A difícil aprendizagem do humano - Uma travessia por territórios da obra de Valter Hugo Mãe
Ambiente sonoro para a leitura
Obra escolhida: Canto de Amor e de Morte, de Fernando Lopes-Graça.
Para acompanhar este ensaio, escolhi Canto de Amor e de Morte, de Fernando Lopes-Graça, por ser uma obra que não suaviza a dor nem transforma a perda em consolo fácil. A sua intensidade atravessa os mesmos territórios que percorrem a obra de Valter Hugo Mãe: o amor, a morte, a memória, a resistência, a vulnerabilidade e a fidelidade ao humano.
Esta música não ilustra o ensaio. Respira com ele. Tem a gravidade de quem sabe que o amor não protege da perda, mas também a força de quem recusa deixar que a perda tenha a última palavra. Por isso, parece-me a companhia certa para uma travessia literária que pergunta, do princípio ao fim, o que faz uma pessoa, o que a desfaz, e o que ainda pode continuar através de nós.
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Fernando Lopes-Graça — Canto de Amor e de Morte
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Fernando Lopes-Graça, Olga Prats, Quarteto Lopes-Graça — O Canto Amor e de Morte
Uma travessia por territórios da obra de Valter Hugo Mãe
A obra de Valter Hugo Mãe começa muitas vezes onde o humano treme: numa criança que espera de Deus uma resposta para aquilo que o mundo não sabe explicar; num homem que confunde amor com posse e transforma a mulher amada no lugar da sua violência; em duas mulheres que limpam as casas dos outros, choram profissionalmente os mortos alheios e regressam, depois, ao cansaço das suas próprias vidas; num velho a quem a morte da mulher retira não apenas uma companhia, mas a forma conhecida do mundo; num pescador que deseja um filho; numa criança que sobrevive à irmã gémea; em homens capazes de reconhecer a beleza e incapazes, ainda assim, de reconhecer plenamente o outro; em irmãos que descobrem que amar é continuar sem conhecer o fim.
De livro para livro, mudam os lugares, os tempos, as idades e as vozes. Muda a própria relação com a linguagem. Permanecem, porém, duas inquietações que parecem atravessar toda a obra:
o que é preciso para fazer uma pessoa?
E o que é preciso para a desfazer?
Entre estas duas perguntas estende-se uma parte decisiva da escrita de Valter Hugo Mãe. Os seus livros não definem o humano. Aproximam-se dele pelos lugares em que se torna mais vulnerável, porque o humano, neles, tem corpo: nasce dependente, tem fome, deseja, trabalha, envelhece, erra, fere e é ferido. Enterra os seus mortos. Guarda culpas que nem sempre sabe nomear. Procura alguém que o reconheça. Precisa de pertencer a algum lugar e, demasiadas vezes, aprende o mundo através daquilo que o mundo lhe retira.
Mas esta não é apenas uma obra sobre aquilo que nos acontece. É também uma obra sobre aquilo que fazemos com o que nos aconteceu.
Recebemos uma infância, uma família, um corpo, uma língua, uma época, uma classe, um país, uma memória. Recebemos formas de amar e formas de ter medo, preconceitos tão antigos que podem parecer naturais, silêncios que começaram antes de nós, violências a que outros chamaram costume. Recebemos também gestos de cuidado, lealdades, pessoas que ficaram, maneiras de olhar que nos ensinaram a não passar indiferentes pelo mundo.
Nenhuma vida começa do princípio.
Chegamos sempre depois de alguma coisa.
A difícil aprendizagem do humano acontece nesse espaço incerto entre o que recebemos e o que transmitimos. Nem tudo foi escolhido. Nem tudo poderá ser desfeito. Mas alguma coisa, em certos momentos, passa pelas nossas mãos, e somos obrigados a decidir, mesmo quando não percebemos que estamos a decidir, o que continuará através de nós.
I. A vulnerabilidade
É por isso que a infância ocupa um lugar tão fundo nesta obra. Não apenas como tempo perdido ou matéria autobiográfica, mas como primeiro território onde o mundo se torna inexplicável. A criança ainda não sabe organizar a realidade para se proteger dela. Vê antes de aprender a desviar os olhos. Sente antes de possuir os conceitos que lhe permitiriam domesticar o que sente e, porque ainda não aprendeu todas as formas adultas de indiferença, recebe o mundo inteiro, mesmo quando o mundo é demasiado grande para caber dentro dela.
Em o nosso reino, uma criança procura em Deus uma resposta.
À sua volta, num Portugal rural profundamente marcado pela religião, pela superstição, pela culpa, pelo medo e pela proximidade da morte, o mundo adulto não oferece a segurança que uma criança poderia esperar dele. A Revolução dos Cravos atravessa o tempo do romance, mas as grandes mudanças da História não dissipam imediatamente os medos antigos. Um país pode mudar de regime sem que as pessoas deixem, de um dia para o outro, de transportar dentro de si aquilo que aprenderam a temer.
A História muda as datas.
A vida interior muda mais devagar.
É nesse desfasamento que a infância do romance procura compreender. Deus torna-se uma possibilidade de resposta porque as respostas humanas não bastam, e a criança encontra-se diante de uma ansiedade fundamental: precisa de dar sentido àquilo que ainda não possui palavras suficientes para nomear.
A infância, em Valter Hugo Mãe, não é um território de inocência protegida. É o lugar onde se descobre, demasiado cedo, que os adultos também não sabem; que a fé pode nascer da necessidade de uma resposta; que o amor não impede a crueldade; que a linguagem nem sempre salva; que a morte existe antes de conseguirmos compreendê-la.
Crescer começa, assim, por uma perda de confiança na inteligibilidade do mundo. Não aprendemos simplesmente que as coisas têm um nome, uma causa e uma ordem. Aprendemos que algumas perguntas permanecem sem resposta, que o sofrimento não se distribui segundo qualquer princípio reconhecível e que a proteção de que dependemos pode falhar.
Antes da moral, antes da memória organizada, antes das grandes palavras com que mais tarde tentaremos explicar a existência, existe um corpo exposto ao mundo: pequeno, dependente, incapaz de sobreviver sozinho.
A primeira verdade humana é essa: ninguém começa por bastar a si próprio.
Toda a ideia de autonomia vem depois. Antes dela, alguém teve de nos segurar, alimentar, proteger, ensinar uma língua, responder ao choro, decidir por nós. O humano começa na dependência e passa grande parte da vida adulta a tentar esquecer que começou assim.
É também por isso que uma das aprendizagens mais perigosas do crescimento é a da força. Aprendemos quem pode falar e quem deve calar-se, quem manda e quem obedece, quem tem direito ao desejo e quem pode ser transformado em objeto do desejo alheio. Aprendemos a hierarquia antes de sabermos interrogá-la e, por vezes, aprendemos a chamar amor àquilo que apenas quer dominar.
Se a criança descobre que pode ser ferida, quando aprende o ser humano a ferir?
A resposta mais inquietante não está no nascimento de uma crueldade excecional.
Está na aprendizagem do que se torna normal.
Em o remorso de baltazar serapião, a violência não chega de fora para interromper uma ordem humana. Pertence à própria ordem. Habita a casa, o casamento, o trabalho, a linguagem e a relação entre homens e mulheres. Transmite-se como se transmitem os costumes, porque o preconceito e a tradição não acompanham apenas a violência: ensinam-na, legitimam-na e oferecem-lhe uma linguagem na qual pode deixar de se reconhecer como violência.
Baltazar não se vê como monstro.
É essa uma das verdades mais difíceis do romance. O homem que fere pode continuar a pensar que ama. Pode vigiar e chamar cuidado à vigilância, possuir e chamar amor à posse, punir e convencer-se de que apenas repõe uma ordem que aprendeu antes de saber interrogá-la.
Ermesinda existe dentro de um mundo que decidiu antes dela o lugar que lhe cabe. O seu corpo não lhe pertence inteiramente, a sua voz não possui o mesmo peso e o desejo que desperta nos outros volta-se contra ela. A suspeita basta. O ciúme adquire a força de uma prova. O amor, atravessado pela ideia de propriedade, deixa de reconhecer a pessoa que afirma amar.
Valter Hugo Mãe obriga-nos, assim, a enfrentar uma das mais antigas perversões do humano: a possibilidade de transformar o outro em coisa sem deixar de lhe chamar alguém.
A desumanização não começa apenas quando deixamos de ver um corpo. Pode começar quando vemos apenas o corpo e deixamos de reconhecer a pessoa.
Baltazar ama Ermesinda, mas ama-a a partir de si. Ama a mulher que deseja, a mulher que tomou por esposa, a mulher cuja conduta entende como prolongamento da sua própria honra. Não suporta nela aquilo que existe para além dele, porque o outro se torna verdadeiramente difícil quando é reconhecido como outro: uma interioridade que não podemos vigiar, um desejo que não podemos comandar, uma liberdade que nunca nos pertencerá.
O problema não é, portanto, a simples ausência de amor.
É um amor corrompido pela posse.
Esta distinção atravessará toda a obra. Nem todo o afeto salva. Nem toda a proximidade cuida. Nem toda a família protege. Nem toda a comunidade acolhe. O humano não se cumpre apenas porque alguém precisa de alguém. A dependência pode gerar cuidado, mas pode também gerar domínio; a necessidade do outro pode abrir-nos ao encontro ou levar-nos a tentar aprisioná-lo.
Por isso, o remorso chega tarde: depois do gesto, depois do corpo ferido, depois da irreversibilidade. Reconhece o mal quando já não pode impedir que ele tenha acontecido e contém, nesse atraso, uma tragédia que ultrapassa Baltazar.
Saber não é o mesmo que ter sabido a tempo.
Uma parte da experiência humana vive deste atraso. Compreendemos depois. Nomeamos depois. Pedimos perdão depois. Descobrimos a violência de uma palavra quando ela já encontrou o corpo a que se destinava. Reconhecemos a injustiça quando alguém já viveu dentro dela.
Mas o romance não permite que o remorso nos conforte. Compreender aquele que fere não apaga quem foi ferido. Conhecer a origem de uma violência não a absolve. Reconhecer que um homem foi educado por um mundo brutal não devolve à mulher aquilo que esse mundo lhe retirou.
É aqui que a pergunta sobre a responsabilidade começa verdadeiramente a atravessar a obra: se somos feitos pelo mundo em que crescemos, até onde somos responsáveis por aquilo que fazemos com o que o mundo fez de nós?
A pergunta não termina em Baltazar, porque a violência nunca pertence apenas aos que batem, humilham ou matam. Precisa de uma ordem que a torne possível, de silêncios que a protejam, de hierarquias que a legitimem, de pessoas que aprendam a não ver, de vidas cujo sofrimento se torna tão habitual que deixa de causar espanto.
O contrário do humano não é apenas a crueldade.
É também a habituação.
Quando a habituação se instala, já não é preciso odiar alguém para o destruir. Basta aceitar o lugar que o mundo lhe destinou.
É nesse ponto que a obra sai da casa e encontra o trabalho, a pobreza e os corpos gastos.
Porque também se pode desaparecer sem morrer.
Basta que ninguém repare.
Em o apocalipse dos trabalhadores, a violência já não precisa de levantar a mão. Não deixa necessariamente nódoas negras, não exige um gesto súbito nem se concentra num único culpado. Distribui-se pelos dias, repete-se nas horas, instala-se no corpo através do cansaço e chama necessidade àquilo que quase não deixa escolha.
