Cartografia da Responsabilidade - Parte III - Ética do quotidiano -12. Escolhas trágicas

 


Legenda da imagem: Imagem de abertura do ensaio “Escolhas trágicas”, do ciclo Cartografias da Responsabilidade. No centro da composição, um dossiê assinala o título do ensaio, rodeado por notas manuscritas, esquemas de decisão, listas de alternativas incompletas, marcas de ponderação e vestígios de perda. A disposição dos elementos sugere um campo já ferido à partida, em que nenhuma escolha se apresenta intacta e em que decidir significa sempre preservar algo à custa de alguém. A bússola, colocada no canto inferior direito, introduz a pergunta ética num território dominado pela impossibilidade de reparar plenamente, pela memória do dano e pela exigência de fazer o menos injusto possível.

Ambiente sonoro

A proposta de ambiente sonoro para este ensaio é o III Andamento da Sinfonia n.º 6, de Gustav Mahler: Andante moderato. A sua escuta acompanha este texto não como ilustração nem como fundo musical, mas como estrutura de contenção, permanência e vigilância interior.

Neste andamento, a música abranda depois da marcha e da exposição do conflito. Mas esse abrandamento não significa alívio. A tensão não desaparece; desloca-se para dentro. O movimento sustém um tempo longo, em que nada se resolve por superação e nada se recompõe por completo. A beleza, quando surge, não consola nem absolve. Mantém aberta a experiência do limite, como se cada passo fosse medido pelo custo de continuar.

É precisamente essa qualidade que torna este andamento o horizonte sonoro mais adequado para Escolhas trágicas. Porque também aqui o que está em causa não é a possibilidade de encontrar uma solução limpa, mas a necessidade de decidir num campo ferido, em que qualquer opção preserva algo e sacrifica alguém. A música torna audível esse regime de permanência sob tensão: uma forma de lucidez que não pacifica, não reconcilia e não apaga o peso das perdas produzidas.

Audição sugerida

Para quem não utiliza esta plataforma: Gustav Mahler — Sinfonia n.º 6, III Andamento, no YouTube

Fazer o menos injusto possível

Há um ponto a partir do qual a ética deixa de poder ser pensada como escolha entre o bem e o mal. Não porque o mal se tenha tornado aceitável, mas porque o campo das opções chega ferido à partida. Decide-se num terreno contaminado por desigualdades prévias, constrangimentos estruturais e danos acumulados. A decisão não inaugura a injustiça — administra-a.

É aqui que surgem as escolhas trágicas. Não são raras, nem excecionais, nem reservadas a situações-limite. São o modo habitual de decisão em contextos institucionais, profissionais e políticos. Decisões tomadas sob pressão de tempo, de recursos e de enquadramentos normativos, decisões em que qualquer opção preserva algo e sacrifica alguém.

O carácter trágico destas escolhas não reside no conflito emocional de quem decide, mas no facto de não existir decisão sem perda. Não há gesto que salve todos, não há resposta que não deixe restos, não há opção que permita sair intacto.

A ilusão mais persistente é a de que, mesmo aqui, ainda é possível encontrar a decisão correcta. Essa ilusão cumpre uma função defensiva: permite continuar a decidir como se a justiça fosse apenas questão de método, cálculo ou competência técnica, permite acreditar que, se o procedimento foi rigoroso, o dano produzido deixa de contar como problema ético.

Mas quando todas as opções são injustas, a correção do procedimento não absolve o efeito. Aqui, a ética não pode consistir em acertar; consiste em não apagar o que se perde ao decidir.

Fazer o menos injusto possível não é um critério fraco. É um critério exigente, porque obriga a reconhecer que a decisão produz feridos — e que esses feridos não desaparecem porque a escolha era inevitável. Obriga a manter presente aquilo que o sistema prefere esquecer depressa: quem ficou de fora, quem perdeu, quem suportou o custo.

Nas escolhas trágicas, a responsabilidade não está em encontrar a melhor solução, mas em recusar a mentira moral: a mentira de que não havia alternativa, a mentira de que todos foram protegidos, a mentira de que a decisão foi neutra.

Estas mentiras não negam o sofrimento — neutralizam-no. Transformam-no em efeito colateral, custo necessário, consequência técnica. Ao fazê-lo, permitem que a decisão se repita sem memória, sem resistência e sem revisão.

Assumir uma escolha trágica é aceitar que o dano produzido não pode ser totalmente justificado. É decidir sem transformar a necessidade em virtude. É não confundir inevitabilidade com legitimidade.

Isto tem um preço. As escolhas trágicas não permitem reconciliação interior, não oferecem a tranquilidade de “ter feito o que era certo”. Permanecem como ferida aberta, como desconforto persistente, como dúvida que não se resolve. Não produzem orgulho moral, apenas responsabilidade prolongada.

É por isso que tantas vezes se tenta fechá-las rapidamente — com linguagem técnica, enquadramentos legais, estatísticas, narrativas de eficiência. Tudo serve para calar o resto que incomoda.

Mas esse resto importa. Importa porque impede que a injustiça se torne rotina silenciosa, importa porque resiste à normalização do dano, importa porque mantém ativa a pergunta que o funcionamento quer suspender: quem está a pagar por esta decisão?

Escolher o menos injusto possível não é um acto isolado. É uma prática instável, sujeita a revisão constante. O que hoje é o menos injusto pode amanhã tornar-se intolerável. Esta ética não fixa soluções — mantém vigilância.

