Ciclo Cartografias da Condição Humana - Parte II — O que fazemos uns aos outros - 6. Cuidar: gesto íntimo e ato político

 


Legenda imagem :  As linhas entrelaçadas evocam relação, interdependência e proximidade sem fusão. Não há centro nem hierarquia: o olhar circula, como o cuidado que se constrói na atenção mútua e na continuidade. O movimento lento e sustentado da imagem contrasta com a lógica da pressa e da gestão, lembrando que cuidar é permanecer.

Ambiente sonoro sugerido:
Henryk Górecki — Sinfonia n.º 3 (Sinfonia das Canções Tristes), II Andamento — Lento e largo
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Esta obra é condição humana em música: no segundo andamento da Sinfonia n.º 3, a tensão não eleva nem exalta — expõe.

PARTE II — O QUE FAZEMOS UNS AOS OUTROS

6. Cuidar: gesto íntimo e ato político

O cuidado começa antes da decisão.
Antes da norma.
Antes da política entendida como administração.
Começa quando alguém presta atenção a outro alguém.

Cuidar é um gesto profundamente humano, mas raramente reconhecido como tal. Durante muito tempo, foi remetido para a esfera privada, doméstica, feminina — tratado como inclinação natural e não como trabalho, responsabilidade ou escolha ética. Essa redução não é inocente. Ao despolitizar o cuidado, tornou‑se possível invisibilizá‑lo, desvalorizá‑lo e distribuí‑lo de forma profundamente desigual.

No entanto, nenhuma sociedade existe sem cuidado.
Ninguém se sustenta sozinho.
A autonomia absoluta é uma ficção conveniente.

Cuidar é garantir a continuidade da vida — nos seus momentos de fragilidade, dependência e transição. É responder a necessidades concretas, muitas vezes silenciosas, que não cabem facilmente em indicadores de desempenho ou em calendários institucionais. É estar presente quando o corpo falha, quando o tempo abranda, quando a palavra escasseia.

Por isso, o cuidado não é apenas um gesto íntimo.
É um ato político.

Como sublinha Joan Tronto, o cuidado envolve várias dimensões inseparáveis: prestar atenção, assumir responsabilidade, agir de forma competente e manter a relação. Não se trata de boa vontade nem de compaixão abstrata, mas de uma prática exigente, atravessada por poder, escolhas e consequências.

Quem cuida de quem — e em que condições — nunca é neutro.
Há cuidados reconhecidos e cuidados invisíveis.
Cuidados remunerados e cuidados explorados.
Cuidados que contam como trabalho e cuidados tratados como obrigação moral.

O cuidado informal, assegurado maioritariamente por mulheres, familiares ou redes próximas, sustenta silenciosamente o funcionamento das instituições. Quando falha, torna‑se visível — mas apenas como problema. O cansaço de quem cuida raramente entra no espaço público. A exaustão é naturalizada. O desgaste, normalizado.

Também o cuidado institucional vive uma tensão constante. Profissionais sobrecarregados, tempos escassos, procedimentos rígidos, metas que não dialogam com a complexidade das vidas reais. Cuidar dentro de sistemas desenhados para a eficiência é, muitas vezes, um exercício de resistência ética.

Porque o cuidado exige tempo.
Exige atenção.
Exige relação.
E estas são precisamente as dimensões que mais facilmente são sacrificadas em nome da gestão.

Quando o cuidado é reduzido a protocolo, perde‑se algo essencial. Não porque os procedimentos não sejam necessários, mas porque nenhum formulário substitui a escuta. Nenhuma grelha avalia a dignidade. Nenhum indicador mede verdadeiramente a qualidade de uma relação.

O cuidado torna‑se político quando reconhecemos que a forma como cuidamos — ou deixamos de cuidar — revela o tipo de sociedade que estamos a construir. Revela o que valorizamos. Quem consideramos digno de atenção. Quem deixamos à espera. Quem suporta o custo invisível do funcionamento coletivo.

Cuidar é escolher não virar o rosto.

Mas cuidar não é isento de ambiguidade. Pode proteger, mas também controlar. Pode emancipar, mas também aprisionar. Há cuidados que reforçam dependências desiguais, que infantilizam, que retiram voz. Por isso, o cuidado exige reflexão crítica, vigilância ética e partilha de responsabilidade.

Não basta cuidar.
É preciso perguntar como, quem e em que condições.

Uma política do cuidado não se constrói apenas com boas intenções. Constrói‑se com reconhecimento, redistribuição e participação. Com condições dignas para quem cuida. Com escuta ativa de quem é cuidado. Com a consciência de que o cuidado não é um custo a minimizar, mas um investimento na própria humanidade.

Quando o cuidado é tratado como excesso ou obstáculo, algo se quebra no tecido comum. Quando é reconhecido como critério político, abre‑se espaço para outra forma de organizar o mundo — menos violenta, menos indiferente, mais habitável.