Maria da Graça e Quitéria são mulheres-a-dias e trabalham também como carpideiras. Limpam as casas dos outros e choram os mortos alheios. Existe uma continuidade perturbadora entre os dois ofícios: num, apagam os vestígios da vida quotidiana de pessoas a quem servem; no outro, emprestam lágrimas a uma morte que não é a sua. Entram suficientemente perto para limpar, servir e chorar, mas essa proximidade não lhes concede pertença.
A desigualdade começa muitas vezes assim: alguém torna a vida de outro possível sem que a sua própria vida se torne verdadeiramente visível.
O trabalho, neste romance, não é apenas atividade ou sustento. Inscreve-se no corpo, cansa-o, organiza-lhe o tempo e decide quanto dele pode ainda pertencer à pessoa depois de tudo o que foi entregue à sobrevivência. Porque a pobreza não é apenas ter pouco. É ter menos tempo, menos descanso, menos escolha, menos espaço para adoecer, menos possibilidade de recusar, menos direito a interromper o mundo quando o corpo já não consegue acompanhá-lo.
Uma vida pode ser inteiramente ocupada pela necessidade.
Mas o apocalipse dos trabalhadores não reduz Maria da Graça e Quitéria à condição de vítimas. Entre o cansaço e a desilusão, continuam a desejar, a imaginar, a rir, a ferir e a ser feridas. O trágico convive com o cómico, a precariedade não elimina o desejo e a necessidade não apaga a contradição.
É essa complexidade que impede as personagens de se tornarem exemplos de uma tese.
Valter Hugo Mãe não escreve pobres como figuras destinadas a representar a pobreza.
Escreve pessoas.
E uma pessoa nunca cabe inteiramente naquilo que lhe falta.
Maria da Graça e Quitéria possuem desejo, humor, dureza, ternura e contradição. Amam mal e amam bem. Nem sempre reconhecem o que têm diante de si. A dignidade literária começa precisamente aí, na recusa de transformar uma vida num exemplo, porque nenhum ser humano existe para ilustrar uma ideia.
Existe uma forma de desumanização que nasce da crueldade e outra que pode nascer da piedade, quando a piedade já não consegue ver uma pessoa para além da sua desgraça. Reduzir alguém àquilo que sofreu é também retirar-lhe alguma coisa.
A literatura devolve complexidade a quem o mundo simplifica.
O apocalipse deste romance não precisa, por isso, de acontecer no fim do mundo. Acontece na escala pequena dos dias, quando uma vida se gasta para que outra possa viver com menos esforço, quando o corpo de alguém absorve o cansaço que foi retirado ao corpo de outro, quando a desigualdade se torna tão quotidiana que já não precisa de ser explicada.
A ordem social protege-se através da aparência de normalidade. O que se repete deixa de surpreender. O que deixa de surpreender começa a parecer inevitável. E aquilo que parece inevitável já não exige responsáveis.
Mesmo nesse mundo, porém, alguma coisa insiste: uma amizade, uma conversa, uma presença que regressa, a possibilidade de duas pessoas, sem poderem salvar-se inteiramente, impedirem que cada uma desapareça sozinha.
Não é ainda a comunidade que encontraremos mais adiante. Não é ainda a família que se constrói para além do sangue. É algo mais pequeno e, por isso, mais elementar: alguém que sabe que existimos.
O humano começa também aí, na testemunha. Na pessoa que viu o nosso cansaço antes de ele se tornar invisível, que conhece a nossa pobreza sem nos confundir com ela, diante de quem não precisamos de fingir que a vida foi mais leve do que foi.
Mas nenhuma presença consegue suspender o tempo. O corpo continua a envelhecer, as pessoas continuam a morrer e chega um momento em que aquilo que nos ligava ao mundo desaparece primeiro do que nós.
O que resta de uma pessoa quando morre aquela diante de quem ela sabia quem era?
II. A pertença
Em a máquina de fazer espanhóis, António Jorge da Silva perde Laura e, com ela, muito mais do que a mulher com quem viveu durante quase meio século.
Perde a testemunha da sua vida.
Aquela que conhecia o homem que ele fora, que guardava episódios de que só os dois se lembravam, que sabia a origem de certos gestos, silêncios e irritações, que podia reconhecer, no rosto envelhecido, os rostos anteriores. A morte de quem amamos não leva apenas uma pessoa. Leva também uma parte da nossa memória, porque existem versões de nós que sobrevivem apenas nos outros.
O que fomos aos vinte anos, o medo que nunca confessámos a mais ninguém, a frase dita numa cozinha desaparecida, o gesto repetido durante décadas, a história tantas vezes contada que já não se sabe a quem pertencia primeiro: uma vida partilhada constrói um arquivo que não existe em lugar nenhum.
Quando um dos dois morre, arde metade da biblioteca.
António Silva fica diante desse incêndio e é levado para o Lar da Feliz Idade. O nome contém uma ironia dolorosa. Um lar deveria ser o lugar onde se pertence, mas aquele para onde é levado começa por confirmar precisamente o contrário: deixou de pertencer ao mundo onde sabia viver.
A casa desaparece. Os objetos desaparecem. As rotinas desaparecem. Laura desapareceu. E desaparece também uma parte do direito de decidir sobre os próprios dias.
A velhice surge, assim, não apenas como transformação do corpo, mas como experiência de desapropriação. Outros decidem, organizam, estabelecem as horas, sabem o que é melhor. A pessoa continua viva, mas uma parte do mundo começa a falar dela como se já não estivesse inteiramente presente.
A sociedade possui muitas maneiras de antecipar a morte. Uma delas é deixar de perguntar o que alguém quer, pensa, teme ou ainda deseja; deixar de reconhecer futuro numa pessoa porque a maior parte da sua vida ficou para trás.
O senhor Silva não perde apenas Laura. É expulso da continuidade da sua vida e reage endurecendo, como tantas personagens de Valter Hugo Mãe quando o mundo lhes retira aquilo que conheciam. A dureza torna-se a última defesa de quem já não consegue impedir a perda. Não protege da dor. Protege de ser visto a senti-la.
António chega ao lar ferido, zangado, desconfiado. Não procura uma nova vida nem acredita que os outros possam devolver-lhe aquilo que desapareceu.
E tem razão.
Ninguém substitui ninguém.
Esta é uma das verdades mais exigentes do amor. O outro não vale porque ocupa um lugar que qualquer pessoa poderia ocupar. Vale precisamente porque, quando desaparece, deixa um lugar que nenhuma outra pessoa consegue preencher da mesma maneira.
Mas um lugar vazio não precisa de ser ocupado para que a vida possa continuar à sua volta.
É neste ponto que o romance desloca a pergunta. Já não se trata de saber quem poderá substituir Laura, porque ninguém poderá fazê-lo, mas de descobrir se uma vida profundamente alterada pela perda pode ainda ser alcançada por novas presenças.
No lar, os homens aproximam-se quando já não possuem a ilusão da invulnerabilidade. Os corpos falham, as memórias confundem-se, as famílias afastam-se ou tornam-se insuficientes, e a morte deixou de ser uma abstração longínqua. Ainda assim, alguma coisa começa: uma conversa, uma irritação, uma cumplicidade, uma amizade que não precisava de existir e que, precisamente por isso, adquire uma força inesperada.
A comunidade começa, muitas vezes, entre pessoas que não se escolheriam.
É fácil imaginá-la como reunião dos semelhantes, dos que pensam da mesma maneira, vivem da mesma forma e reconhecem os mesmos códigos. Mas isso é apenas proximidade. A comunidade exige outra coisa: a aprendizagem de permanecer junto de quem não é uma extensão de nós.
No lar, ninguém chega inteiro. Cada um traz as suas perdas, os seus ressentimentos, as suas memórias e as suas falhas. Não formam uma comunidade porque tenham vencido a solidão, mas porque a solidão de cada um começa a ser reconhecida pelos outros.
O humano não vence a solidão.
Interrompe-a.
Por instantes. Durante uma conversa, uma amizade ou os anos suficientes para que outra pessoa passe a guardar uma parte da nossa história.
Mas o romance não permite que esta descoberta se transforme numa consolação fácil. António Silva transporta também o seu passado, e o passado não envelhece da mesma forma que o corpo. Os fantasmas da portugalidade entram no lar com ele: o Estado Novo, o medo, o silêncio, a obediência, a memória de um país que ensinou tantas pessoas a sobreviver sem perguntar demasiado.
A velhice não apaga a responsabilidade, e o sofrimento presente não absolve automaticamente a pessoa que fomos. Podemos ter compaixão por um homem sem o inocentar, compreender a sua fragilidade sem apagar a sua história, reconhecer o sistema que produziu o medo sem transformar o medo numa desculpa para tudo.
A pergunta que atravessara Baltazar regressa agora mais funda: até onde somos responsáveis pelo que fazemos com aquilo que o mundo fez de nós?
Uma ditadura não vive apenas dos homens que mandam. Vive também dos que se calam, dos que têm medo, dos que preferem não saber, dos que sabem e continuam, dos que, não sendo monstros, tornam possível a duração do monstruoso.
É por isso que a máquina de fazer espanhóis não é apenas um romance sobre um velho que perdeu a mulher. É também um romance sobre um homem que, no fim da vida, já não pode fugir inteiramente à pergunta sobre a vida que viveu.
A velhice retira futuro, mas devolve passado.
E nem sempre aquilo que devolve é suportável.
Ainda assim, o senhor Silva não fica sozinho diante dessa memória. Não é absolvido pela amizade, purificado pelo sofrimento ou transformado por uma revelação súbita. Aprende, quando julgava já não haver nada para aprender, que a dependência não é apenas humilhação.
Pode ser vínculo.
Precisar dos outros não é a falha final de uma vida. Foi a sua condição desde o princípio. A criança de o nosso reino não bastava a si própria. Maria da Graça e Quitéria precisavam de alguém que testemunhasse o seu cansaço. O senhor Silva descobre aquilo que passamos grande parte da vida adulta a tentar esquecer: ninguém chega ao fim sozinho porque ninguém começou sozinho.
A vulnerabilidade já não é apenas a possibilidade de ser ferido.
É também a possibilidade de ser alcançado.
Mas ser alcançado por alguém não resolve ainda a pergunta da pertença. Podemos ser vistos, acompanhados, até amados, e continuar sem saber onde é a nossa casa. O sangue oferece uma origem, mas nem sempre oferece abrigo. A proximidade pode nascer da necessidade e transformar-se em cuidado, mas também pode falhar.
Se ninguém basta a si próprio, o que faz de um conjunto de pessoas uma família?
O sangue?
A origem?
O nome?
Ou o gesto de alguém que, podendo ir embora, decide ficar?
Em O Filho de Mil Homens, a pergunta sobre a família começa antes da família.
Começa na falta.
Crisóstomo chega aos quarenta anos sentindo-se incompleto. É pescador, vive sozinho e deseja um filho, não porque exista já uma criança concreta que ame, mas porque imagina que a paternidade poderá preencher alguma coisa que nele permanece em aberto.
O amor nem sempre começa na generosidade. Começa, muitas vezes, na necessidade. Queremos alguém porque estamos sós, procuramos uma pessoa porque acreditamos que ela poderá reparar uma ausência em nós, desejamos ser pais, amantes ou amigos porque a vida dentro de nós parece pedir uma continuação, uma resposta, uma testemunha.