E é por isso que é difícil de sustentar. Não permite repouso, não permite encerramento, obriga a carregar a memória das perdas produzidas e a reabrir a pergunta sempre que a decisão se repete.

Mas é precisamente essa memória que distingue a responsabilidade da mera gestão. Quando as escolhas trágicas são tratadas como decisões técnicas, o sofrimento torna-se invisível; quando são assumidas como tal, o sofrimento não desaparece — mas não é apagado. Essa recusa do apagamento é, aqui, o último gesto ético possível.

Depois disto, já não é possível regressar à ideia de ética como orientação segura. O que resta não é clareza, é exposição. A consciência não se pacifica; permanece ferida. O juízo não resolve; insiste.

Neste ponto, torna-se evidente: resistir não é o mesmo que acreditar. Continuar a agir não significa confiar que o mundo pode ser corrigido, nem esperar que a justiça resulte da acumulação de boas decisões. Significa apenas recusar a capitulação total.

É aqui que a ética deixa definitivamente de se confundir com esperança.

O que se segue já não pergunta como decidir melhor, nem como cuidar sem colapsar. Pergunta algo mais incómodo: como resistir quando já não há promessas, quando a lucidez não salva, quando a ação não redime e quando qualquer gesto corre o risco de se transformar em pose, discurso ou autojustificação.

Resistir, a partir daqui, não pode ser romantizado, não pode ser celebrado, não pode ser transformado em identidade moral. A resistência que se anuncia não é heroica, nem luminosa, nem redentora. É uma resistência sem garantias, exercida num mundo que continua a produzir injustiça enquanto aprende a falar corretamente sobre ela.

É nesse território — onde resistir é apenas não colaborar inteiramente, onde agir é muitas vezes conter e não vencer, onde a ética já não promete sentido — que a última parte se instala. Não como conclusão, mas como última exigência.

© Manuela Ralha, 2026

Comentários

  1. Agora é que entramos numa das fraturas mais profundas e dolorosas da experiência humana. Julgo que quando tocamos neste ponto, deixamos de lado a ética dos livros — aquela que funciona em laboratórios conceituais ou em fábulas infantis — e entra no território da tragédia ética.
    Pois neste campo das opções, elas já chegam feridas, e a pureza moral torna-se uma ilusão. Julgo que não há saída limpa.
    Também sei que há cenários onde as estruturas sociais, políticas ou existenciais estão tão corrompidas que todas as alternativas disponíveis contêm violência.
    Em contextos de opressão sistémica, escassez extrema ou crises humanitárias, a omissão também é uma escolha que produz dano. O "não decidir" não limpa as mãos de ninguém; apenas transfere o peso do desfecho.
    Também quando qualquer decisão preserva algo sacrificando alguém, a ética deixa de ser sobre "fazer o bem" e passa a ser sobre a distribuição do dano. É o peso esmagador de gerir a perda.
    Pensar neste território exige substituir a busca pela "solução certa" (que pressupõe uma harmonia inexistente) pela busca do mal menor ou do menos injusto.
    O perigo de focar apenas no "menos injusto" é cair numa matemática fria de corpos e consequências (salvar cinco sacrificando um, por exemplo). Se reduzirmos a ética a um mero cálculo de custos, anestesiamos a nossa humanidade.
    A decisão "menos injusta" não se torna certa ou santa só porque era a única possível. O dano produzido continua a ser um dano. A pessoa sacrificada continua a ter os seus direitos violados.
    O agente ético carrega um peso. Ele não celebra a escolha; ele lamenta a necessidade dela.
    Olhar de frente para este território é aceitar que a ética, às vezes, não serve para nos fazer sentir bem ou justificados, mas para nos manter humanos e vigilantes, mesmo quando estamos imersos na lama das escolhas imperfeitas.
    😁🙏🙏

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    1. Muito obrigada por este comentário, tão denso, tão lúcido e tão profundamente afinado com o núcleo do ensaio.
      Toca num ponto decisivo: há um momento em que a ética deixa realmente de poder ser pensada como escolha entre o bem e o mal e passa a confrontar-se com um campo já ferido à partida, onde nenhuma decisão é limpa e nenhuma saída preserva todos. É precisamente nesse território que o ensaio procura situar-se.
      Parece-me particularmente forte a forma como sublinha que o “menos injusto” não pode ser reduzido a cálculo frio. Esse é, de facto, um risco central: transformar a tragédia em mera gestão de consequências e, com isso, anestesiar a humanidade da decisão. O ensaio tenta justamente recusar essa tentação. Não para negar a necessidade de decidir, mas para insistir em que o dano produzido não desaparece, não se purifica e não se torna moralmente inocente só porque era inevitável.
      Também por isso me parece muito justa a formulação de que o agente ético não celebra a escolha — lamenta a sua necessidade. Há aqui uma diferença fundamental entre decidir e absolver-se. Nas escolhas trágicas, a responsabilidade não está em encontrar uma solução redentora, mas em não apagar quem perdeu, quem ficou de fora, quem suportou o custo.
      É aí que a ética, longe de confortar, se torna mais exigente: não para nos fazer sentir bem, mas para nos impedir de transformar a injustiça em rotina silenciosa.
      Agradeço-lhe muito a inteligência e a força desta leitura.

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