Cartografias da Responsabilidade - Parte I - 4. A banalidade do aceitável
Legenda da imagem: Imagem de abertura do ensaio “A banalidade do aceitável”, do ciclo Cartografias da Responsabilidade. No centro da composição, um dossiê assinala o título do ensaio, rodeado por relatórios internos, formulários de avaliação, notas técnicas, registos operacionais e documentos de arquivo. As expressões “efeito colateral”, “funcionamento”, “rotina” e “aceitável” surgem dispersas pela imagem como marcas de uma linguagem administrativa que normaliza o intolerável. A bússola, colocada no canto inferior direito, introduz a pergunta ética num espaço dominado pelo procedimento, pela repetição e pela adaptação.
Ambiente sonoro
A proposta de ambiente sonoro para este ensaio é o primeiro andamento da Sinfonia n.º 6 (“Trágica”), de Gustav Mahler: Allegro energico, ma non troppo. A sua escuta acompanha este texto não como ilustração nem como fundo, mas como estrutura de tensão, impulso e vigilância interior.
Neste primeiro andamento, a música avança com firmeza, mas sem triunfalismo. Há nela uma energia afirmativa, rítmica e determinada, que nunca se entrega por completo à exaltação. O movimento impõe-se como marcha, mas uma marcha já atravessada por instabilidade, contenção e sombra. O tema principal regressa, insiste, procura firmar-se, e no entanto nunca encontra repouso pleno. A tensão não é episódica: está inscrita desde o início.
É precisamente essa qualidade que torna este andamento o horizonte sonoro mais adequado para A banalidade do aceitável. Porque também aqui o que está em causa não é a irrupção espetacular do mal, mas a sua instalação progressiva na rotina, na repetição, no funcionamento e na adaptação. A música torna audível esse avanço contínuo e vigiado, em que a tensão não desaparece, mas se torna forma de permanência.
Audição sugerida
Para quem não utiliza esta plataforma: Gustav Mahler — Sinfonia n.º 6, I Andamento, no YouTube
Como o intolerável se torna rotina
(um diálogo silencioso com Hannah Arendt)
O intolerável raramente se impõe de forma abrupta.
Não chega como rutura, nem se anuncia como escândalo. Instala-se progressivamente, por acumulação, por adaptação, por habituação. Torna-se aceitável não porque seja justo, mas porque se repete. Não porque seja defendido, mas porque deixa de ser interrompido.
É assim que a normalidade se constrói.
O aceitável não é aquilo que se considera bom.
É aquilo a que se deixa de resistir.
Este processo não exige adesão ideológica nem intenção malévola. Exige apenas continuidade. Exige sujeitos que cumpram funções, apliquem critérios, executem tarefas dentro de quadros previamente definidos. Cada um responde pela sua parte, pelo seu segmento, pela sua competência específica. O todo não é interrogado. A consequência final não é assumida. A responsabilidade dissolve-se no percurso.
É aqui que a reflexão de Hannah Arendt se torna incontornável — não como metáfora moral, mas como diagnóstico estrutural.
A banalidade de que Arendt fala não designa mediocridade nem superficialidade. Designa algo mais perturbador: a suspensão do juízo. Não a ignorância, mas a abdicação do pensamento enquanto faculdade de distinguir, interromper e dizer não. O mal deixa de precisar de convicção. Basta-lhe a normalidade do cumprimento.
O intolerável torna-se rotina quando deixa de ser pensado.
Não no sentido de desconhecido, mas no sentido de não interrogado. Sabe-se o que acontece. Conhecem-se os efeitos. Reconhecem-se as consequências. Mas não se pergunta se se pode continuar. O pensamento é substituído por explicações funcionais, enquadramentos técnicos, justificações pragmáticas. O que poderia ferir a consciência é absorvido pela linguagem da necessidade.
A rotina é o meio privilegiado dessa absorção.
Na rotina, não se decide: executa-se.
Na rotina, não se escolhe: aplica-se.
Na rotina, não se responde: segue-se.