Existe uma fragilidade profunda nesse desejo e também um perigo: quando procuramos o outro para nos completar, podemos acabar por lhe exigir que ocupe o lugar que imaginámos para ele, amando menos a pessoa que chegou do que a função que esperávamos que desempenhasse na nossa vida.
Crisóstomo quer um filho, mas Camilo não chega como resposta perfeita a esse desejo.
Chega com uma história.
Antes de ser encontrado por Crisóstomo, já existiu no mundo, já pertenceu a outras vidas, já conheceu a perda. É órfão, mas não é uma página em branco à espera de ser escrita por quem o acolhe.
Nenhum filho começa nos pais que o recebem.
Nenhuma pessoa começa no momento em que entra na nossa vida.
Reconhecer o outro exige aceitar que ele traz consigo um mundo ao qual não assistimos. É assim que a paternidade de Crisóstomo se torna maior do que o desejo que a iniciou. Ser pai não será encontrar alguém que preencha a metade que falta, mas aprender a acolher uma pessoa inteira.
Quem procura uma metade continua a pensar a partir de si; quem encontra uma pessoa tem de aprender a pensar também a partir da existência dela.
Camilo não vem completar Crisóstomo como uma peça completa um objeto partido.
Vem alterar-lhe a forma.
E essa alteração não termina nos dois. O romance reúne vidas que, vistas pelo mundo onde habitam, parecem ter falhado o lugar que lhes estava destinado.
Isaura carrega o peso de uma sociedade que fez do corpo feminino um território de julgamento. A sua história foi marcada pelo abandono e pela vergonha que os outros lhe ensinaram a sentir. O que lhe aconteceu não permanece apenas no passado: continua na forma como se vê e naquilo que acredita ainda poder esperar da vida.
A vergonha é uma das formas mais eficazes de domínio porque já não precisa de alguém que vigie permanentemente.
Instala o vigilante dentro da própria pessoa.
Depois disso, é ela que antecipa o julgamento, se diminui e confunde aquilo que lhe fizeram com aquilo que é.
Isaura aproxima-se, de outro modo, de Ermesinda. Em o remorso de baltazar serapião, o homem reivindicava o corpo da mulher como propriedade; aqui, uma ordem moral transforma a experiência de uma mulher numa sentença sobre o seu valor. A violência muda de forma, mas conserva a mesma pergunta: quem tem o poder de dizer a uma pessoa aquilo que ela vale?
Antonino conhece outra resposta cruel. A diferença torna-o alvo. Num mundo onde cada pessoa parece saber antecipadamente como um homem deve ser, aquilo que escapa à norma não é recebido como possibilidade, mas como ameaça.
Antonino não sofre porque exista alguma coisa errada nele.
Sofre porque o mundo decidiu que a diferença precisa de ser castigada.
Durante demasiado tempo, as sociedades olharam para quem não cabia na norma e procuraram a falha na pessoa. A literatura pode inverter esse olhar, perguntando não o que existe de errado em quem é rejeitado, mas o que existe de errado numa comunidade que precisa de rejeitar para conservar a ideia que faz de si própria.
É assim que O Filho de Mil Homens desfaz a crueldade da normalidade, não através de um discurso, mas pela aproximação de vidas. Crisóstomo, Camilo, Isaura e Antonino não formam uma família concebida antecipadamente para provar uma tese sobre novas formas de parentesco. Chegam uns aos outros porque cada vida, sozinha, encontrou um limite.
Aquilo que constroem não apaga esse limite. A família não cura tudo, não desfaz o passado, não devolve a Isaura a vida anterior ao julgamento, não retira a Antonino a memória da rejeição, não apaga de Camilo as perdas que precederam Crisóstomo nem transforma Crisóstomo num homem que deixou de precisar.
O amor não corrige retroativamente a vida.
Mas pode impedir que a ferida seja a única coisa que continua.
A família deixa, então, de ser apenas origem e torna-se construção. O romance não precisa de negar a família biológica para afirmar outras formas de pertença; precisa apenas de recusar que a biologia possua o monopólio do cuidado.
Gerar uma pessoa não é o mesmo que reconhecê-la. Partilhar um nome não é o mesmo que permanecer. Pertencer não é apenas vir de alguém.
É também poder ir para alguém.
Até aqui, o humano fora sobretudo aquele que recebe uma herança: um corpo, uma família, uma classe, um género, um país, uma História. Em O Filho de Mil Homens, sem que essa herança desapareça, abre-se outra possibilidade: participar na construção do lugar aonde se pertence.
A família do romance não nasce num único momento. Vai aumentando. Cada pessoa que chega obriga as anteriores a alargar a ideia que faziam do amor. Crisóstomo queria um filho, mas encontrar Camilo não encerra a sua procura.
Abre-a.
Porque o amor, quando não é posse, produz espaço.
Esta é a diferença decisiva entre Baltazar e Crisóstomo.
Baltazar ama estreitando.
Crisóstomo aprende a amar alargando.
Um tenta reduzir o outro ao lugar que lhe atribuiu; o outro descobre que cada pessoa nova obriga a casa interior a tornar-se maior.
O título do romance guarda essa expansão. Um filho de mil homens não é uma criança sem pai. É uma pessoa cuja existência deixa de poder ser explicada por uma única origem. Somos filhos daqueles que nos geraram, mas também de quem nos acolheu, ensinou, protegeu, reconheceu e permaneceu.
A identidade deixa de ser uma linha.
Torna-se uma multidão.
E a família deixa de responder apenas à pergunta "de quem és?" para começar a responder a outra, muito mais exigente: "com quem podes ser?"
O reconhecimento não consiste apenas em aceitar alguém. Aceitar ainda pode significar que existe um centro benevolente que permite ao diferente aproximar-se. Reconhecer é mais exigente: é compreender que a presença do outro modifica o próprio centro.
Antonino não precisa apenas de ser tolerado. Isaura não precisa de ser perdoada por uma culpa que nunca deveria ter sido sua. Camilo não precisa apenas de agradecer o acolhimento.
Uma família só se torna verdadeiramente comum quando ninguém precisa de justificar permanentemente o direito de estar nela.
A aprendizagem do humano alcança aqui uma das suas formas mais luminosas. Não porque a dor tenha terminado, as personagens tenham sido reparadas ou o mundo se tenha tornado justo, mas porque pessoas ensinadas a pensar-se como insuficientes, inadequadas ou sós encontram um lugar onde a sua existência deixa de precisar de pedir desculpa.
Mas pertencer cria uma nova vulnerabilidade.
Só pode perder verdadeiramente quem teve alguém. Só conhece a ausência como rasgão quem viveu uma presença como parte de si. O amor alarga a vida e, precisamente por isso, alarga também a possibilidade da dor.
Depois de construir uma família para além do sangue, a obra conduz-nos ao lugar onde o sangue parece absoluto: duas irmãs gémeas, dois corpos quase pensados como uma só existência, até que a morte deixa apenas uma delas viva.
Se O Filho de Mil Homens pergunta como pessoas separadas podem tornar-se família, A Desumanização pergunta como continua uma pessoa quando a morte parece ter levado consigo metade do seu nome.
Halla não perde simplesmente a irmã. Perde Sigridur, a sua gémea, e é obrigada a continuar num mundo que as tinha pensado juntas. A morte rompe, assim, mais do que uma relação: rompe uma forma de identidade.
Ser gémea significa, no romance, habitar uma proximidade que o mundo vê antes mesmo de ver cada uma. As duas crianças são reconhecidas pela semelhança, pelo vínculo, pela duplicação. Existe um olhar exterior que as reúne e que, ao reuni-las, torna mais difícil perceber onde acaba uma e começa a outra.
Quando Sigridur morre, Halla não fica apenas sem a irmã.
Fica entregue à tarefa brutal de ser uma só depois de ter sido vista como duas.
O luto torna-se também uma crise de identidade. Quem morreu? Quem ficou? E que parte da morta continua a ser procurada no corpo da sobrevivente?
A família, que em O Filho de Mil Homens se alargava para acolher, fecha-se agora sobre uma ausência. A casa já não é o lugar onde pessoas diferentes aprendem a pertencer umas às outras. É o lugar onde a morte permanece. Sigridur desapareceu, mas a sua ausência ocupa espaço, altera os gestos, contamina as relações e transforma Halla naquela que sobreviveu.
Sobreviver pode ser uma acusação.
Não porque Halla tenha escolhido ficar, mas porque a morte de uma criança torna insuportável a existência da outra. A sobrevivente passa a transportar uma pergunta que ninguém precisa de formular inteiramente: porquê ela?
O acaso, quando distribui a morte, pode deixar nos vivos uma culpa sem crime. Quem fica pode sentir que deve alguma coisa a quem partiu: viver mais, viver melhor, justificar o tempo que recebeu, como se cada dia posterior à morte precisasse de apresentar contas.
Mas Halla é uma criança.
E uma criança não deveria ter de transformar a própria vida numa resposta à morte de outra.
O título do romance revela aqui toda a sua violência. A desumanização não acontece apenas quando alguém fere, domina ou exclui. Pode começar quando uma pessoa deixa de ser reconhecida na sua existência singular e passa a ser vista através de uma ausência.
Halla torna-se a gémea que ficou.
A que não morreu.
A que lembra a outra.
A que carrega no rosto a presença impossível de Sigridur.
O olhar dos outros pode aprisionar uma pessoa numa identidade que ela não escolheu. Já o tínhamos encontrado sob outras formas: Ermesinda era olhada a partir da posse masculina; Isaura, a partir do julgamento moral; Antonino, a partir da norma que o condenava por não caber nela.
Halla é olhada a partir da morta.
Em todos estes casos, a violência nasce do mesmo estreitamento: alguém deixa de ser visto como pessoa inteira e passa a ser interpretado através de uma única condição.
A desumanização começa quando uma palavra se torna suficiente para explicar alguém.
É contra essa redução que Halla terá de lutar, embora nem sempre saiba que está a lutar. O luto não lhe chega como uma ideia que possa compreender e organizar. Chega ao corpo, à raiva, ao silêncio, à estranheza de continuar a ocupar um lugar no mundo.
A Islândia não funciona apenas como cenário. A paisagem participa na experiência da perda. O frio, a vastidão, a matéria mineral, a distância e a presença esmagadora da natureza retiram ao humano a ilusão de ser a medida de todas as coisas.
A montanha continua, o frio continua, os animais continuam, o dia regressa.
A natureza não consola.
Esta indiferença é difícil de suportar porque o luto deseja, em segredo, que o mundo tenha sido alterado na mesma proporção em que nós fomos. Se alguém essencial morreu, como pode a manhã continuar a acontecer? Como pode uma pessoa rir? Como pode outra ter fome? Como pode o tempo avançar sem cometer uma espécie de traição?
Mas o mundo não conhece a medida da nossa perda.
É o corpo que tem de a aprender.
Halla vive o luto no corpo que cresce, que se transforma, que avança para uma idade a que Sigridur nunca chegará. Crescer torna-se uma forma involuntária de separação, porque, a cada mudança, Halla se afasta da gémea e entra sozinha num território onde Sigridur já não pode acompanhá-la.
O tempo, que em a máquina de fazer espanhóis devolvia ao senhor Silva o passado, faz aqui o contrário: obriga Halla a avançar para um futuro que a irmã não terá.
A pessoa morta não desaparece da vida de quem fica, mas já não pode continuar a ocupar nela o mesmo lugar. Guardar os mortos parece exigir fidelidade; viver exige transformação. Durante muito tempo, estas duas exigências parecem incompatíveis.
