.
Mas a razão nunca apaga a inquietação que esteve na origem.
E o coração nunca fica dispensado do trabalho de pensar.
É nesse intervalo que escrevo. Sobre a condição humana, a vulnerabilidade, o poder, o cuidado, a desigualdade, a democracia, a cultura, a indiferença, os livros, a música. Sobre aquilo que fazemos uns aos outros. Sobre o que ainda podemos ser.
Não para encontrar respostas definitivas. Desconfio cada vez mais delas.
Escrevo para navegar.
E navegar, como Morin tão bem compreendeu, não é dominar o mar. É avançar sabendo que existem correntes que não controlamos, ventos que mudam, mapas incompletos e horizontes que se deslocam à medida que caminhamos.
Precisamos da razão para ler os sinais.
Precisamos da paixão para não ficar no porto.
Entre uma e outra, faz-se a travessia.
Entre uma e outra, faz-se uma vida.
E foi, afinal, para esse lugar que dei um nome:
Entre a Razão e o Coração.
© Manuela Ralha, 2026

Manuela, este texto é daqueles que não se limitam a ser lidos. Habitam-nos.
ResponderEliminarReconheço-me profundamente nessa ideia de que a razão não deve ter medo de sentir e de que o coração também tem de aceitar pensar. Talvez seja mesmo nesse espaço, entre uma e outro, que se faz o mais importante da condição humana. E depois há esta banda sonora. Experience, de Ludovico Einaudi, parece ter sido composta para caminhar ao lado das tuas palavras. Não as acompanha apenas, dá-lhes fôlego, amplia-lhes o silêncio e a beleza.
Obrigada por continuares a escrever para quem também acredita que navegar vale mais do que ter todas as respostas.
Gostei...
ResponderEliminarEste texto tão sincero traz-me à memória António Damásio e o seu livro "O Erro de Descartes". Na verdade, para mim, a emoção é o primeiro lume: acende‑se antes de qualquer ideia, antes de qualquer frase que a Razão tente ordenar. Quando António Damásio nos fala do corpo que sente antes de pensar, ele devolve‑nos a verdade mais antiga — a de que o coração é sempre o primeiro narrador. O Erro de Descartes torna‑se uma espécie de confidência: a revelação de que a lógica não nasce num laboratório asséptico, mas sim no território quente onde pulsa o desejo, o medo, a memória e a perda.
ResponderEliminarHá momentos em que a razão parece erguer muralhas, mas basta um sopro — uma lembrança, um gesto, um tremor — para que essas muralhas se tornem permeáveis. A emoção infiltra‑se, não como inimiga, mas como força que humaniza. É ela que dá textura ao pensamento, que o torna menos rígido, menos solitário. A Razão, quando tocada pela emoção, deixa de ser cálculo e transforma‑se em claridade viva. É a minha opinião. Por mais racional que procure pautar alguns dos meus comportamentos, na esperança da tal valoração social, a emoção, ao invés, noutros comportamentos dá-me a satisfação e a validação pessoal de que agi de forma muito mais verdadeira.
Damásio mostra que não pensamos apesar de sentir; pensamos porque sentimos. Cada decisão é um eco de algo mais profundo, uma vibração que não se explica, apenas se reconhece. Talvez seja esse o verdadeiro erro de Descartes: acreditar que o humano se divide em compartimentos estanques, quando na verdade somos uma confluência — uma fusão delicada entre o que arde e o que analisa, entre o que nos desarma e o que nos sustém.
E é nesse cruzamento, tão frágil quanto luminoso, que a verdade se revela: a razão precisa da emoção para não se tornar deserto; a emoção precisa da razão para não se tornar tempestade. O humano nasce exactamente aí, nesse ponto onde o sentir e o pensar se tocam como duas mãos que finalmente se reconhecem.