A repetição cria familiaridade. A familiaridade cria tolerância. A tolerância cria aceitação. O intolerável deixa de chocar porque deixou de surpreender. E o que não surpreende já não convoca juízo.
É assim que a consciência se adapta.
Não por maldade, mas por economia. Pensar cansa. Interromper tem custos. Questionar perturba o funcionamento. A adaptação apresenta-se como realismo. E, nesse processo, o aceitável alarga-se até engolir aquilo que antes seria recusado.
A banalidade do aceitável não é um acidente moral.
É um mecanismo estruturante.
Funciona através da fragmentação da responsabilidade, da especialização das funções, da hierarquização das decisões. Cada sujeito responde apenas pelo seu gesto imediato. O efeito global desaparece do campo da responsabilidade individual. O sistema garante que ninguém se sinta plenamente responsável — e, por isso, que todos possam continuar.
O mais inquietante neste processo não é a presença do mal, mas a ausência de resistência.
Não há conflito.
Não há rutura.
Não há interrupção.
Há funcionamento.
É por isso que o intolerável não precisa de ser defendido. Basta que seja administrado. Bastam relatórios, critérios, pareceres, procedimentos. A linguagem encarrega-se de suavizar o impacto. O que era violência transforma-se em “efeito colateral”. O que era exclusão torna-se “priorização”. O que era sofrimento passa a ser “situação complexa”.
O pensamento crítico é substituído por eficiência.
Mas, como Arendt mostrou, a ausência de pensamento não é neutra.
É politicamente devastadora.
Quando o pensamento abdica, o juízo abdica com ele. E quando o juízo abdica, a ética deixa de operar como limite. O aceitável deixa de ser interrogado. O intolerável deixa de ser reconhecido como tal. A normalidade passa a bastar-se a si própria.
A banalidade do aceitável não depende de contextos extremos.
Pode instalar-se em democracias, em instituições estáveis, em organizações bem-intencionadas. Basta que o funcionamento se sobreponha ao pensamento. Basta que a pergunta ética seja considerada impraticável, ingénua ou inconveniente.
Aqui, importa ser preciso:
o que se perde não é a distinção abstrata entre o bem e o mal.
O que se perde é a capacidade de dizer: aqui não.
A fronteira não desaparece — desloca-se.
E esse deslocamento raramente é vivido como decisão.
É vivido como senso comum.
É neste ponto que a banalidade se torna verdadeiramente perigosa.
Não é o mal que se banaliza.
É o consentimento.
O aceitável instala-se quando já ninguém pergunta se ainda é aceitável. Quando a continuidade se torna critério suficiente. Quando o funcionamento passa a valer mais do que a interrupção. Quando o desconforto ético é tratado como ruído e não como sinal.
Este ensaio não conduz ainda à resistência.
Conduz a algo anterior e mais exigente: à perda definitiva da ilusão de neutralidade.
A partir daqui, já não é possível dizer que se continua por inércia. Continuar passa a ser uma escolha. E é nesse ponto — quando a normalidade deixa de ser inocente e o aceitável deixa de ser neutro — que a ética deixa de poder permanecer apenas no plano da consciência.
É aqui que se fecha a PARTE I.
E é aqui, precisamente, que se abre a PARTE II:
não como promessa de redenção,
não como gesto heroico,
mas como necessidade lúcida de pensar o que significa resistir sem se enganar sobre o preço, os limites e as ambiguidades dessa resistência.
© Manuela Ralha, 2026

Assustou-me particularmente esta ideia de que o mais perigoso não é o mal explícito, mas a normalização silenciosa do aceitável. Porque é verdade, raramente as fronteiras éticas desaparecem de repente. Vão-se deslocando devagar, embrulhadas em linguagem técnica, eficiência e “bom senso”.
ResponderEliminar“O que se banaliza não é o mal, é o consentimento” ficou-me atravessado.
Fico muito curiosa para ler a Parte II, sobretudo essa reflexão sobre resistir sem romantizar a resistência.
Patrícia, já está publicado o Interlúdio da Parte II.
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