Como continuar sem deixar para trás?
Como mudar sem trair?
Como tornar-se alguém que a pessoa morta nunca chegará a conhecer?
Halla terá de descobrir que continuar não significa substituir Sigridur, apagar a vida partilhada ou aceitar uma explicação para o inexplicável. Significa tornar-se uma pessoa que inclui a perda sem ser inteiramente reduzida a ela.
Esse movimento não é sereno. Valter Hugo Mãe nunca faz do sofrimento um caminho limpo para a sabedoria. A dor pode ferir quem está perto, gerar crueldade, confundir amor e necessidade, levar alguém a procurar no corpo de outro uma saída que o outro não tem obrigação de oferecer.
O sofrimento não concede superioridade moral.
Halla não precisa de ser uma personagem exemplar para que a sua dor seja reconhecida. Não precisa de sofrer bem nem de transformar a morte da irmã numa aprendizagem edificante.
A dignidade humana não depende da elegância com que se suporta a perda.
Existem dores que desorganizam.
E uma pessoa desorganizada pela dor continua a ser uma pessoa.
Halla não pode regressar à infância anterior à morte de Sigridur, porque essa infância deixou de existir. Também não pode tornar-se a irmã morta. O caminho possível passa por aceitar que sobreviver a transformou sem permitir que a transformação a apague.
Somos feitos pelos outros, mas não somos apenas aquilo que os outros deixaram em nós.
Em O Filho de Mil Homens, a identidade alargava-se através das pessoas que acolhemos. Em A Desumanização, descobrimos o perigo inverso: quando alguém ocupa em nós um lugar imenso, a sua perda pode ameaçar ocupar todos os outros.
O amor alarga a vida.
A morte tenta estreitá-la à ausência.
Continuar humano exige impedir que a ausência se torne a única paisagem. Não significa abandonar os mortos. Significa recusar que a morte deles decida inteiramente a vida dos que ficaram.
Halla terá de crescer para além da idade de Sigridur, habitar um corpo que já não possui outro igual ao lado e descobrir uma existência que não apague o vínculo, mas que também não se deixe inteiramente aprisionar por ele.
Depois da família construída em O Filho de Mil Homens, A Desumanização recorda-nos que amar é aceitar uma verdade sem defesa: tudo aquilo a que pertencemos pode ser perdido.
E, no entanto, continuamos a pertencer ao mundo.
A paisagem permanece diante de Halla, imensa, fria, indiferente.
E bela.
A beleza torna-se, então, um problema.
Como pode o mundo continuar belo depois da morte? Que espécie de beleza é essa que não impede a crueldade, não protege e não salva?
III. O olhar e a herança
É desta inquietação que entramos em Homens Imprudentemente Poéticos.
No Japão antigo, a natureza volta a exceder os homens. A floresta, a montanha, os animais, as flores, a água e o silêncio não existem apenas para enquadrar a ação. Participam no mundo do romance, impõem a sua presença e guardam uma dimensão que nenhuma personagem domina inteiramente.
Depois da vastidão fria de A Desumanização, a paisagem continua a confrontar o humano com aquilo que o ultrapassa, mas a pergunta mudou. Já não é apenas como continuar a viver num mundo que permanece belo apesar da nossa dor.
É o que a beleza faz de nós.
E a resposta não é tranquilizadora.
Itaro é artesão. Saburo é oleiro. Vivem como vizinhos e tornam-se adversários, presos a uma hostilidade que cresce até organizar a relação entre ambos. A proximidade não produz reconhecimento.
Produz rivalidade.
Esta é uma das inquietações mais fecundas do romance, porque impede qualquer associação simples entre sensibilidade e bondade. Uma pessoa pode reconhecer uma beleza extraordinária e continuar incapaz de acolher plenamente outra pessoa. Pode compreender a delicadeza de uma forma, a precisão de um gesto, a transformação da matéria, e falhar diante da vida que respira ao seu lado.
A arte não salva automaticamente quem a faz, do mesmo modo que a beleza não educa necessariamente para a bondade.
Gostamos de acreditar no contrário. Atribuímos à cultura, à criação e à contemplação uma força humanizadora quase natural. Imaginamos que quem aprendeu a olhar demoradamente para o mundo terá aprendido também a olhar demoradamente para os outros.
Mas a atenção estética e a atenção ética podem aproximar-se sem serem a mesma coisa.
É possível ver uma flor e não ver uma pessoa, compreender a fragilidade de um objeto e ignorar a fragilidade de um corpo, criar beleza e deixar sofrimento à nossa volta.
A pergunta deixa, então, de ser apenas se somos capazes de sentir.
É preciso perguntar o que fazemos com aquilo que sentimos.
Ao lado de Itaro está Matsu, a sua irmã cega, cuja presença desloca de modo decisivo a própria questão do olhar, porque ver nunca foi apenas possuir olhos.
Ao longo desta travessia, muitas personagens viram sem reconhecer. Baltazar via Ermesinda e não reconhecia nela uma liberdade que não lhe pertencesse. A comunidade via Isaura e Antonino através das categorias que os condenavam. Os outros olhavam Halla e encontravam nela a irmã morta.
A desumanização nunca dependeu da ausência de visão.
Dependeu de uma visão estreita.
De um olhar que já sabia antecipadamente aquilo que estava disposto a encontrar.
Matsu obriga a pergunta a mudar: quem vê verdadeiramente?
Aquele que distingue as formas ou aquele que não reduz o mundo ao que os olhos conseguem dominar?
A cegueira de Matsu, porém, não deve ser transformada numa metáfora fácil de superioridade moral. Ela não vale porque a ausência de visão lhe conceda uma pureza especial. Isso seria apenas outra forma de a reduzir à sua condição.
A sua presença importa por outra razão: torna visível a insuficiência do olhar dos outros e obriga-nos a perceber que reconhecer alguém exige mais do que vê-lo.
Mulher. Pobre. Velho. Diferente. Sobrevivente. Cega.
Cada palavra pode nomear uma realidade.
O perigo começa quando deixa de haver espaço para tudo o resto.
A identidade humana resiste precisamente porque excede os nomes que lhe damos. Uma palavra pode reconhecer uma condição, uma experiência ou uma injustiça; torna-se desumanizadora quando pretende conter a pessoa inteira.
Mas Homens Imprudentemente Poéticos interroga também a rivalidade, essa estranha forma de relação em que o outro se torna indispensável precisamente porque desejamos vencê-lo.
Itaro e Saburo precisam um do outro de uma maneira que nenhum deles escolheria confessar. O adversário organiza o mundo. Dá direção à raiva, oferece um rosto à frustração, permite acreditar que a nossa inquietação tem uma causa exterior e que, se o outro desaparecesse, alguma coisa dentro de nós encontraria finalmente repouso.
Mas o inimigo pode tornar-se uma dependência.
Existem relações que se constroem pela afeição e outras pela hostilidade. Em ambas, o outro ocupa espaço dentro de nós. Pensamos nele, antecipamos os seus gestos, medimos a nossa vida pela sua presença. A diferença é que, na hostilidade, recusamos reconhecer essa dependência e chamamos liberdade ao desejo de o eliminar.
É uma das ironias mais dolorosas do humano: podemos ficar presos precisamente à pessoa de quem queremos libertar-nos.
Quando precisamos de um inimigo para definir a nossa identidade, entregamos-lhe um poder imenso.
A lógica ultrapassa os dois homens. Atravessa famílias, comunidades, sociedades e países. O grupo constrói-se contra outro grupo. A identidade fortalece-se pela exclusão. A certeza de pertencer nasce da existência de alguém a quem se recusa pertença.
O adversário torna-se necessário porque, sem ele, seria preciso enfrentar perguntas mais difíceis sobre nós próprios.
Entretanto, a matéria continua a ser trabalhada, a natureza continua a produzir formas de uma delicadeza extrema, e os homens continuam capazes de crueldade.
O mundo belo nunca foi garantia de um mundo bom.
Mas a beleza, mesmo não salvando, pode interromper. Pode suspender, por um instante, a certeza com que alguém julgava o mundo. Pode obrigar uma pessoa a demorar-se diante daquilo que não compreende.
E essa demora contém já uma possibilidade ética.
A crueldade é muitas vezes rápida: decide, classifica e condena depressa. A atenção precisa de tempo. Olhar verdadeiramente para alguém exige suportar aquilo que ainda não sabemos sobre essa pessoa, resistir à pressa de a explicar e aceitar que o outro permanecerá, em parte, inacessível.
A beleza não nos torna melhores.
Mas pode ensinar-nos a parar.
E quem para pode ainda descobrir que viu mal.
As personagens de Valter Hugo Mãe não se transformam porque recebem uma lição clara sobre a vida. Transformam-se quando aquilo que julgavam saber deixa de ser suficiente. O senhor Silva não escolhe precisar dos outros. Crisóstomo não sabe, ao desejar um filho, a dimensão da família que acabará por construir. Halla não decide que a perda a obrigará a descobrir uma existência para além da irmã.
A mudança começa quando a realidade excede a ideia que cada um tinha dela.
Sentir profundamente não garante compreender melhor. Criar não garante cuidar. Sofrer não garante não ferir. Baltazar sentia e feriu. Halla sofreu e a dor não a transformou numa figura de pureza. O senhor Silva perdeu e a perda não apagou a sua responsabilidade. Itaro reconhece a beleza e isso não garante a bondade.
As personagens de Valter Hugo Mãe não são salvas pela intensidade daquilo que sentem.
São humanas precisamente porque o sentimento não as absolve.
Entre aquilo que nos acontece e aquilo que fazemos com o que nos aconteceu existe um espaço onde começa a responsabilidade.
Não somos responsáveis por tudo o que nos formou. Não escolhemos a família em que nascemos, o corpo que recebemos, a época que nos coube, as perdas que nos atingiram, as normas que encontrámos prontas, os medos que aprendemos antes de saber nomeá-los.
Mas chega um momento em que aquilo que recebemos passa pelas nossas mãos.
E então fazemos alguma coisa com isso.
Repetimos. Alargamos. Ferimos. Cuidamos. Transmitimos. Interrompemos.
É nesse movimento que uma vida se torna também uma resposta.
Mas de onde vem a pessoa que responde? Que infância permanece dentro do adulto? Que medos, humilhações, espantos e afetos continuam a agir muito depois de julgarmos tê-los deixado para trás?
Se os romances anteriores perguntaram o que o mundo faz às pessoas, Contra Mim obriga o escritor a voltar-se para o lugar de onde olha.
Porque ninguém interroga o humano a partir de lugar nenhum.
Toda a pergunta tem uma infância.
Em Contra Mim, Valter Hugo Mãe regressa à sua.
Não para procurar nela uma explicação definitiva para o homem em que se tornou, nem para oferecer ao leitor a chave escondida dos livros que escreveu. A infância não é um arquivo intacto a que o adulto possa regressar para recolher os factos tal como aconteceram.
Entre a criança que viveu e o homem que recorda existe o tempo.
E o tempo não conserva.
Transforma.
Recordar é voltar a uma vida que já não existe com uma consciência que ainda não existia quando essa vida aconteceu. A criança não sabia aquilo que o adulto sabe agora, mas o adulto já não consegue voltar a sentir exatamente como a criança sentiu. Um recorda com as palavras que o outro ainda não possuía. Um reconhece medos, afetos, silêncios e feridas que o outro apenas viveu.
