Ciclo Cartografias da Condição Humana - Parte III - O que ainda podemos ser - 12. O sonho como resistência

 


Legenda imagem: Algo permanece em suspensão, sem forma concluída nem direção imposta. A imagem não projeta um futuro ideal nem oferece saída imediata. Sugere o sonho como gesto humano fundamental: a capacidade de imaginar para além do que existe, mesmo quando o real se impõe com dureza. Não é fuga, nem promessa — é a recusa silenciosa de aceitar que o mundo está definitivamente fechado

Ambiente sonoro sugerido:

Henryk Górecki — Sinfonia n.º 3 (Sinfonia das Canções Tristes), III Andamento

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No terceiro andamento da Sinfonia n.º 3, a música não resolve nem consola: mantém aberto o tempo. É nesse espaço — entre o que foi exposto e o que ainda não tem forma — que este ensaio se inscreve, pensando o sonho não como evasão, mas como resistência ao fechamento do real.

PARTE III — O QUE AINDA PODEMOS SER

12. O sonho como resistência

O sonho tornou-se uma palavra suspeita.
Associamo-lo à evasão, à ingenuidade, à recusa do real. Num tempo marcado pela urgência, pela escassez e pela pressão constante para responder, sonhar parece um luxo — ou uma distração.

Mas há sonhos que não afastam do mundo.
Há sonhos que resistem a ele.

Sonhar, aqui, não é fugir da realidade nem substituí-la por promessa fácil. É recusar que o presente se feche sobre si mesmo. É manter aberta a possibilidade de que aquilo que existe não esgote tudo o que pode existir. O sonho, neste sentido, não é um gesto de conforto. É um gesto de tensão.

Vivemos num tempo que insiste em apresentar o real como destino.
Como se as formas atuais de organização, de desigualdade, de exclusão fossem inevitáveis. Como se não houvesse alternativa para além da adaptação, da resignação ou do cinismo. O discurso dominante aprende rapidamente a desqualificar tudo o que não cabe nos seus limites: chama-lhe irrealista, impraticável, infantil.

É precisamente aqui que o sonho se torna resistência.

Como propõe Ernst Bloch, em O Princípio Esperança, o humano não vive apenas do que é, mas também do que ainda-não-é. Existe na experiência humana uma consciência antecipadora: a capacidade de pressentir possibilidades que ainda não ganharam forma, mas que insistem como horizonte. Não se trata de previsão nem de promessa, mas de abertura.

O sonho, assim entendido, não nega a dureza do presente.
Habita-a.
Reconhece-a.
Mas recusa aceitá-la como totalidade.

Sonhar é manter vivo o intervalo entre o que existe e o que poderia existir.
É não confundir realidade com necessidade.

Esta capacidade não é espetacular nem ruidosa. Manifesta-se em gestos pequenos: na imaginação de outra forma de organizar o cuidado, na recusa de uma linguagem que desumaniza, na insistência em práticas que parecem frágeis num mundo orientado pela força. O sonho não se impõe; persiste.

Por isso, o sonho não é sinónimo de otimismo.
Pode coexistir com o cansaço, com a lucidez, com a experiência da perda. Não promete vitória nem garante sucesso. Limita-se a manter aberta a pergunta: e se pudesse ser de outro modo?

Num tempo em que a aceleração reduz o futuro a ameaça ou cálculo, o sonho devolve-lhe espessura. Não como plano fechado, mas como campo de possibilidade. Ele lembra que o humano não é apenas adaptável, mas também criador; não apenas reativo, mas capaz de imaginar.

Esta imaginação não é neutra.
É ética e política.

Porque imaginar outro modo de viver implica reconhecer que o modo atual produz danos. Implica recusar a naturalização da desigualdade, da indiferença, da violência sem nome. O sonho torna-se, assim, uma forma de não consentimento silencioso.

Talvez por isso o sonho seja tão frequentemente desvalorizado.
Porque não se deixa capturar facilmente por indicadores, prazos ou resultados imediatos. Porque não se traduz em eficácia mensurável. Porque exige tempo — e paciência — para amadurecer.

O sonho não oferece soluções prontas.
Oferece abertura.

E essa abertura é decisiva. Porque sem ela, o humano limita-se a gerir o que existe. Com ela, mantém-se a possibilidade de iniciar algo que ainda não tem forma. O sonho não substitui a ação, mas prepara o terreno onde a ação pode voltar a fazer sentido.

É neste ponto que o sonho toca outra dimensão essencial da condição humana: a capacidade de recomeçar. Não apagar o que foi, não regressar ao início, mas continuar de outro modo.

Quando o sonho resiste, o futuro não se fecha.
E quando o futuro não se fecha, o humano ainda pode começar.

Referências comentadas
Ensaio 12 — O sonho como resistência

Ernst Bloch
Bloch, E. (2005–2006). O Princípio Esperança (Vols. 1–3). Rio de Janeiro: Contraponto.
Esta obra fundamenta integralmente o ensaio. Em O Princípio Esperança, Bloch desenvolve a noção de ainda-não (Noch-Nicht), entendendo o sonho como consciência antecipadora — não como evasão, mas como resistência ao fechamento do real. A esperança não surge aqui como sentimento ou promessa, mas como orientação ética e política do possível. É a partir desta obra que o ensaio pensa o sonho como gesto humano que mantém aberto o futuro, sem negar a dureza do presente.

© Manuela Ralha, 2026

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