Ciclo Cartografias da Condição Humana - Parte II — O que fazemos uns aos outros - 5. Poder: organizar, excluir, decidir

 


Legenda imagem : Linhas que se cruzam com força desigual definem direções, criam centros momentâneos e produzem margens. O poder não aparece como golpe súbito, mas como orientação contínua do movimento: decide trajetos, concentra energia, deixa zonas na sombra.

Ambiente sonoro sugerido:
Henryk Górecki — Sinfonia n.º 3 (Sinfonia das Canções Tristes), II Andamento — Lento e largo
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Esta obra é condição humana em música: no segundo andamento da Sinfonia n.º 3, a tensão não eleva nem exalta — expõe.

PARTE II — O QUE FAZEMOS UNS AOS OUTROS

5. Poder: organizar, excluir, decidir

O poder raramente se apresenta como violência explícita.
Manifesta-se, mais frequentemente, como organização do mundo.

Organizar é decidir prioridades, definir critérios, estabelecer normas.
É determinar o que conta e o que fica fora, o que é urgente e o que pode esperar, quem é ouvido e quem permanece invisível. O poder exerce-se menos pelo gesto espetacular do que pela repetição silenciosa de decisões aparentemente técnicas.

É por isso que o poder é, tantas vezes, difícil de identificar.
Confunde-se com procedimentos, com rotinas, com uma linguagem que se apresenta como neutra. Parece natural, inevitável, quase administrativa. Mas não é.

Toda a organização implica exclusão.
Toda a decisão produz efeitos desiguais.
Toda a norma constrói margens.

O poder não reside apenas nos grandes centros de decisão. Circula. Inscreve-se nos formulários, nos horários, nos critérios de acesso, nos tempos de resposta. Está presente na forma como se distribuem recursos, atenção e reconhecimento. Age tanto por aquilo que faz como por aquilo que impede de acontecer.

Como mostrou Michel Foucault, o poder moderno não se limita a proibir.
Produz realidades, saberes, categorias. Define o normal e o desvio, o elegível e o descartável, o legítimo e o suspeito. Governa corpos e vidas não apenas pela força, mas pela gestão minuciosa do quotidiano.

Quem decide por quem?
E a partir de onde?

Estas perguntas raramente são feitas nos lugares onde o poder se exerce com maior eficácia. Porque o poder mais sólido é aquele que não precisa de se justificar. Aquele que se apresenta como evidência técnica, como necessidade orçamental, como simples cumprimento de regulamentos.

Mas nenhuma decisão é neutra.
Nenhum critério é inocente.

Sempre que se decide quem tem acesso a um serviço, quem espera, quem é encaminhado ou quem é excluído, está-se a desenhar um mapa de valor humano. Mesmo quando essa decisão se apresenta como objetiva — baseada em números, índices ou prioridades abstratas — ela incide sobre corpos concretos, tempos de vida reais, biografias singulares.

O poder torna-se particularmente visível quando falha.
Quando alguém fica de fora.
Quando um pedido não encontra resposta.
Quando a linguagem institucional substitui a escuta.

No plano local — onde o poder é mais próximo e, por isso mesmo, mais ambíguo — esta tensão torna-se ainda mais evidente. A proximidade permite cuidado, mas também pode amplificar desigualdades. Decidir localmente não é apenas aplicar políticas: é interpretar necessidades, gerir conflitos, escolher onde investir tempo, recursos e atenção.

É aqui que o poder revela a sua dimensão ética.

Exercer poder é, inevitavelmente, assumir responsabilidade pelos efeitos das decisões tomadas — incluindo aqueles que não estavam previstos, que não cabem nos relatórios, que não entram nas estatísticas. O poder que se recusa a olhar para os seus efeitos humanos transforma-se rapidamente em indiferença organizada.

Há poderes que protegem e poderes que expõem.
Poderes que criam condições de dignidade e poderes que normalizam a precariedade.
Poderes que abrem espaço à palavra e poderes que a silenciam.

Reconhecer esta ambivalência é fundamental. Não para demonizar o poder, mas para o libertar da ilusão da neutralidade. O problema não é a existência do poder. É a sua opacidade.

Quando o poder deixa de se interrogar, deixa também de cuidar.

Referências comentadas

Ensaio 5 — Poder: organizar, excluir, decidir

Michel Foucault

Foucault, M. (2022). Microfísica do poder (R. Machado, org. e trad.). Rio de Janeiro: Paz & Terra.
A análise do poder como prática difusa e produtiva permite compreender como normas, procedimentos e dispositivos organizam a vida social e produzem exclusões sem recorrer à violência explícita. Esta obra sustenta a leitura do poder como organização quotidiana do mundo.

© Manuela Ralha, 2026

Comentários

  1. Destaco: Reconhecer esta ambivalência é fundamental. Não para demonizar o poder, mas para o libertar da ilusão da neutralidade. O problema não é a existência do poder. É a sua opacidade.

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  2. Patrícia Duarte Lavareda18 de janeiro de 2026 às 18:35


    Texto como sempre verdadeiro e lúcido a lembra-nos que o poder raramente grita, organiza, classifica, decide e, muitas vezes, exclui em silêncio.
    Tornar visível essa opacidade é um gesto profundamente ético e político.
    Questionar quem decide, a partir de onde e com que efeitos humanos é, talvez, uma das formas mais sérias de cuidar da democracia e da dignidade.

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