A memória nasce deste encontro impossível entre duas versões da mesma pessoa.
Por isso, escrever a infância nunca é simplesmente recuperá-la.
É enfrentá-la.
O título Contra Mim contém essa tensão. Regressar a si não significa necessariamente reconciliar-se consigo. O passado pode ser um lugar de pertença e, ao mesmo tempo, de confronto. Somos feitos daquilo que recebemos, mas também daquilo contra que tivemos de nos construir.
Existem heranças que acolhemos e outras que passamos a vida a tentar interromper. Existem palavras que nos formaram e palavras das quais precisamos de nos libertar. Existem medos que julgávamos ter deixado para trás e que continuam a escolher por nós muito depois de termos esquecido a sua origem.
A pessoa adulta não sucede simplesmente à criança.
Transporta-a.
Não como uma figura imóvel escondida dentro de si, mas como uma forma antiga de ter aprendido o mundo. Certas experiências desaparecem da memória e permanecem no corpo. Certos gestos foram esquecidos, mas deixaram uma maneira de recuar. Certas humilhações já não conseguem ser reconstituídas com precisão, mas podem continuar na necessidade de agradar, no medo de falhar, na dificuldade de confiar, na violência com que alguém se julga a si próprio.
O passado não precisa de ser lembrado para continuar a agir.
Esta ideia ilumina, de outra forma, os livros que atravessámos. A criança de o nosso reino procurava respostas para um mundo que não compreendia. Baltazar repetia uma ordem que existia antes dele e que aprendera como normal. O senhor Silva transportava até à velhice os medos e os silêncios de um país. Isaura carregava dentro de si o julgamento que os outros lhe tinham imposto. Halla precisava de crescer sem deixar que a morte da irmã se tornasse a única definição da sua existência.
Em todos eles, aquilo que passou continua.
Seria fácil, porém, percorrer os romances à procura do menino que explica o escritor, como se cada personagem pudesse ser devolvida a um episódio da vida e cada inquietação literária tivesse uma origem identificável. Essa leitura empobreceria tanto a vida como a obra.
A literatura não é uma transcrição melhorada da biografia.
Quando uma experiência entra na escrita, transforma-se.
Uma infância pode dar origem a muitas crianças. Um medo pode atravessar personagens que nunca existiram. Uma perda pode reaparecer num lugar que o escritor nunca conheceu. Uma memória pessoal pode tocar alguém que viveu uma vida inteiramente diferente.
É esse o movimento da literatura: partir do singular sem ficar aprisionada nele.
Não somos apenas aquilo que recordamos, porque a memória falha, escolhe, reorganiza e silencia. Mas também não somos independentes do que esquecemos. Entre o vivido e o lembrado existe uma zona obscura onde continuamos a ser feitos.
A pergunta "quem sou?" torna-se, por isso, inseparável de outra: "quem aprendi a ser?"
Muito antes de escolhermos os nossos valores, já recebemos uma educação sobre o que merece ser amado, temido, escondido ou condenado.
Crescer é também descobrir que nem tudo o que aprendemos merece continuar.
É nesse sentido que o «contra» do título ultrapassa o conflito consigo próprio. Tornar-se alguém implica, em certos momentos, voltar-se contra aquilo que em nós foi construído sem o nosso consentimento. Não para negar a origem, o que seria impossível, mas para impedir que a origem se transforme em destino.
A liberdade humana começa, muitas vezes, tarde.
Começa quando conseguimos reconhecer como aprendido aquilo que durante anos confundimos com a nossa natureza.
Olhar para trás não serve, então, para encontrar uma origem pura. Serve para distinguir: o que recebi? O que repeti? O que transformei? O que ainda transporto sem saber?
E o que quero que termine em mim?
Uma vida não se mede apenas pelo que continua.
Mede-se também pelo que consegue interromper.
Baltazar não interrompe a violência que recebeu. Repete-a sobre Ermesinda. O senhor Silva descobre tarde o peso dos silêncios em que viveu. Crisóstomo, pelo contrário, alarga a ideia de família que o mundo lhe entregou. Halla precisa de impedir que a morte de Sigridur determine inteiramente a pessoa em que se tornará.
Cada vida recebe alguma coisa.
Cada vida transmite alguma coisa.
Entre uma e outra existe o lugar frágil da responsabilidade.
Contra Mim torna esse lugar íntimo. Já não se trata apenas de perguntar o que uma sociedade faz aos seus membros, uma família a uma criança ou uma época a quem nela vive. Trata-se de perguntar o que fazemos, dentro de nós, com as vozes que nos formaram.
Nem todas são nossas.
Mas falam com a nossa voz.
A lucidez não salva por si só, mas torna a responsabilidade mais difícil de recusar. Depois de vermos, já não podemos alegar exatamente a mesma ignorância.
A memória deixa, assim, de ser apenas um movimento em direção ao passado. Torna-se uma exigência dirigida ao futuro. Recordar não serve apenas para saber quem fomos. Serve para decidir o que, daquilo que fomos, terá ainda direito a continuar através de nós.
A infância não termina. Transforma-se em linguagem, medo, desejo, recuo, impulso e escolha. Reaparece na maneira como amamos, naquilo que não suportamos, nas pessoas que procuramos e naquelas que afastamos.
Toda a pergunta tem uma infância.
Mas nenhuma pergunta precisa de ficar para sempre presa a ela.
O que acontece a uma pessoa acontece também, de outra maneira, aos povos.
Também as sociedades recebem heranças que não escolheram. Também os países aprendem a contar histórias sobre si próprios. Também a violência se transmite, se disfarça de tradição, se instala na linguagem e continua muito depois de aqueles que a iniciaram terem desaparecido.
A memória individual encontra, assim, a memória histórica.
Se uma pessoa precisa de descobrir o que recebeu para decidir o que não quer repetir, o que acontece quando é uma sociedade inteira que se recusa a olhar para aquilo que fez?
Em As Doenças do Brasil, a História não surge como uma sucessão de acontecimentos concluídos.
Surge como herança.
Porque a História não passa apenas porque o tempo passa.
Fica nos nomes, nas fronteiras, nas línguas, nas hierarquias, nas desigualdades e nos corpos. Fica naquilo que uma sociedade escolhe celebrar e naquilo que prefere não nomear. Fica até na maneira como um país conta a sua própria origem, porque nenhuma narrativa nacional é inocente quando decide quem chegou, quem descobriu, quem conquistou e quem já estava.
As Doenças do Brasil entra nesse território pela ferida.
Honra nasce da violência de um homem branco sobre uma mulher indígena abaeté. Antes de possuir memória, já transporta no corpo uma origem que não escolheu. A sua existência torna-se inseparável de uma pergunta brutal: como habitar um corpo que testemunha a violência de que se nasceu?
Aquilo que aconteceu a uma geração pode organizar a vida das seguintes. A violência muda de corpo, mas não desaparece. Transforma-se em vergonha, raiva, silêncio, desigualdade, suspeita e desejo de vingança.
A vítima morre e a ferida continua a produzir consequências em pessoas que não estavam presentes quando foi aberta.
Por isso, o passado nunca é apenas passado quando continua a distribuir desigualmente a vida no presente.
Honra não é, contudo, apenas a consequência de um crime. Reduzi-lo à violência da sua origem seria fazer da ferida uma identidade inteira.
Uma pessoa não é apenas aquilo que lhe fizeram antes de nascer.
É aqui que a relação com Meio da Noite se torna decisiva. Também ele transporta uma História que começou antes de si. Negro, fugitivo de um mundo marcado pela escravização e pela violência branca, encontra entre os abaeté uma possibilidade de abrigo que a ordem colonial lhe recusaria.
A aproximação entre os dois rapazes não apaga as diferenças das suas histórias.
Obriga-as a encontrar-se.
Nenhum deles representa sozinho uma resposta. É na relação que alguma coisa começa a tornar-se possível.
A História já decidira que deveriam existir em lugares separados.
A violência colonial precisa de separar para dominar. Precisa de criar categorias, estabelecer hierarquias e atribuir graus de humanidade. Precisa de decidir quem é civilizado e quem é selvagem, quem possui alma e quem pode ser escravizado, quem tem direito à terra e quem pode ser expulso dela, quem escreve a História e quem aparece nela apenas como obstáculo.
Antes de matar corpos, o poder aprende a classificá-los.
A classificação prepara a violência.
Quando uma pessoa deixa de ser pessoa e passa a ser apenas membro de uma categoria inferior, torna-se mais fácil retirar-lhe a terra, a liberdade, a língua, o nome e, por fim, a vida.
O poder raramente se descreve a si próprio como violência. Prefere chamar-se ordem, missão, progresso, civilização, descoberta.
As palavras não mudam aquilo que aconteceu, mas podem decidir a forma como uma sociedade aprende a recordá-lo. Um território pode ser "descoberto" apenas se aqueles que já o habitavam forem retirados da frase. Uma conquista pode tornar-se epopeia se o sofrimento dos conquistados for deslocado para as margens. Uma violência pode transformar-se em encontro se o poder de cada lado deixar de ser mencionado.
A História também desumaniza através da gramática.
Decide quem é sujeito.
Quem age.
Quem aparece apenas como objeto da ação dos outros.
A literatura não corrige os arquivos nem substitui a historiografia. Faz outra coisa: obriga a imaginação a permanecer diante das vidas que a narrativa triunfante preferiria transformar em abstração.
Também aqui Valter Hugo Mãe recusa a facilidade moral. Os que sofreram não precisam de ser transformados em seres sem contradição para que a violência que sofreram seja reconhecida.
A vítima não tem de ser perfeita para que o crime continue a ser crime.
Exigir pureza aos feridos é uma das formas mais persistentes de lhes retirar humanidade.
Honra e Meio da Noite importam porque a sua cumplicidade se constrói entre duas pessoas concretas, cada uma atravessada por uma origem que não escolheu e por um mundo que lhes exige respostas para violências anteriores ao seu nascimento.
A pergunta de Contra Mim adquire, então, uma dimensão coletiva: o que queremos que termine em nós?
Para uma pessoa, pode significar interromper um medo, um preconceito ou uma violência aprendida. Para uma sociedade, significa enfrentar heranças que continuam a organizar o presente.
Uns recordam a glória; outros, a ferida. Uns erguem monumentos; outros procuram os nomes que ficaram fora deles. Uns chamam passado ao que aconteceu; outros vivem ainda as consequências.
A memória histórica não é o lugar onde uma sociedade guarda aquilo em que todos concordam. É também o lugar onde se disputa quem tem o direito de dizer o que aconteceu.
Olhar para o passado não é, por isso, uma forma de permanecer nele.
Só se interrompe aquilo que se consegue reconhecer.
O que não é nomeado repete-se com maior facilidade, porque pode regressar disfarçado de normalidade. A hierarquia muda de vocabulário. A exclusão aprende novas justificações. O medo encontra outros corpos.
As doenças do Brasil não pertencem apenas ao Brasil.
A doença é a capacidade humana de construir grandeza sobre a diminuição do outro, transformar diferença em hierarquia, poder em direito e conquista em mérito.
Mas a obra de Valter Hugo Mãe nunca nos deixa apenas diante daquilo que destrói. Mesmo nos lugares mais feridos, alguma coisa procura uma saída que não seja a repetição.
Em As Doenças do Brasil, essa procura passa pela resistência, mas também pela possibilidade da paz.