Mas o cuidado, por si só, não basta.
Há contextos em que o cuidado falha, se retira ou é recusado. Há momentos em que o outro deixa de ser visto como alguém a cuidar e passa a ser percebido como ameaça, incómodo ou peso. É aí que o cuidado cede lugar à indiferença.

E é nesse ponto que a condição humana entra numa zona mais sombria.
É para aí que o próximo mapa nos conduz.
Para o momento em que o vínculo se rompe.
Para o momento em que o outro deixa de contar.

Referências comentadas

Ensaio 6 — Cuidar: gesto íntimo e ato político

Joan Tronto
Tronto, J. (1993). Moral Boundaries: A Political Argument for an Ethic of Care. New York: Routledge.
Obra fundadora da ética do cuidado enquanto categoria política. Tronto sustenta a compreensão do cuidado como responsabilidade coletiva e critério de humanidade, desmontando a sua naturalização como gesto privado ou feminino.

© Manuela Ralha, 2026

Comentários

  1. Patrícia Duarte Lavareda18 de janeiro de 2026 às 21:03

    Este texto obriga-nos abrandar e a pensar o cuidado para lá da boa intenção. Ao inscrevê-lo como gesto político, desmontas a ilusão da autonomia absoluta e tornas visível o trabalho invisível que sustenta o mundo. Sem romantizar, expões as tensões, as desigualdades e a exaustão que o cuidado carrega e lembraste que a forma como cuidamos revela, sem disfarces, o tipo de sociedade que estamos a construir.

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  2. Sinfonia n.º 3 de Górecki é uma forma de cuidado intelectual e espiritual. O II Andamento é, na sua essência, um gesto de cuidado de uma filha (Helena) para com a sua mãe, mesmo no meio do horror. A arte existe para cuidar das feridas que a história abre.... Como dizia a inscrição na cela que inspirou Górecki, o cuidado é a força que permite suportar a adversidade. Num tempo de "fios acústicos" e tecnologias invisíveis, o toque, a presença e a atenção continuam a ser as "ondas" que mais influenciam positivamente o nosso organismo.... Os sistemas de eficiência são desenhados sobre o Kairós (tempo quantitativo/produtivo). No entanto, o cuidar exige o Chronos (tempo qualitativo/da alma).... O filósofo Emmanuel Lévinas argumentava que a ética nasce quando olhamos para o "Rosto" do outro e reconhecemos a sua vulnerabilidade.... Manter o olhar, reconhecer a individualidade e agir com empatia num sistema que incentiva a padronização é um ato político e ético...

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    1. Que comentário profundamente belo e atento — uma verdadeira extensão do ensaio.
      A leitura que faz do II Andamento como gesto de cuidado entre mãe e filha, mesmo dentro do horror, é extraordinária. Sim, a arte, neste caso a música de Górecki, cuida — sustém o que parecia insuportável, prolonga a escuta para além do ruído, e torna o sofrimento singular visível num mundo que o tende a abstrair.
      A distinção entre Chronos e Kairós que introduz é essencial para compreender o que está em causa quando falamos de cuidado. É isso mesmo: o cuidado exige um tempo que não se mede, que não se justifica em termos de produtividade. É o tempo da presença, da escuta, da atenção que não corre para responder, mas que fica para sustentar.
      E sim, Lévinas é uma presença subterrânea em todo este ciclo — esse rosto que interrompe, que convoca, que obriga a responder. A ética como resposta ao outro antes de qualquer cálculo. Obrigada por este comentário que honra o texto — e o leva mais longe. Manuela Ralha

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  3. A "Fadiga da Compaixão" como Resíduo do Sistema:
    Sistemas desenhados exclusivamente para a eficiência tendem a tratar o cuidador como uma peça de engrenagem..
    A Consequência: Isso gera a "fadiga da compaixão", onde a pressão por resultados (número de consultas, rapidez de resposta) esgota a reserva emocional do ser humano. Resistir dentro deste sistema implica lutar para não se tornar cinicamente funcional.

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    1. Que observação certeira e necessária. A “fadiga da compaixão” é talvez um dos sintomas mais inquietantes dos sistemas que deveriam, precisamente, cuidar. Quando o cuidado é capturado pela lógica da eficiência, transforma-se num esforço cronometrado, mensurável — e esgota quem cuida. Esgota emocionalmente, mas também eticamente, porque obriga a escolher entre a presença verdadeira e a pressão do desempenho. A imagem do cuidador como peça de engrenagem diz tudo. Perde-se o rosto, a singularidade, o tempo necessário à relação. E como diz tão bem: resistir a isso é um ato ético e político. Lutar para não se tornar “cinicamente funcional” é uma forma de insistir na dignidade do outro — e na própria. Muito obrigada por trazer este ângulo tão importante para o ensaio. Manuela Ralha

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