A Cultura Como Ar e Luta: Notas críticas sobre o ensaio de Antonio Monegal
— Antonio Monegal, Como o Ar que Respiramos
Este foi o último livro que li — e recomendo vivamente.
Este livro faz o que poucos ensaios conseguem hoje: pensa connosco. Obriga-nos a parar, a escutar e a interrogar os pressupostos com que habitamos o mundo. Em tempos de pressa, ruído e banalização do simbólico, Como o Ar que Respiramos recorda-nos que a cultura não é ornamento: é respiração — e, como tal, é sobrevivência.
No seu mais recente livro, Como o Ar que Respiramos: O Sentido da Cultura, Antonio Monegal propõe-se responder a uma pergunta simples apenas na aparência: para que serve a cultura? No mundo saturado de estímulos e assoberbado por métricas de rentabilidade, esta questão revela-se não só oportuna como urgente.
Monegal não oferece respostas apressadas. Em vez disso, convida-nos a pensar a cultura como aquilo que, sendo invisível, estrutura o nosso mundo comum — como o ar, que nos sustenta sem que o vejamos.
O mérito do ensaio reside, desde logo, na clareza e na ambição com que recusa a subalternização da cultura no debate público. Num tempo em que os discursos políticos frequentemente tratam a cultura como acessório ou entretenimento, Monegal reivindica-a como infraestrutura simbólica da vida colectiva, campo onde se constroem significados, identidades, memórias e formas de poder.
Sem ceder a jargões académicos, mas mantendo um rigor conceptual notável, o autor percorre quinze capítulos onde se entrecruzam referências da sociologia, da filosofia política, da teoria literária e dos estudos culturais. De Raymond Williams a Pierre Bourdieu, de Hannah Arendt à análise das dinâmicas digitais contemporâneas, Monegal constrói uma teia reflexiva que procura restituir à cultura o seu estatuto político, simbólico e existencial.
Entre os temas mais estimulantes do livro estão a crítica à lógica utilitarista que transforma a cultura em produto quantificável, a análise da desmediação algorítmica — onde os algoritmos substituem os mediadores culturais humanos — e a proposta de uma ética cosmopolita baseada na escuta e na negociação simbólica.
A cultura, segundo Monegal, não deve ser vista como instrumento de coesão porque nos iguala, mas porque nos permite trabalhar com a diferença — e essa é talvez a sua função mais democrática.
Há, contudo, tensões não resolvidas no livro. A tentativa de sustentar simultaneamente duas concepções de cultura — uma mais restrita, associada às artes e ao pensamento, e outra mais ampla, ligada às práticas simbólicas partilhadas — nem sempre resulta em clareza analítica.
Certos capítulos aproximam-se mais de uma crítica institucional à política cultural, enquanto outros mergulham na antropologia simbólica, deixando o leitor por vezes entre dois planos teóricos.
Além disso, apesar do vigor com que denuncia o esvaziamento neoliberal da cultura, Monegal evita propor modelos institucionais alternativos com maior concretude. A defesa da cultura como bem comum e espaço de negociação democrática é clara e vigorosa, mas as propostas para a sua realização prática permanecem sobretudo no plano ético e conceptual.
Ainda assim, talvez resida precisamente aqui a natureza do ensaio: não encerrar o debate, mas abri-lo. Como o Ar que Respiramos é um texto que nos convoca à responsabilidade, ao pensamento e à cidadania cultural.
Num tempo em que a cultura parece diluir-se entre o consumo efémero e a indignação performativa, Monegal devolve-lhe densidade, conflito e horizonte.
O seu livro não é um manual de políticas culturais, nem um tratado sobre estética. É, antes, uma cartografia crítica do nosso ar simbólico, com os seus envenenamentos, zonas de rarefacção e possibilidades de respiração partilhada.
E essa é, sem dúvida, uma leitura vital.
© Manuela Ralha, 2026
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Mesmo sem ter lido o livro, dá para perceber como Monegal nos faz pensar sobre a importância da cultura na nossa vida. Gostei muito da ideia de que a cultura é como o ar: sustenta-nos sem a vermos, e que nos ajuda a viver melhor em conjunto.
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