E a paz é mais difícil do que a inocência.
A inocência pertence a um tempo anterior à ferida e, depois da violência, já não pode ser recuperada. A paz só pode ser procurada por quem sabe que a ferida existiu. Não apaga o crime, não exige esquecimento e não torna iguais as responsabilidades. Procura uma forma de futuro que não dependa da continuação daquilo que o passado ensinou.
Honra e Meio da Noite não podem reparar a História.
Nenhuma pessoa repara séculos.
Importam porque, entre eles, a herança deixa de ser uma sentença inteiramente fechada. A cumplicidade não elimina a violência que os precedeu, mas cria um lugar onde essa violência não decide sozinha aquilo que acontecerá depois.
É pouco.
E é imenso.
Toda a interrupção começa por ser menor do que aquilo que interrompe.
Um gesto diante de uma ordem.
Uma amizade diante de uma História.
Uma recusa diante de séculos.
A aprendizagem do humano nunca prometeu a salvação inteira.
Prometeu apenas a possibilidade de não repetir tudo.
Mas nem toda a herança é uma ferida.
Também recebemos o amor.
Recebemos pessoas que ficaram, gestos que nos protegeram antes de sabermos que precisávamos de proteção, uma lealdade que não exigiu garantias, alguém que continuou a esperar quando já não podia saber se regressaríamos.
Se uma vida se decide também pelo que faz com aquilo que recebeu, o que fazemos com o amor que nos foi dado?
Em Deus na Escuridão, a pergunta regressa ao espaço íntimo da família.
E encontra os irmãos Felicíssimo e Pouquinho.
IV. A incerteza e o nosso tempo
Os irmãos pertencem a um território singular da existência. Chegam-nos antes de podermos decidir se os escolheríamos. Partilham uma origem, uma casa, uma infância, os mesmos adultos vistos de lugares diferentes. Crescem próximos e, no entanto, nunca vivem exatamente a mesma família. Cada filho conhece pais que nenhum dos outros conheceu da mesma maneira. Cada irmão guarda uma versão da casa comum.
Aquilo a que chamamos memória familiar é feito de lembranças que coincidem, se contradizem e, por vezes, disputam entre si o direito de dizer o que aconteceu.
É uma forma estranha de proximidade: conhecer alguém desde o princípio e continuar sem o conhecer inteiramente.
A intimidade mais antiga não elimina o mistério do outro. Pode até torná-lo mais difícil de reconhecer, porque julgamos saber quem uma pessoa é antes de ela ter oportunidade de nos surpreender. O irmão que conhecemos em criança continua, aos nossos olhos, preso a gestos que já abandonou, a medos que aprendeu a esconder, a uma versão de si que sobrevive sobretudo na nossa memória.
As famílias guardam-nos.
E, por vezes, guardam-nos demasiado.
Conservam nomes antigos, lugares antigos, histórias que continuam a ser contadas muito depois de deixarem de explicar a pessoa em que nos tornámos.
Essa memória pode ser pertença.
Pode também ser prisão.
Precisamos de alguém que saiba quem fomos, mas nenhum olhar deveria decidir sozinho quem podemos vir a ser.
O amor que liga Felicíssimo e Pouquinho não é simples, porque nenhum amor verdadeiramente antigo o é. Transporta lealdades, ressentimentos, dívidas, comparações, silêncios e a memória das vezes em que um esteve onde o outro não conseguiu estar.
Os irmãos podem conhecer as mesmas palavras e ouvi-las de maneira diferente. Podem amar a mesma mãe e ter mães diferentes. Podem recordar a mesma infância e não reconhecer a infância que o outro descreve.
A figura materna adquire, por isso, uma importância decisiva. A mãe surge ligada a uma forma de amor que o romance aproxima do divino, não porque seja perfeita nem porque a maternidade transforme uma mulher numa figura sem contradições, mas porque existe nesse amor uma dimensão de permanência que desafia a lógica da troca.
Grande parte das relações humanas vive de alguma reciprocidade. Damos e esperamos. Cuidamos e desejamos ser cuidados. Ficamos porque acreditamos que alguém ficará.
Mas certas formas de amor colocam-nos diante de uma experiência mais radical: continuar sem saber se haverá devolução; esperar sem garantia; procurar sem certeza; permanecer quando a permanência já não pode ser recompensada pela segurança de um resultado.
É nesse lugar que a escuridão do título se torna essencial.
Amar na escuridão não é amar sem ver o outro.
É amar sem ver o fim.
Sem saber o que acontecerá, se o cuidado bastará, se quem amamos ficará, regressará, compreenderá ou responderá da maneira que desejamos.
A escuridão não é a ausência do amor.
É a ausência da garantia.
Durante grande parte desta obra, vimos pessoas tentarem proteger-se da incerteza através do domínio. Baltazar queria possuir aquilo que não podia garantir. A violência colonial procurava transformar a diferença em hierarquia. Itaro e Saburo faziam da rivalidade uma forma de organizar aquilo que não conseguiam resolver dentro de si.
O amor exige o contrário.
Exige suportar a incerteza.
Não sabemos quanto tempo teremos, se seremos correspondidos, se compreenderemos a pessoa que amamos, se conseguiremos protegê-la, se o nosso amor lhe fará sempre bem. E, ainda assim, aproximamo-nos.
Crisóstomo procurou um filho sem saber que a sua ideia de família teria de se transformar. O senhor Silva, depois de perder Laura, deixou-se alcançar por relações que não procurava. Halla teve de descobrir que continuar ligada à irmã morta não significava deixar de viver.
Em todos eles, amar implicava abandonar uma parte do controlo.
Deus na Escuridão leva essa aprendizagem mais longe, porque a lealdade não é apenas ficar quando tudo corre bem. É aquilo que fazemos quando já não sabemos o que o nosso gesto conseguirá mudar.
Existe uma diferença entre esperança e garantia.
A garantia promete um resultado.
A esperança permite continuar sem ele.
Nem todo o cuidado cura. Nem toda a espera traz alguém de volta. Nem toda a lealdade é recompensada. Nem todo o amor salva.
E, no entanto, uma vida em que ninguém cuidasse porque não podia garantir a cura seria uma vida mais pobre. Um mundo em que ninguém esperasse porque o regresso era incerto seria um mundo abandonado àquilo que já estava perdido.
A aprendizagem do humano passa também por agir sem possuir o resultado: cuidar porque alguém precisa, mesmo quando não sabemos se bastará; ficar quando ficar é uma escolha livre e não uma condenação; esperar sem transformar a espera num direito sobre aquele que esperamos; amar sem fazer do amor uma dívida.
Desde o nosso reino, Deus esteve ligado à pergunta. A criança procurava uma resposta divina porque as respostas humanas não bastavam. Agora, depois de tudo o que estes livros nos fizeram atravessar, a relação inverte-se.
No início, a criança perguntava porque Deus não respondia.
Agora, o adulto precisa de decidir o que faz quando a resposta não chega.
Entre os dois livros estende-se quase toda a aprendizagem que percorremos. A infância queria compreender para poder confiar. A maturidade descobre que algumas das coisas mais importantes da vida nunca serão inteiramente compreendidas antes de terem de ser vividas.
Nenhuma mãe recebe garantia de que conseguirá proteger um filho. Nenhum irmão sabe quanto tempo terá o outro. Nenhuma pessoa que ama conhece antecipadamente a forma da perda.
E, ainda assim, vivemos como se o vínculo pudesse ser mais forte do que a certeza da sua fragilidade.
O amor, na sua forma mais exigente, pode ser a persistência do reconhecimento.
Dizer: ainda és mais do que isto.
Mais do que aquilo que te fizeram.
Mais do que o teu erro.
Mais do que a tua ausência.
Mais do que o lugar onde te perdeste.
Não significa dizer que tudo está bem, negar o dano ou absolver sem responsabilidade. Significa recusar que a pior coisa que aconteceu a uma pessoa se torne a única verdade sobre ela.
Quem foi reconhecido por alguém recebe uma responsabilidade.
Não a obrigação de pagar.
O amor não deveria ser uma dívida.
Recebe a possibilidade de fazer continuar no mundo alguma coisa daquilo que lhe foi dado: uma forma de atenção, uma paciência, um gesto, uma maneira de não abandonar depressa.
Durante muito tempo, perguntámos o que fazer com a violência recebida. Agora, a pergunta torna-se mais luminosa e não menos exigente: o que fazemos com o bem que nos fizeram?
Também ele pode terminar em nós.
Podemos receber cuidado e não aprender a cuidar. Podemos ter sido amados e usar esse amor apenas como abrigo. Podemos guardar para nós tudo aquilo que alguém nos ensinou sobre a delicadeza.
Nenhuma herança continua sozinha.
Nem a violência.
Nem o amor.
Ambas precisam de pessoas que as transportem.
Não somos apenas responsáveis por interromper o mal que recebemos. Somos também responsáveis por não deixar morrer inteiramente o bem que nos foi confiado.
A História não é feita apenas daquilo que precisamos de interromper.
É feita também daquilo que não deveríamos deixar desaparecer.
Deus na Escuridão fecha, assim, um longo movimento desta travessia. Em A Desumanização, a relação com o outro começava pela ausência. Em Homens Imprudentemente Poéticos, atravessava a rivalidade. Em As Doenças do Brasil, enfrentava a violência herdada. Agora, chega à lealdade: à possibilidade de continuar ligado sem possuir, de cuidar sem garantia, de reconhecer alguém mesmo quando a escuridão impede de saber como a história terminará.
Mas a escuridão do amor não é a única em que vivemos.
Existe outra, muito diferente.
Não nasce da falta de resposta.
Nasce da incapacidade de suportá-la.
O amor exigia permanecer diante do que não sabemos sem inventar uma certeza que nos protegesse. Exigia esperar, cuidar, continuar, mesmo quando o fim permanecia invisível.
O nosso tempo parece exigir o contrário: uma resposta imediata, uma posição imediata, um culpado imediato, uma certeza que nos dispense do desconforto de ainda não compreender.
Depois de aprender que amar exige suportar aquilo que não sabemos, a obra entra num século que parece ter perdido precisamente essa capacidade.
Um tempo que prefere responder antes de compreender.
Se o amor exige que saibamos viver sem garantias, o que acontece a uma sociedade que já não suporta não ter imediatamente a certeza?
Que espécie de humanos estamos a aprender a ser?
Em O Século dos Imbecis, a inquietação aproxima-se perigosamente de nós.
E encontra Agilulfo, o homem burro, no interior de uma comunidade fascinada pela própria ignorância.
A presença concreta desta figura impede que o livro se dissolva numa reflexão abstrata sobre o nosso tempo. A imbecilidade ganha corpo, voz, fascínio e capacidade de contágio. Não é apenas ausência de conhecimento. É a possibilidade de transformar a recusa do conhecimento numa identidade e, depois, numa forma de pertença.
O imbecil não é simplesmente aquele que não sabe.
Todos ignoramos quase tudo.
A questão começa quando não saber deixa de produzir curiosidade e passa a produzir orgulho; quando a ignorância já não é uma falta que desejamos diminuir, mas uma posição que defendemos; quando aprender se torna suspeito; quando a complexidade parece uma ameaça; quando quem sabe alguma coisa é recebido não como alguém que pode ensinar, mas como alguém que pretende humilhar.
O título poderia oferecer-nos uma satisfação imediata: olhar à nossa volta e reconhecer os imbecis. A palavra é tentadora porque quase nunca regressa a quem a pronuncia. O imbecil é sempre o outro: aquele que pensa mal, vota mal, acredita no que consideramos absurdo, repete uma mentira, escreve com agressividade ou não compreende aquilo que para nós parece evidente.
Mas um livro que servisse apenas para confirmar a inteligência de quem o lê participaria naquilo que procura interrogar.
A questão não é saber onde estão os imbecis.
É perceber em que condições todos podemos participar na imbecilização do mundo.
Nunca tivemos acesso a tanta informação. Nunca a palavra circulou com tamanha rapidez. Nunca foi tão fácil conhecer acontecimentos distantes, ouvir vozes antes silenciadas, denunciar injustiças ou aceder, num instante, a uma parte imensa do conhecimento acumulado. Seria absurdo negar a extraordinária possibilidade humana contida nessa transformação.
Mas ter acesso à informação não é o mesmo que conhecer. Poder falar não significa ter alguma coisa a dizer. Ser ouvido não significa ter razão. E estar permanentemente ligado aos outros pode tornar-se uma das formas mais eficazes de deixar de os escutar.
O que acontece quando a velocidade da reação substitui o tempo da compreensão? Quando a necessidade de ter uma posição chega antes da possibilidade de formar um juízo? Quando a complexidade se torna suspeita porque demora demasiado a explicar? Quando a dúvida parece fraqueza e mudar de opinião parece derrota?
Pensar sempre exigiu tempo. Não apenas para receber informação, mas para suportar o intervalo em que ainda não sabemos o que pensar sobre ela. Entre um acontecimento e um juízo deveria existir um espaço onde se pergunta, compara, procura o que falta, escuta quem viu de outro lugar e admite a possibilidade de estar errado.
É nesse intervalo que o pensamento acontece.
Mas o nosso tempo desconfia do intervalo.
Alguma coisa acontece e somos imediatamente convocados a reagir. A palavra chega antes da compreensão. A indignação precede a investigação. O comentário torna-se prova de presença.
A dificuldade de viver sem resposta, que em Deus na Escuridão surgia como uma exigência do amor, regressa agora como incapacidade coletiva. Amar obrigava a suportar a incerteza. O presente parece exigir o contrário.
Queremos saber depressa quem tem razão, quem tem culpa, de que lado está cada pessoa, que palavra a define e o que devemos pensar.
A certeza oferece-nos aquilo que a escuridão recusava: a ilusão de controlo.
Ao longo destes livros, encontrámos repetidamente o perigo de uma única palavra: mulher, pobre, velho, diferente, sobrevivente, cega, colonizador, vítima, inimigo, imbecil.
Cada palavra pode nomear uma realidade.
Nenhuma deveria bastar para explicar uma pessoa inteira.
Mas o presente parece exigir precisamente o contrário. Precisamos de saber depressa o que alguém é. Depois de classificada, a pessoa torna-se mais fácil de aceitar ou rejeitar.
A categoria poupa-nos ao encontro.
E o encontro demora.
Conhecer alguém é suportar aquilo que não cabe na primeira impressão, descobrir uma contradição depois de julgarmos ter compreendido, perceber que uma pessoa pode estar errada numa coisa sem estar errada em tudo, ter sofrido e continuar capaz de ferir, ter feito mal sem que o mal esgote inteiramente aquilo que é.
Nada disto cabe facilmente na velocidade.
Uma frase dita num instante pode alcançar milhares de pessoas antes de ter sido pensada uma segunda vez. Uma mentira pode circular porque confirma aquilo em que desejávamos acreditar. Uma humilhação pode transformar-se em espetáculo. A crueldade pode receber aplauso antes de a pessoa atingida ter tempo de compreender o que lhe aconteceu.
E tudo isto pode acontecer sem que ninguém se sinta inteiramente responsável.
Partilhámos.
Comentámos.
Repetimos.
Rimos.
Passámos adiante.
A responsabilidade dissolve-se na multidão.
É uma forma contemporânea da velha habituação.
No início, a violência de Baltazar era protegida por uma ordem que a tornava normal. Em o apocalipse dos trabalhadores, vidas eram gastas por desigualdades tão repetidas que pareciam inevitáveis. Em a máquina de fazer espanhóis, os silêncios permitiam a duração quotidiana de um regime. Em As Doenças do Brasil, a linguagem da conquista transformava a violência em civilização, progresso e descoberta.
Agora, a habituação acontece diante de um fluxo que nunca termina. Vemos a guerra e continuamos. Vemos o corpo e continuamos. Vemos a humilhação e continuamos. Vemos a mentira e continuamos. Não necessariamente porque nada nos afete, mas porque tudo exige ser sentido ao mesmo tempo.
A saturação produz uma forma de indiferença diferente daquela que nasce da ausência de informação. Não deixamos de ver porque o mundo está escondido. Corremos o risco de deixar de ver porque o mundo nunca desaparece diante de nós.
O problema pode não ser sentir pouco.
Pode ser sentir depressa demais para que o sentimento se transforme em responsabilidade.
Sentir nunca foi suficiente. Baltazar sentia e feriu. Halla sofreu e a dor não a tornou incapaz de ferir. O senhor Silva perdeu e a perda não apagou a sua responsabilidade. Itaro reconhecia a beleza e isso não garantia a bondade.
A intensidade não absolve.
Também a indignação não.
Podemos defender o humano em abstrato e humilhar o ser humano concreto que discorda de nós. Falar de justiça e usar a crueldade como método. Exigir que certas vozes sejam escutadas enquanto recusamos escutar quem não fala a partir do nosso lugar.
O século dos imbecis começa quando a certeza da nossa própria virtude nos dispensa de examinar os meios que usamos para a defender.
A humilhação pode dar visibilidade. A simplificação pode dar pertença. A fúria pode produzir comunidade. Existem grupos que não se formam em torno daquilo que amam, mas daquilo que odeiam juntos.
Aqui regressamos a Itaro e Saburo.
O inimigo organiza o mundo.
Quando sabemos quem ele é, muitas perguntas deixam de ser necessárias. O outro oferece-nos a possibilidade de permanecer inocentes.
Toda a culpa está do outro lado.
Toda a estupidez está do outro lado.
Toda a violência está do outro lado.
Toda a humanidade está do nosso.
É assim que se começa a deixar de ver.
Não por falta de olhos.
Por excesso de certeza.
A pergunta que Matsu introduzira adquire agora uma urgência inesperada: quem vê verdadeiramente? Aquele que recebe mais imagens ou aquele que ainda consegue demorar-se diante de uma? Aquele que sabe imediatamente o que pensar ou aquele que suporta o desconforto de ainda não saber?
A atenção volta a surgir como possibilidade ética.
Pensar exige demora. Escutar exige demora. Conhecer alguém exige demora. Mudar de opinião também.
O nosso século não sofre apenas de falta de inteligência.
Sofre de falta de tempo interior.
A imbecilização pode começar precisamente aí: não na incapacidade individual de pensar, mas na construção de um mundo em que pensar se torna progressivamente mais difícil. Um mundo que nos interrompe, convoca, indigna e distrai; que nos oferece permanentemente alguma coisa nova antes de termos compreendido aquilo que acabou de acontecer.
A inteligência precisa de condições.
Também a bondade.
Também a democracia.
Nenhuma delas sobrevive bem à incapacidade de prestar atenção.
Uma sociedade democrática não exige apenas que todos possam falar. Exige que exista ainda alguém disposto a escutar. Não exige apenas liberdade de opinião. Exige a possibilidade de rever uma opinião. Não exige unanimidade. Exige que o conflito não transforme automaticamente o adversário em alguém cuja humanidade se tornou irrelevante.
A democracia começa a adoecer quando já não discutimos com pessoas.
Discutimos com categorias.
E uma categoria não sofre quando a humilhamos. Não tem filhos, medo, memória ou contradições. Não nos obriga a hesitar.
É por isso que a desumanização sempre precisou de reduzir a pessoa antes de a ferir.
O problema nunca foi apenas o instrumento.
É aquilo que aprendemos a ser quando o usamos.
Também um século educa. Ensina-nos a velocidade, a exposição, a comparação, a reação. Ensina-nos a transformar a atenção em mercadoria e a intimidade em presença pública.
Mas nenhuma educação é inteiramente irresistível.
Entre aquilo que o mundo nos ensina e aquilo que fazemos com o que aprendemos continua a existir o espaço frágil da responsabilidade.
Em Deus na Escuridão, esse espaço exigia aprender a viver sem garantias.
Aqui, exige aprender a pensar sem certezas imediatas.
Nos dois casos, a dificuldade é a mesma: suportar o que não controlamos sem preencher depressa a escuridão com uma resposta que nos proteja dela.
O humano não é uma conquista definitiva.
Pode ser desaprendido.
O conhecimento acumulado não impede a barbárie. A memória não garante que a violência não se repita. A cultura não torna automaticamente bons. A informação não produz necessariamente pensamento.
Tudo aquilo que nos humaniza precisa de ser praticado outra vez: a atenção, a dúvida, a memória, o cuidado, a capacidade de reconhecer no outro uma vida que não cabe na opinião que temos sobre ele.
Mas praticar tudo isto cansa.
Pensar cansa.
Escutar cansa.
Cuidar cansa.
Continuar a deixar-se afetar por um mundo que oferece todos os dias novas razões para o desencanto cansa.
É nesse ponto que chegamos à tristeza.
Não à tristeza como episódio privado que devemos ultrapassar depressa, como falha da felicidade ou incapacidade de adaptação.
À tristeza como consequência de ter visto.
De ter amado.
De ter perdido.
De ter compreendido que nem tudo pode ser reparado.
O que fazemos com a tristeza depois de ela nos ter ensinado o que sabe?
V. A tristeza e a transmissão
Em Educação da Tristeza, a pergunta já não encontra uma personagem atrás da qual possa esconder-se. Depois de tantas vidas imaginadas, a escrita aproxima-se da perda sem a distância da ficção.
A tristeza deixa de ser um tema.
Torna-se uma forma de conhecimento.
Não porque sofrer nos torne mais sábios. Toda esta travessia recusou essa facilidade. A dor não purificou Halla. A perda não absolveu o senhor Silva. Nenhuma ferida concedeu superioridade moral a quem a transportava.
A tristeza sabe outra coisa.
Sabe que o mundo pode continuar depois daquilo que julgávamos indispensável. A manhã regressa. As pessoas continuam a falar. O corpo volta a ter fome. Alguma coisa pode fazer-nos rir. E essa continuidade pode parecer uma traição.
Já a encontráramos em A Desumanização. Halla precisava de crescer para além da idade de Sigridur, e cada dia vivido a afastava da irmã que permaneceria para sempre na idade em que morreu. Agora, a pergunta regressa sem a proteção de uma personagem: como continuar a amar alguém que já não pode continuar connosco?
O luto começa, muitas vezes, por procurar aquilo que não pode encontrar: a voz, o gesto, a presença física, a possibilidade de contar uma coisa que aconteceu, o lugar onde alguém se sentava, a certeza de que existe, em algum ponto do mundo, uma pessoa a quem ainda podemos regressar.
Quando essa pessoa morre, a ausência não ocupa apenas o lugar onde ela estava. Espalha-se. Aparece nas coisas que gostaríamos de dizer, nas datas, nas músicas, nos hábitos, nos acontecimentos que a pessoa já não conhecerá. A morte não retira alguém uma única vez. Volta a retirá-lo em cada futuro que imaginávamos partilhar.
É por isso que a saudade não pertence apenas ao passado.
Também se tem saudade do que já não poderá acontecer.
Mas Educação da Tristeza recusa que a ausência seja a última verdade sobre aqueles que perdemos.
As pessoas mortas não são apenas as pessoas que já não estão.
Foram pessoas que estiveram.
A diferença parece pequena.
Altera tudo.
Se a morte tiver a última palavra sobre uma vida, todo o amor termina reduzido à perda. Aquilo que recebemos de alguém desaparece sob o peso daquilo que já não podemos receber. A ausência torna-se maior do que a presença inteira que a precedeu.
Mas uma vida não se mede apenas pelo momento em que terminou. Quem amámos continua naquilo que alterou em nós: numa palavra que passámos a usar, numa maneira de olhar, num gesto que repetimos sem saber, numa coragem que aprendemos, numa memória que regressa quando já não estávamos à sua procura, numa forma de amar outra pessoa que só se tornou possível porque aquela existiu primeiro.
Os mortos não continuam porque fingimos que não morreram.
Continuam porque nós já não podemos regressar à pessoa que éramos antes de os conhecer.
É esta a diferença entre negar a morte e recusar que a morte apague uma vida. A primeira prende-nos ao impossível. A segunda reconhece aquilo que ficou.
E o que fica nem sempre consola.
Existem memórias que doem, palavras que não chegaram a ser ditas, despedidas que não aconteceram, culpas que já não encontram a pessoa a quem pedir perdão, relações que terminam sem se terem resolvido.
O amor não se torna perfeito porque alguém morreu. A morte não corrige retroativamente uma relação. Não transforma todas as palavras em ternura nem todos os conflitos em mal-entendidos.
Quem morre leva consigo a possibilidade de algumas coisas serem reparadas. E quem fica precisa de aprender a viver também com o que ficou incompleto.
A tristeza não educa apenas para a ausência.
Educa para o irreparável.
Encontrámos, ao longo desta travessia, muitas formas de chegar tarde. Baltazar compreendeu depois do gesto. O senhor Silva encontrou, no fim da vida, perguntas que o passado já não lhe permitia desfazer. Halla precisou de crescer sem poder regressar ao tempo em que a irmã estava viva. A História de As Doenças do Brasil transportava violências que nenhuma geração posterior poderia tornar inexistentes.
Nem tudo pode ser reparado.
Queremos soluções, fechos, superações. Queremos transformar a dor numa etapa de um percurso cujo destino final seja, de novo, o bem-estar. Mas algumas perdas não se superam.
Integram-se.
A palavra é menos triunfante e mais verdadeira.
Integrar uma perda não significa aceitá-la como justa, desejável ou necessária. Significa reconhecer que ela passou a pertencer à nossa vida e que nenhuma versão futura de nós poderá ser construída como se aquilo não tivesse acontecido.
A tristeza torna-se, então, uma forma de memória: não uma casa onde devamos viver para sempre, mas um lugar interior que prova que alguém importou.
Educar a tristeza não pode significar eliminá-la.
Significa impedir que ela destrua aquilo de que nasceu.
O amor.
Aqui, Educação da Tristeza encontra Deus na Escuridão. O amor que continuava sem garantia encontra a perda que chegou apesar de todo o amor.
Cuidámos e não bastou.
Esperámos e alguém não regressou.
Ficámos e, ainda assim, perdemos.
Sofremos porque amámos, mas o sofrimento pode crescer de tal maneira que acaba por ocultar o próprio amor. A pessoa que morreu começa a ser recordada apenas através da morte. O último acontecimento torna-se maior do que todos os anos anteriores. A doença ocupa a vida. O fim ocupa o princípio. A ausência ocupa a presença.
Educar a tristeza é devolver proporção à memória.
É conseguir, um dia, recordar a vida sem que a morte seja a única coisa que vemos.
Não esquecer como alguém morreu, mas voltar a lembrar como viveu. Não apagar o último dia, mas recusar que esse dia devore todos os outros.
É um trabalho lento.
E não obedece.
A tristeza não aprende por ordem. Não se deixa organizar por calendários, conselhos ou frases bem-intencionadas. Pode permanecer silenciosa durante muito tempo e reaparecer diante de uma canção, de um cheiro, de uma frase dita por outra pessoa.
O corpo recorda antes de sabermos o que estamos a recordar.
Também aqui a obra regressa ao princípio. A criança de o nosso reino sentia antes de possuir palavras suficientes para compreender o que sentia. Em Contra Mim, a infância permanecia no adulto através de formas de olhar e reagir que a memória nem sempre conseguia explicar. Agora, o luto mostra que continuamos a ser criaturas atravessadas por experiências que o pensamento não domina inteiramente.
Não escolhemos sentir.
Mas continuamos responsáveis pelo que fazemos com aquilo que sentimos.
O que fazemos com a tristeza?
Podemos transformá-la em dureza, fazer da perda uma razão para não voltar a precisar de ninguém, acreditar que amar menos nos protegerá de sofrer outra vez, diminuir a vida para que a morte tenha menos coisas para nos retirar.
Depois de perder, aprendemos depressa a imaginar a distância como proteção. Mas não amar para não perder é permitir que a morte chegue antes do tempo. É entregar-lhe também aquilo que ainda vive.
A educação da tristeza começa quando recusamos essa antecipação. Não porque deixemos de ter medo, porque a perda se tenha tornado mais pequena ou porque tenhamos descoberto uma maneira segura de amar, mas porque compreendemos que a vulnerabilidade nunca foi um acidente do amor.
Foi sempre a sua condição.
Desde o princípio, a vulnerabilidade esteve presente. A criança podia ser ferida. Ermesinda podia ser transformada em propriedade. Maria da Graça e Quitéria podiam ser gastas pela necessidade. O senhor Silva podia perder Laura. Crisóstomo podia precisar de um filho. Halla podia perder a irmã. Honra podia nascer dentro de uma História que o precedia. Felicíssimo e Pouquinho podiam amar sem conhecer o fim.
Todos precisavam de outros.
E precisar de alguém é entregar ao mundo a possibilidade de nos ferir.
Não existe amor invulnerável.
Um amor que nada pode perder é um amor que nada arriscou.
A tristeza não aparece, por isso, no fim desta travessia como o contrário da aprendizagem do humano. É uma das suas consequências.
Aprendemos a ser humanos quando reconhecemos que não bastamos a nós próprios; quando permitimos que alguém altere a nossa vida; quando deixamos de amar estreitando e aprendemos a amar alargando; quando cuidamos sem garantia; quando recebemos o bem que nos fizeram e procuramos não o deixar terminar em nós.
Mas tudo aquilo que alarga a vida alarga também a possibilidade da perda.
A tristeza é a medida do espaço que alguém ocupou em nós.
E educá-la significa não permitir que esse espaço se transforme apenas em vazio.
As pessoas que perdemos pertencem ao nosso património mais íntimo. Não como objetos guardados, nem como presenças imaginárias destinadas a negar a morte, mas como parte daquilo que nos tornou possíveis.
Somam.
A palavra é decisiva.
A lógica da morte parece ser a subtração. Existia alguém e deixou de existir. Existia uma voz, um corpo, uma presença, e agora existe a falta. Mas uma vida amada não produz apenas ausência. Produz memória, linguagem, transformação, formas de cuidado que continuamos a transmitir a pessoas que nunca conheceram quem primeiro no-las ensinou.
É assim que os mortos podem participar no futuro sem precisarmos de fingir que continuam vivos.
Continuam no que continua através de nós.
Não é imortalidade.
É transmissão.
Também o amor precisa de alguém que o transporte. Alguém cuidou de nós. Muito mais tarde, diante de outra pessoa, repetimos um gesto cuja origem já quase esquecemos. Quem primeiro o fez pode já ter morrido.
E, no entanto, alguma coisa continua.
Não somos apenas responsáveis por interromper o mal que recebemos.
Somos também responsáveis por não deixar morrer inteiramente o bem que nos foi confiado.
Depois de tantos livros a perguntar o que faz uma pessoa, a resposta começa finalmente a ganhar forma.
Fazem-nos aqueles que nos amaram.
Aqueles que nos feriram.
Aqueles contra quem tivemos de nos construir.
Aqueles que acolhemos.
Aqueles que perdemos.
Os lugares onde vivemos.
A História que recebemos.
As palavras que repetimos.
As palavras que decidimos interromper.
Somos feitos de presenças e ausências, de heranças aceites e recusadas, de tudo aquilo que passou pelas nossas mãos e que tivemos de decidir se repetiríamos, transformaríamos ou deixaríamos terminar.
A aprendizagem do humano nunca foi uma marcha em direção à perfeição. Nenhuma das personagens que encontrámos se tornou inteiramente boa. Nenhuma compreendeu tudo. Nenhuma ficou protegida de voltar a ferir.
O humano não é o lugar onde a contradição termina.
É o lugar onde a contradição passa a exigir responsabilidade.
Depois de tanta violência, perda, cansaço e dificuldade em reconhecer o outro, o que permanece não chega a ser uma teoria da esperança.
É uma fidelidade.
A fidelidade àquilo que nos tocou sem permitir que a dor de o perder nos torne incapazes de voltar a ser tocados.
Continuar a amar depois de saber que o amor não protege da morte. Continuar a escutar depois de conhecer a crueldade das palavras. Continuar a reconhecer pessoas num tempo que prefere categorias. Continuar a pensar quando a velocidade nos pede apenas reação. Continuar a deixar-se afetar sem transformar a sensibilidade numa desculpa para a desistência.
A tristeza sabe que tudo pode ser perdido.
A sua educação consiste em aprender que isso não torna inútil aquilo que existiu.
Torna-o precioso.
E, depois de atravessar a obra de Valter Hugo Mãe, a inquietação inicial já não pode permanecer exatamente a mesma.
Perguntávamos:
o que é preciso para fazer uma pessoa?
E o que é preciso para a desfazer?
Agora sabemos, pelo menos, que uma pessoa nunca acaba de ser feita.
É feita e desfeita muitas vezes: pelo medo e pelo amor, pela violência e pelo cuidado, pelo trabalho e pelo cansaço, pela vergonha e pelo reconhecimento, pela perda e pela memória, pela História que recebe e por aquilo que decide transmitir.
Entre tudo o que a faz e desfaz permanece um espaço pequeno, instável e decisivo onde alguma coisa ainda pode ser escolhida: o que fazer com aquilo que nos aconteceu.
Repetir ou interromper.
Estreitar ou alargar.
Classificar ou reconhecer.
Exigir garantias ou aceitar a vulnerabilidade.
Reagir ou pensar.
Endurecer ou continuar disponível ao espanto.
É nesse espaço que o humano acontece.
Não uma vez.
Não para sempre.
Outra vez.
E outra.
Enquanto formos capazes de olhar para alguém e perceber que nenhuma palavra basta para o explicar.
Enquanto a dor não conseguir convencer-nos de que amar foi um erro.
Enquanto os mortos somarem mais do que a sua ausência.
Enquanto o bem que recebemos encontrar ainda alguém através de nós.
Enquanto houver uma pessoa que, podendo ir embora, decide ficar.
A difícil aprendizagem do humano não termina.
Continua em cada um de nós, todas as vezes que o mundo nos pergunta o que faremos com aquilo que nos deu.
© Manuela Ralha, 2026

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